O nosso Eça
Como seria mais do que justo (imperioso mesmo, dado os que já lá estavam...), hoje seria o dia em que os restos mortais do grande escritor português Eça de Queiroz iriam finalmente para o Panteão Nacional, o que não aconteceu por causa de uma providência cautelar promovida por um ex-autarca de Baião, que não quer que o corpo saia de lá (acha que chama gente ao local) e que conseguiu ser apoiado por seis dos vinte e dois bisnetos do escritor. Mas Eça é daqueles que não morre, por isso é tão importante que continuemos a lê-lo, a relê-lo e a aprender com ele, independentemente do lugar onde estiverem os seus ossos. A Fundação com o seu nome, cujo presidente é um trineto de Eça (o escritor Afonso Reis Cabral), tem, de resto, feito um excelente trabalho neste sentido; e até tinha um programa para o último fim-de-semana na famosa casa de Tormes (a de A Cidade e as Serras) que foi cancelado por causa da polémica, mas cujas actividades incluíam realizar a entrega do Prémio Eça de Queiroz (para um romance de um autor com menos de 40 anos, neste caso A História de Roma, de Joana Bértholo), promover visitas guiadas à casa e mostrar um arquivo seleccionado do escritor, com peças e documentos raros, bem como alguns objectos pessoais que habitualmente não são exibidos publicamente. Agora vamos ter de esperar, e com o tempo que a nossa Justiça costuma levar, Eça continuará no pequeno cemitério em que está mais uns tempitos.
Com a celeridade que é conhecida à "justiça" portuguesa, o autarca vai certamente terminar o seu mandato tranquilamente com o escritor na sua tumba... aliás muitas vezes, advogados espertos e que ganham fama de competentes por saberem jogar com os prazos, usam esse factor, o tempo que justiça leva a fazer tudo, para impedirem as coisas de acontecerem.
ResponderEliminarNão tenho conhecimento bastante das razões alegadas por uns e outros para tomar partido.
No entanto é uma discussão que me afecta, enquanto seu dedicado leitor.
Uma coisa eu imagino com facilidade que espero não seja tomada como ligeireza: Eça era vaidoso, portanto deveria preferir o Panteão por razões de estatuto, mesmo depois de morto.
Posso estar errado, claro, e, não tomem isto como uma ofensa ao insigne escritor, pelo contrário, pois ter vaidade pessoal é a meu ver uma qualidade que permite a quem tenha mérito, fazer-se notar. Quem não o tenha, é apenas tolo... o que não é o caso.
E, não me venham com o estafado discurso da "humildade", pois para mim a famosa humildade dos portugueses é do mais falsa que há. É sobretudo fruto da hipocrisia mesquinha de quem se habituou a viver de cerviz inclinada, a dobrar servilmente a espinha, em vez de se erguer com o orgulho que cada um deve ter, por medo de se assumirem.
Eça deve orgulhar-nos a todos, penso que por tudo aquilo que deixou escrito e pelo que representa num nível até bem mais alargado. Ele é nosso, deixou de pertencer a uma família ou a um lugar. A menos que o tenha manifestado expressamente, julgo que o Panteão deve ser a sua morada.
O que ganhamos com isso?
Nós, nada. Porém ganha a sua memória em dignidade e no nosso reconhecimento.
Quanto ao Afonso Reis Cabral, creio já ter dito e repetido por aqui e até noutros locais, que o considero deveras uma promessa na nossa pobre e repetitiva escrita. Sou fã assumido dele, não por ser neto daquele mas pelo que me identifico com a sua escrita.
Envio daqui um abraço ao Afonso e peço me compreenda se fui eventualmente discordante da sua posição, mas é assim que sou, continuarei a lê-lo com o mesmo prazer e atenção!
Saudações queirosianas cá da Cidade Morena.
Saudações da aldeia do Düssel, concordando absolutamente a humildade portuguesa.
ResponderEliminarQuanto ao Afonso, que conheço pessoalmente, é o meu autor de eleição.
Não me interessa o lugar, onde os ossos do meu „deus da Literatura Portuguesa“ se encontram. Importante é que não seja esquecido. Um dia qualquer, conto um caso com aluno do liceu. Bem, ele sempre detestou literatura, mas é um excelente matemático.
Nada me importa onde estejam os restos de Eça. No mais amplo sentido do termo, o único que me interessa está nos livros que leio e releio. Essa é, dentro da mortalidade de todas as coisas, o que resta e nos deleita.
ResponderEliminarCaro Pacheco, parece que, afinal, e neste caso, a «justiça» portuguesa até que foi algo célere...
ResponderEliminarhttps://www.tsf.pt/portugal/sociedade/providencia-cautelar-para-evitar-transladacao-de-eca-de-queiroz-para-o-panteao-considerada-sem-efeito-17076747.html
... mas, previsivelmente, tal decisão não vai significar o fim da controvérsia e do debate. Pessoalmente, sou contra a trasladação. Eça de Queiroz não fica mais dignificado por ser transferido para o «depósito de celebridades» da república, bem pelo contrário. Além de que esta iniciativa é mais uma ilustração, mais uma confirmação, de uma das hipocrisias fundamentais da sociedade portuguesa contemporânea: muitos que tanto falam contra o «centralismo» da capital e a favor da «regionalização» certamente apoiam este roubo que se faz ao concelho de Baião. E digo isto enquanto lisboeta...
Agora, espanta-me, e desilude-me, a posição da Fundação Eça de Queiroz e do seu actual presidente. Seria de esperar que preferissem manter o corpo do escritor perto da sede da instituição, enfim, perto da casa e da quinta que tanto significaram para ele.
Aceito e respeito, integralmente aquilo que diz!
ResponderEliminarSão boas razões, sem dúvida.
Abraço justo e célere cá da Cidade Morena.
Se me permite, minha Cara, sem querer ofender, mas chamo a sua atenção que é justamente pelo facto de que muitos não querem saber, que se praticam todos os desmandos e toda a casta de atropelos.
ResponderEliminarDiscordo. Devemos querer saber, pelo menos acompanhar mesmo sem nos metermos ao barulho, directamente. Não me meto no assunto e repito que não sei o bastante para tomar partido, no entanto emiti uma opinião que foi bem contrariada pelo nosso Octávio Santos.
Afinal mesmo sem querer saber, interessa-nos e afecta-nos!
Não parece seu, ou deve-se a uma sensação de impotência que todos sentimos e advém justamente de haver pouco interesse e pouca participação? A Bea habituou-nos pelo contrário a ter e sustentar opiniões.
Não me leve a mal e creia-a que é com estima e por respeito que digo isto.
Saudações Queirosianas!
Ai ... texto sem revisão! Peço desculpa pelos atropelos, mas espero tenha percebido.
ResponderEliminarQual é o problema de cemitérios pequenos? Valem menos que os outros?
ResponderEliminarMais um "casinho" para juntar a tantos outros, deste país que só gosta de discutir" coisinhas".
ResponderEliminarSe a maior parte dos familiares estão de acordo com a ida do corpo do Eça de Queirós para o Panteão, não vejo que essa posição possa ser alterada.
Não é um ex-presidente de junta, que já teve os seus cinco minutos de fama, que irá decidir o destino do Eça...
O Eça, dizem, ao Panteão?
ResponderEliminarOra essa, e porque não?
Desculpem: é com ‘s’, ou é com ‘z’
O Queirós/z? Ora, logo se vê.
E ele, é p’ra Lisboa, ou fica em Baião?
Para uns, é justo. Para outros, traição.
Um bisneto diz, 'Sim', o outro, 'Não'.
- Olhe que siiim! - Olhe que nããão!
Puxa-se, pega-se, estica-se: - Perdão,
ele já cá esteve no Alto de S. João!
Lembra, irritado, o Lisboeta refilão.
- Santa Cruz do Douro, tanta opinião!
Na rua, o povo pede preces e sermão:
- Antes revolução, que transladação!
Ainda há-de correr sangue pelo chão!
Ouça, diz-se ‘tras’ e não ‘transladação’.
- E então? A m... é a mesma, não?!
Sus! Algum tribunal terá disto decisão?
- Ele fica! Não vai! - Ai vai, vai. Não fica, não!
E as ossadas, coitadas, tanta profanação,
na tumba aos saltos à cause da Fundação.
Fosse vivo Sena, que cena seria, pois então.
Tragam-me as Farpas, chamem o Ortigão.
Não há paciência para tanta complicação.
Só mesmo os políticos para esta cominação.
E eu ali, tranquilo, a fazer-me de morto. Não
tinham de me desassossegar com esta obsessão
de remexer em ossos. Só nos livros é que não.
Ai Portugal. Ponham-me lá a placa da emulação
e acabem com esta homenagem em segunda mão.
Deixem em paz a tumba e o esqueleto cristão
que o meu corpo pagão pertence a nenhum chão.
Ide todos de-retro, mais o vosso amor de perdição.
O que m’importa, verdadeiramente, é quem me lê.
José Maria Eça de Queiró (seja com ‘s’, seja com ‘z’)
Aos 26 de setembro de 2023, cemitério de Baião
Assinatura (ou rúbrica) ilegível, pelo próprio, à mão
(Texto recebido em cima da hora, sem revisão
à revelia dos herdeiros. SIGA PARA PUBLICAÇÃO)
Entendi, pois claro. Tal como admito opiniões diferentes da minha. Mas não acha o senhor que o "nosso" Eça já teve os ossos mudados vezes demais? Basta ler a história dos seus funerais. Por acaso engrandece-o estar no panteão? A grandeza do homem, se existiu, deu-se enquanto viveu e no bem que fez aos outros. A do escritor será enquanto haja quem o leia e aprecie (o que é também um bem que nasceu dele e permanece), lhe dê o valor que tão justamente merece. Talvez haja quem pense que sim, que mudá-lo mais uma vez é que é. É gosto que não cultivo - mas, ir a Vila Viçosa e ver, logo na entrada do cemitério, o túmulo simples de Florbela, comove-me.
ResponderEliminarE tem mais, havendo muita voz, julgo que a minha não faz falta, é burburinho a mais para o meu gosto e por motivos que sabe Deus e cada falante. Gosto de pensar que aos olhos desse Deus de que duvido crendo (ou o inverso), somos todos iguais. Mas posso estar ao engano.
O que realça a glória de um escritor não é a trasladação dos seus restos mortais para a capital - mas sim o número de almas que o lêem, independentemente de seus ossos repousarem num cemitério local.
ResponderEliminarAh, os salões esplendorosos do Panteão Nacional, onde jazem em pedra fria os restos mortaes dos que outr’ora andaram e discursaram pelos corredores do poder e da gloria. Eis que surge uma clamorosa demanda para que os meus humildes ossos sejam trasladados para aquelle salão de marmore e pedra, onde resoam os feitos e as grandezas de tempos idos. Entretanto, alguns argumentam que tal honraria me foi negada por uma manobra judicial de um ex-autarca de Baião, respaldada por uma mão cheia de meus distantes descendentes.
ResponderEliminarDizem uns, com um ar de desdem a cobrir-lhes as faces, que os ossos do Eça devem permanecer em Baião, pois, segundo suas contas mesquinhas, attrahem algumas almas perdidas ao local. Oh, que calculismo trivial se esconde por detraz destas contendas mortuarias!
Porém, erguem-se outros, com peitos inflados de indignação, lastimando que este não fosse o dia em que o Eça subisse ao panteão dos immortaes. “Eça é daquelles que não morre”, exclamam elles, “e por isso, devemos continuar a lê-lo, a relê-lo e a aprender com elle, independentemente de onde repousem seus ossos”. Oh, e como soa doce esta proclamação de immortalidade litteraria, mas, oh, como é vã a querella sobre um punhado de ossos velhos!
Que valia tem trasladar um esqueleto para um salão frio, quando as verdadeiras reliquias, as palavras que fluiram de minha penna, já residem nos corações e mentes daquelles que se atrevem a desbravar as selvas de nossa sociedade? Que importancia há no local de descanso de meus ossos, quando o verdadeiro Eça vive nas paginas amareladas, nos debates fervorosos, nas criticas mordazes que ainda ressoam nas mentes inquietas, em salões, em cafés, em diarios publicos na rede electrica, onde se escrevem impressões, opiniões, criticas, e outras effusões do espirito?
E quanto ao ex-edil e aos bisnetos que veem nos meus restos mortaes uma fonte de attracção turistica, ah, que pequenez! Que visão estreita! Será que não comprehendem que o verdadeiro legado se mede não em visitas a um tumulo, mas na capacidade de provocar o pensamento, de desafiar o status quo, de maravilhar, de inspirar a mudança?
E que me importa a mim, que já não sou d’este mundo, se os meus ossos vão para o Panteão ou ficam em Baião? Que me importa a mim, que já não tenho corpo, se os meus ossos são venerados ou esquecidos? Que me importa a mim, que já não tenho voz, se os meus ossos são louvados ou calumniados?
Nada me importa, pois os meus ossos não são o Eça, nem o Eça são os meus ossos. O Eça é o que escreveu, o que pensou, o que sentiu, o que viveu. O Eça é o que está nos livros, nos artigos, nas cartas, nas chronicas. O Eça é o que está na memória, na imaginação, na admiração, na inspiração. O Eça é o que está em vós, queridos leitores, e não nos meus ossos. Por isso, deixem-me dizer-vos, com toda a sinceridade e humildade: nós ossos que aqui estamos, pelos vossos não esperamos. Esperamos sim pelas vossas leituras, pelas vossas reflexões, pelas vossas emoções, pelas vossas acções. Esperamos sim pelo vosso espirito crítico, pelo vosso sentido esthetico, pelo vosso gosto litterario, pelo vosso amor à pátria. Esperamos sim pelo vosso reconhecimento, pelo vosso respeito, pelo vosso carinho, pelo vosso affecto. Esperamos sim por vós, queridos leitores, pois só em vós reside a verdadeira glória!
boss
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