A nossa pessoa é Pessoa

Dantes, quando um português ia ao estrangeiro (no tempo da outra senhora, como se costuma dizer), só lhe falavam de Amália e Eusébio, como se Portugal não tivesse mais ninguém de jeito. E, se é bem certo que ainda existirão muitos que nos falarão dos conterrâneos Mourinho e Cristiano Ronaldo, a verdade é que felizmente já muita gente nos refere o poeta genial que foi Fernando Pessoa. Isto devemo-lo também a pensadores e estudiosos de outros países, como Antonio Tabucchi, por exemplo, que a ele se dedicaram de alma e coração e o divulgaram por todo o mundo. E ainda hoje jovens académicos como Jeronimo Pizarro, da Universidade dos Andes, na Colômbia, dirigem revistas de estudos pessoanos, como a Pessoa Plural, que no seu último número conta com o poeta Antonio Saez-Delgado como editor-convidado e Onésimo Teotónio de Almeida como co-editor. É um número especial com artigos de muitos especialistas em Pessoa vindos das Sete Partidas do Mundo e por isso altamente recomendável para quem quer ver como Pessoa se está mesmo a tornar a nossa Pessoa. Mais informação aqui:


 


http://pessoaplural.com 


 


Pessoa.png


 

Comentários

  1. É bom que as pessoas estrangeiras falem de Pessoa, uma vez que as pessoas nacionais nem se preocupam em recordar a sua obra. A revista parece ser de interesse sobre o Fernando dos heterónimos, se bem que eu não veja Pessoa como um matraquilho - na capa, ou fora dela, para mim uma imagem não tem apenas o significado estético, mas sobretudo a mensagem, que nesta não vislumbro.
    Curiosamente, apesar da sua profissão mais "submissa", nunca percebi em Pessoa alguém que exercesse, a par, a profissão de lambe-botista, como é vulgar hoje em dia e não como acto isolado. Assim refiro essa "arte" no post que coloquei há instantes no meu blog. Para além da sua obra, a sua figura e o seu estatuto livre, revelam-me um Fernando Pessoa autêntico, genuíno, com cervical direita. É essa imagem que eu queria que os estrangeiros entendessem dos portugueses, alguns tendencialmente de coluna vergada, como cabo de guarda-chuva. No Livro do Desassossego, encontro palavras de Pessoa para este estado de alma:
    "Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. Viviam da intoxicação da vaidade e do ócio, e morriam molemente, entre coxins de palavras, num amarfanhado de lacraus de cuspo".

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  2. Óptimo e Extraordinária notícia, Pessoa merece, porque foi Extraordinário e ainda o é, será sempre.

    Vou se calhar dizer uma asneira, mas o português parece ter perdido a capacidade de pensar e de interpretar aquilo que o rodeia, ao contrário de outros povos. Há portugueses que pensam, que interpretam, por esse Mundo fora, mas raramente têm reconhecimento tanto pelos seus quanto pelos de fora.

    Há estrangeiros, que pensam, que se espantam com a nossa capacidade de em tempos termos iniciado um movimento Extraordinário e imenso que foram os descobrimentos, que alguns portugueses actuais, dos que não pensam, acham que foi apenas ir à busca de escravos, sem conseguir ver nem perceber o envolvimento que exigiu e proporcionou tanto ao conhecimento da época quanto para todo o Mundo, pelas portas que se abriram com essa iniciativa.

    Porque nesse tempo, havia quem pensasse, em vez de apenas seguir os outros, como se passou a fazer, não sei em que altura exacta mas talvez a partir do Marquês de Pombal, que foi um iluminado e era uma mente superior, porém castrante e dominadora que não queria os demais a pensar… e essa escola parece ter-se instalado e perdura até hoje.

    Porque digo isto? Pois reparem nos trabalhos universitários, que são sempre classificados em função não do conhecimento novo que tragam, mas sim daquele que se vá copiar a trabalhos já existentes, é pela biografia consultada que são medidos!
    Assim nem se promove a descoberta nem a procura do conhecimento , apenas se mantém o que já existe.
    Depois, há que ir para fora, em busca da oportunidade, pois por cá não há lugar… em compensação um reitor de universidade prestigiada, abraça oficial e institucionalmente uma causa discutível e controversa, dando apenas prova de seguidismo e nem por isso de esclarecimento ou sabedoria.

    Posso estar errado, mas Pessoa e outros Portugueses que pensaram e nos ajudam a pensar, serão melhor aceites e interpretados fora do que cá dentro, onde a tónica continua a ser o não pensar, e sim seguir os outros, como modo de afirmar modernidade, sofisticação e cultura.
    É pena, mas parece ser assim… enfim, a minha opinião vale o que vale.

    Saudações encharcadas cá do Bairro Ribatejano onde o aquecimento local ainda não faz mossa…

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    Respostas
    1. Ó Caríssima Maria do Rosário perdoe-me a ousadia e o atrevimento, mas pés na terra:
      - os estrangeiros que antigamente só nos falavam do Eusébio e da Amália hoje só falam do Cristiano Ronaldo, qual Pessoa qual carapuça.
      Se perguntar a 99% dos portugueses (e não só) o que conhecem de Fernando Pessoa eles ficarão a balbuciar...gr gr gr gr...
      Quando no Joker (concurso da RTP1) vejo professores de português que não sabem diferenciar um pronome pessoal de um pronome possessivo, licenciados, doutorados que não fazem a mínima ideia de quem foi Raúl Brandão, Sá de Miranda, é um sonho pensar que 1% dos portugueses conheça algo da obra de Fernando Pessoa quiçá, até quem foi Fernando Pessoa (e não estou a ser exagerado) -somos (os que gostam de livros) uma minoria tão minoria como um grão de areia no deserto.
      Já o grande VERGÍLIO FERREIRA dizia "a cultura só se aprecia depois de se ser culto"...

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    2. A melhor explanação de sempre. Parabéns caríssimo
      Cláudia da Silva Tomazi

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    3. Concordo consigo, tem absoluta razão, só um cego não vê esta realidade feita de indigência mental, não só nas televisões. Mas ainda subsistem meia dúzia de lúcidos que vão mantendo a chama fora do rebanho, valha-nos isso.

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  3. Há, sim. Está humanidade inflamada em verdade e acalorada com impávido brilhantismo salutar. A memória desde sempre altaneira, exige e persiste em exigências e comparações e se por um lado assemelham-se do passado por outro o confrontam sabedoria. Parabéns extraordinário António Luís Pacheco pela solidez em vossa palavra.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Tenho de actualizar as minhas pequenas apresentações, a publicar no meu canal do YouTube...
    "Sê plural como o universo!"
    Títulos e excertos de Resumos.
    https://www.youtube.com/playlist?list=PLTdmroMOfdIruZ0M9_EyU1bqzV_pc1zX9
    Espero que gostem.
    Votos de BOAS FESTAS.
    Cumprimentos de
    José Couto
    Porto

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