Amigos dos livros
Só uma pessoa que ama verdadeiramente os livros tem certos gestos de respeito e consideração para com os seus donos. Não estou a falar de não virar os cantos, dobrar a lombada ou até sublinhar um livro emprestado. Falo, sim, de uma história bonita que uma velha amiga, jornalista do Expresso, contou um dia destes no Facebook. Dizia ela que na véspera lhe haviam entregado um livro que fora da sua mãe antes de ela ter nascido e que a mãe teria emprestado esse livro a uma amiga pouco depois de o ter comprado e lido; ora, a amiga nunca chegou a devolver-lho, certamente por distracção, como tantas vezes acontece, e a coisa ficou esquecida. Mas eis que, tantos anos passados (tanto eu como essa jornalista temos mais de sessenta, por isso façam as contas), vem agora o livro parar às mãos desta minha amiga e do irmão, que são os seus legítimos herdeiros. Não se sabe se o gentleman que teve esse gesto bonito é filho ou sobrinho da pessoa que ficou indevidamente com o livro, porque a mãe da jornalista podia tê-lo emprestado a qualquer uma das irmãs; mas o senhor achou-o no meio de outras coisas enquanto estava a recuperar a casa dos avós e, ao abri-lo, reparou que estava assinado, pelo que resolveu contactar os actuais donos e devolvê-lo. Temos a noção de que, se não gostasse de livros, provavemente não teria valorizado a propriedade daquela brochura envelhecida, deitando-a fora ou não se dando ao trabalho. Porém, alguém que gosta mesmo de livros tem normalmente estas atenções.
Mais do que uma pessoa que gosta muito de livros, é uma pessoa de grande rectidão pois ao achar algo que estava indevidamente na sua posse, ainda que sem ter tido responsabilidade por isso, responsabilizou-se no entanto pela sua devolução aos legítimos donos.
ResponderEliminarCertamente que deve ser alguém que gosta de livros para valorizar a pertença do mesmo, talvez ao mesmo tempo tenha querido dar seguimento a uma história ou processo que tenha achado curioso e interessante.
É deveras uma história bonita para partilhar.
Faz-me lembrar umas cartas que achei há alguns anos, depois da morte do meu pai, quando recuperava um cofre-forte que fora do escritório do meu avô materno. Ao vasculhar o dito, achei num esconso por baixo de uma gaveta exterior, uma caixa de folha, muito velha, que continha diversas cartas entre elas um molho endereçado a uma tia-bisavó que foi no seu tempo uma mulher muito bonita e artista de teatro (Augusta Cordeiro). Solteira, nunca casou, porém sabia-se ter tido um caso prolongado com um destacado advogado, político e pessoa da alta sociedade na época. Acontece ter sido tio-avô de um artista actual que na época do achamento era pouco mais novo que minha mãe (ainda viva) quem aliás andara com ele ao colo. As cartas eram desse cavalheiro, e, decidimos entregá-las ao sobrinho que minha mãe contactou para o efeito. Sendo um romântico, ficou não só sensibilizado como se interessou bastante pelo caso, que tinha sido mantido em segredo.
Me perdoe a Nossa Extraordinária Anfitriã, mas este bonito tema que hoje nos trouxe, muito para além do amor aos livros dava pano para mangas, ou melhor, inspiraria alguns romances, o que aliás já sucedeu no panorama literário!
Saudações cá da Cidade Morena.
Ah, os livros… Bem, há os que verdadeiro(s) dramalhão. Parecem ter vontade própria, você já o leu e decide doá-lo para biblioteca, de inclusive lá constar em ar da graça arte, título e autor. Qual nada, prefere ficar por ali, “sofisticado” reluzindo a presença. No mais há livros perturbadores, como esses que voltam para casa e os outros geniosos que dela nem saem. Um livro não é tão silencioso quanto parece.
ResponderEliminarFoi mesmo de uma grande delicadeza! :)
ResponderEliminarnunca chegou a devolver-lho, certamente por distracção,
ResponderEliminarTerá sido por distração? por afinal não gostar assim tanto de livros? por esquecimento? por falta de consideração? ou, simplesmente, por "se estar nas tintas para os outros"?
Reproduzo o que li. Não tenho razões para supor o contrário porque não conheço as pessoas em causa.
ResponderEliminarDiz bem, a Rosário: "tem normalmente". Também pode ser uma pessoa que, por questão de boa educação - e não por ser um livro - devolve o que foi emprestado e, portanto, não lhe pertence. O que só aconteceu, qualquer que seja o motivo, por conter assinatura; logo, toca a assinar os livros, ainda pode acontecer aos nossos vindouros algo semelhante (permita-me duvidar, mas quem sabe...há árvores que só tarde frutificam.
ResponderEliminarHá inúmeros motivos para a devolução de um livro já “esquecido”. Inclusive a oportunidade em retratar-se. O livro se lhe trás dignidade ou não, pode ser a deixa. Ora gentileza, ora valor principalmente no tomo de livros proibidos, se for o caso.
ResponderEliminarNa minha experiência foi oportuno encontrar, tropeçar em deitados fora. Talvez na colecção ou simplesmente o livro no saco de lixo. Vale frisar que não trabalho com reciclagem. E me foi completamente (curioso) em dado momento a raridade que tivera sido descartada tal obra, não por particular.
Um gesto bonito, devolver aos atuais donos, coisa rara em tempos atuais...de facto, deverá ser alguém que gosta de livros.
ResponderEliminarTudo de bom.
Bjs
Uma história bonita, Maria do Rosário. Concordo consigo quando diz que foi o gesto de alguém que gosta mesmo de livros.
ResponderEliminarNão tenho o hábito de assinar os meus. As únicas assinaturas permitidas são as dos autores, por razões que já aqui expliquei.
Sou cliente de uma (excelente) livraria online de " livros antigos, raros, usados e curiosos" e é frequente um exemplar chegar com assinatura ou dedicatória. Sempre que acontece, sinto uma espécie de reverência, penso na longa viagem feita por aquele livro até chegar à minha mão, como seria a pessoa que o comprou, porque razão teria sido "dispensado". Qual a sua história?