Cuba e Eça

Estive em Cuba em 1994, ano muito difícil para o país, mas, apesar de todas as dificuldades, adorei a viagem e adorei sobretudo os cubanos, que não tinham ponta de hostilidade nem ressentimento com os estrangeiros, ou não os mostravam. Portugal teve em Cuba alguns diplomatas conhecidos, mas o mais célebre de todos foi obviamente o escritor Eça de Queiroz, que foi cônsul em Havana. Amanhã vão celebrar-se os 500 anos da fundação da capital cubana e, simultaneamente, o centenário das relações diplomáticas entre Cuba e Portugal com a inauguração de uma exposição, Havana: Uma Cidade com 500 Anos de História, às 16h00, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, antecedida de uma conferência da escritora cubana residente em Portugal, Karla Suarez, sob o título Cuba e Portugal: Eça de Queiroz em Havana, às 14h00, no Auditório da Torre B. Esta palestra é aberta a todos os interessados. Eça sempre a bombar.


 


 


 


 

Comentários

  1. Pois é, isso é tudo muito bonito mas Eça naquela altura detestou Havana de tal modo que passava mais tempo nos EUA do que no Consulado, tinha quem lhe fizesse o trabalhinho burocrático; até esteve para casar com uma americana rica. Meteu cunhas para sair de lá rapidamente e foi para Inglaterra. É um facto que se esforçou para que os direitos dos "coolies" fossem respeitados.

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  2. Concordo inteiramente com a chamada de atenção do primeiro comentário do dia, “assinado” por Anónimo, nome que mais colabora neste blog (anónimos e peregrinos pululam por toda a parte, como cogumelos às primeiras chuvas).
    Apesar de ter o seu retrato no café La Columnata Egipciana, na calle Mercaderes – onde certamente a Rosário tomou o seu cafezinho – Eça não apreciava Cuba por duas razões fundamentais. A primeira, porque o clima de Cuba, muito quente naquele purgatório, não era propício à sua saúde de um homem do Norte, dos planaltos, o que o levou a passar cinco meses nos Estados Unidos e Canadá (essa mesma situação de agravo se verificou quando visitou o Egipto e a Palestina, pelas mesmas razões). Em segundo, porque Eça tinha sido mandado para aquele consulado porque entravam em Cuba muitos milhares de chineses que provinham então de um território português (Macau), para trabalhar como escravos nas plantações da cana de açúcar, em contratos de 8 anos que não eram suficientes para pagar as viagens de regresso.
    Agora é tudo muito bonito, segundo a perspectiva portuguesa e de Mercedes Martinez Valdés, embaixadora de Cuba em Portugal, mas Eça não via então a coisa assim, nem eu o vejo agora, apesar de só encontrarem regalias alguns pedaços de asno que ali as apontam. Enfim… Apesar de me dar bem com o calor, também sou das montanhas, dos planaltos, ocasionalmente nascido na Alfredo da Costa.
    No seu quarto do hotel, em Havana, Eça escreveu “Singularidades de uma rapariga loira”, para o DN, onde escrevia. Se gostasse tanto de Havana e das cubanas, teria escolhido o título “Singularidades de uma rapariga morena” ou “Singularidades de uma rapariga taina” - tainos eram os indígenas pré-colombianos habitantes da região – talvez daí a expressão “tainada”.
    Termino com a frase de uma réplica de Eça de Queiroz a Pinheiro Chagas, numa troca de “mimos” entre ambos: “Fomos grandes pelo que outrora fazia as nações grandes – a força; procuremos tornar-nos fortes pelo que hoje faz as nações fortes – a ideia.”

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    1. Nem por acaso, estou para dar início (talvez hoje) a esse “Singularidades de uma rapariga loira”!
      Obrigada pelas curiosidades todas que conta, e que eu desconhecia.

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    2. "Macário estava sentado à mesa e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loira e amorosa, e a outra esquecida no regaço" (Singularidades... - Eça).

      Caríssima Maria
      Faça sempre um desconto ao que eu escrevo, porque quando insiro opiniões pessoais, tenho sempre a tentação do exagero e da particularidade. Embora eu diga - e repito - que o céu aberto que algum anunciam em Cuba, tem muito de nublado, há que descontar os exageros em ambos.
      Tal como Eça, sou um polemista, pelo-me por uma boa troca de ideias, muita dialéctica e argumentação, o que não significa que tenha sempre razão. Sou tosco, de carapuça, capote e burel, talvez por vezes agreste como a região onde habito. Defendo a minha "dama", procuro chegar a minha sardinha à melhor brasa, logo sou por vezes incompreendido nas opiniões que emito, as quais me levam por vezes (quiçá poucas) a pisar a linha vermelha, como constata a nossa anfitriã.
      Eça não gostava assim tanto de Cuba, não só porque a missão era controlar a parte mais desagradável da exploração humana, como pelo clima e pela solidão num hotel onde praticamente só convivia com americanos e americanas. E eu acrescentei algum amargo depreciativo, o que não quer dizer que Cuba tenha tudo mau. Por exemplo, fui assistido no nosso país por um seu colega médico, de Cuba, que me tratou muito bem, com eficácia, precisão e atenção, o que não significa que esta árvore seja um clone da floresta, mas que tem o seu significado pela positiva.
      Leia a "Singularidades de uma Rapariga Loira", cujo final tem o seu imprevisto. E saiba ainda - se o não disse antes - que gosto muito de ler os seus comentários.

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    3. Não achei que o seu primeiro comentário tenha sido depreciativo, amargo, ou coisa parecida. Aliás, gostei muito do que contou, e por isso o agradeci. Se todos nos defendessemos com recurso à cultura e boa argumentação, talvez fosse o mundo um lugar melhor, mais claro e espirituoso.
      Gostei muito do conto de Eça, e arrepiou-me o seu final inesperado e cruel. Ainda assim, penso tê-lo lido no momento errado, visto ter terminado hoje também o "24 horas na vida de uma mulher", de Stefan Zweig, que me matou de amores...
      Obrigada pelo elogio - Sabe bem saber que se sabe bem ler!

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    4. Eu sou aquele anónimo do 1º comentário. Aprecio os seus comentários e sou admirador do Aquilino, do Torga e do Camilo. Gostava de ler um dia o seu trabalho sobre o Malhadinhas se não me engano.

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    5. Gostei de ler o seu 1º comentário, tanto que repliquei os pormenores que mencionou. Eça de Queiroz, quando chegou a Cuba, tinha apenas 27 anos. O ministro português da tutela (Negócios Estrangeiros) era o Andrade Corvo - que era parecido com Eça, até com monóculo - e sabia que a tarefa que dava ao jovem diplomata, até ali administrador do concelho de Leiria, era das mais difíceis, não só pela natureza do território como pela escravatura que se fazia ali a olhos vistos.
      No geral gosto dos escritores portugueses, se bem que de uns mais do que de outros. Os que apontou estão nessa predilecção.
      Quanto ao trabalho sobre o Malhadinhas vai indo, às vezes aos solavancos como se andasse de carro de bois por ladeira abaixo, outras vezes à velocidade de cruzeiro, com o calendário calculado ao pormenor para estar pronto muito antes da feira de S. Mateus.
      O problema é que estou às voltas com mais três tarefas, duas em desenho e uma em texto, a que acresce mais uma encomenda que hoje me foi proposta, a qual não devia recusar.
      Dizem que o Diabo quando não tem que fazer, caça moscas. Aqui e agora é desporto que não me posso permitir: não é tempo de moscas por estas frias paragens; não tenho tempo nem pachorra para as apanhar; não vejo necessidade de ir para uma esplanada ou café para ver se cai alguma na chávena. E, por muito que às vezes pareça que lhe vista a pele, não sou assim tão diabo.
      Quem tem ficado em prejuízo são os meus blogs, os quais passam fome porque passam dias sem que os alimente, os coitados!
      Por outro lado, sempre arranjo tempo por vir aqui fazer umas "horas extraordinárias". A anfitriã desperta a atenção com as peças diárias que nos serve diariamente e a maioria dos comentadores é de boa qualidade, mesmo os que se identificam como "Anónimo". Eu sou um tagarela quando estou com os amigos. Se não for expulso por infâmia e má figura, por aqui me têm, às vezes com má catadura, a maioria tentando não fugir ao tema proposto pela Rosário ( e ela não gosta).
      É claro que escrevo muito, é difícil parar, como se pode ver nesta resposta, o que significa que desacerto mais do que acerto, lá diriam os antigos "passarinho que canta muito suja o ninho".

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    6. Leve o tempo que levar, da minha parte não há pressa quanto ao trabalho sobre Aquilino. Esperar é uma virtude, já dizia o Confúcio, salvo erro. Já agora quais são os seus blogs, se não é indiscrição?!

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  3. Estive em Cuba o ano passado e adorei.
    Nem por acaso, relembro agora uma das passeatas pelo centro histórico de Havana, durante a qual me deparei, absolutamente sem contar, com uma estátua de Camões. A seu lado estava Cervantes, numa aparente celebração da literatura ibérica. Os meus colegas não ligaram puto, e eu emocionei-me em silêncio.

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    1. Aconteceu comigo o mesmo. Fiquei surpreendido com a descoberta das estátuas de Camões e Cervantes, lado a lado, mas, ao mesmo tempo, com uma imensa alegria e orgulho de sentir o meu país tão bem representado.

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  4. Vi num café que Eça frequentava no centro de Havana uma representação sua que lá colocaram em sua honra e memória. Penso que era um busto esculpido num metal negro, mas posso estar equivocado.
    Da novela aqui mencionada fez Manoel de Oliveira um filme com o mesmo título que infelizmente ainda não vi.

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  5. Acho prestigiante haver recordações e a evocação do nosso escritor maior, em Cuba, essa é que é Eça! Pois então!
    Fosse pelo que fosse, mas aparentemente pelo seu trabalho em prol dos outros.
    Ignorava completamente que ele tivesse sido tão marcante em Cuba, pois como já se disse aqui, sabia que Cuba o marcara a ele, pela negativa pois se dava muito mal com o clima!
    Mas foi bom aprender alguma coisa, sobretudo que deixou a sua marca.

    Saudações tropicais e queirozianas cá da Cidade Morena, que na época (meados do século XIX era uma cidade de febres e um cemitério de brancos, onde portanto vingaram os então chamados "pardos" (mulatos).

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  6. Boa noite com alegria

    Gostei da utilização do verbo "bombar".

    Boas leituras
    cp

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  7. Não compreendo por que razão há tanta aleivosia aos anónimos. Pois se é também opção permitida pela administradora do blogue, por quê estar contra. E por acaso já pensaram que basta falhar aqui a comentar um dia ou dois para ficarmos logo anónimos. Há anónimos que, provavelmente, nem se dão conta de o ser.
    Quanto a Eça e a Havana, está tudo dito. E também fui das que aprenderam umas curiosidades.

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    1. Sim, também acho piada a cascarem nos anónimos, quando a "dona" do blogue os permite, há tantos anos. Além disso, há anónimos que criticam, mas há outros que elogiam.

      Também permito, e sempre permiti, anónimos no meu blogue. As razões para que comentem assim são das mais diversas, e eu acho que se devem respeitar.

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