Excerto da Quinzena

Escrever é o acto de pensamento mais justo. Obriga à escolha cuidadosa das palavras, a recuperar o pensamento que estava fixado e a fazê-lo voltar a mexer-se. Muitas vezes faz com que terminemos com o resultado contrário ao que tínhamos como certo antes de escrever a primeira palavra. Escrever crónicas obriga a um pensamento constante sobre o que nos rodeia, mas o que nos rodeia nem sempre é companhia aconselhável, e pensar sobre isso pode aumentar – para o bem e para o mal – o que antes não se via. Quando me convidaram para escrever crónicas semanais na revista Sábado (que sai à quinta, já agora), foi essa a minha dúvida: quais seriam as consequências de escolher mais uma maneira de ver de perto as coisas que me aleijam? Para me contrariar, aceitei. Enquanto escrevia dei por mim muitas vezes a pôr em causa o que pensava antes e a pensar sobre o que isso quereria dizer. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas ao preparar este livro percebi que as coisas dentro da minha cabeça fazem muito barulho. Ordená-las e escrevê-las é ainda o último reduto de sanidade contra esse ruído. Este livro é uma compilação dessas crónicas que escrevi e que agora vieram para aqui viver todas juntas.


Bruno Nogueira, Aqui Dentro Faz Muito Barulho, com prefácio de Miguel Esteves Cardoso e ilustrações de Juan Cavia

Comentários

  1. «Oiça a minha história, Razumov!...» O pai era um mecânico hábil, mas sem sorte. Nenhuma alegria iluminava os seus dias laboriosos. Morreu aos cinquenta anos; toda a sua vida arquejara sob a pata dos senhores, cuja rapacidade lhe extorquia à força o preço da água, do sal, do próprio ar que respirava; lançavam impostos sobre o suor do seu rosto e reclamavam o sangue dos seus filhos. Nem protecção, nem conselhos! E que tinha a sociedade para lhe dizer? Que fosse submisso, e que fosse honesto. Se te revoltas, mato-te. Se roubas, meto-te na cadeia. Mas se sofres, nada tenho para ti… - nada, a não ser talvez, a esmola do pão da mendicidade…- mas nenhum consolo para as tuas aflições, nenhum respeito pela tua qualidade de homem, nenhuma compaixão pelas dores da tua vida de miséria.
    E assim, trabalhou, sofreu e morreu. Morreu no hospital. De pé, à beira da vala comum, ela pensava na sua existência atormentada, - via-a no seu todo. Fazia as contas às alegrias simples da vida, -o património do mais humilde-, de que o seu coração generoso fora roubado pelo crime de uma sociedade que nada pode absolver.
    «Sim, Razumov,» continuou num tom de voz mais baixo e emocionante, «era como que uma luz espectral em que eu estava ali mergulhada, e não amaldiçoei o longo e penoso trabalho, nem a miséria que foram o seu quinhão, mas sim a grande iniquidade social de um sistema que se apoia no labor sem recompensa e no sofrimento sem compaixão. A partir daquele momento tornei-me revolucionária.»
    Joseph Conrad, Alma Russa, versão portuguesa do Comandante Moura Brás, Porto, Livraria Civilização. 1945.

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  2. Não gostei do texto, achei-o confessional em demasia, mais próprio de muro das lamentações do que de uma revista, além de confuso, bastante deprimido para um leitor que já de si pense por ele mesmo.
    Confusões tenho-as eu próprio quanto baste e não preciso que me confundam mais.
    Aleijões... o que é que o aleija? Certamente coisas muito diferentes daquilo que a mim me aleija, tal como aquilo que nos rodeia é tão diferente.
    Nem é comparável, nem é absoluto para ninguém. Não há coisas que aleijem mais nem menos, porém há dores diferentes causadas por coisas diferentes e há coisas tão más, horrorosas mesmo, que nem me atrevo a falar nas que me rodeiam com medo de estar a ser prosaico face a outros horrores maiores por outros assistidos.

    Diria que Bruno Nogueira deve concentrar-se em fazer textos humorísticos, humorados. É isso que se espera dele, sem querer impedi-lo de pensar noutras coisas e até de as sentir, pode mesmo começar a pensar se o dinheiro que ganha é justo e aquilo que faz é coerente com aquilo que nos quer fazer acreditar que pensa?
    Lembro que os palhaços são para nos fazer rir, alegrar, abençoados sejam.
    Deviam lembra-se mais disso, dos palhaços e da sua nobre função, por muito disparatados que sejam - e quanto mais melhor!

    Saudações pensantes cá da Cidade Morena.

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  3. Não gosto do Bruno Nogueira.
    Acho que não tem graça nenhuma.
    Concordo com muitos dos comentários de Pacheco.Dêem-nos alegria e boa disposição

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  4. Para descomprimir, é fim de semana e falamos de observar à nossa volta, ora nem tudo é mau!
    Tomem estas notas como uma confissão minha, de viajante.

    Parte I

    TIPOS mais comuns e actuais de aeroviajantes observáveis em aeroportos, apeadeiros aéreos, aviões e suas envolventes logísticas:

    O Zé do Boné:
    Maioritáriamente português, mas não só! Também há os russos (genéricamente falando dos eslavos), Norte-americanos, franceses e espanhóis.
    Na faixa etária dos 30-40 anos, operário especializado, viaja em grupo de 3 a 5, por vezes mais.
    Distingue-se pelo boné de basebol que usa na cabeça ou pendurado na mochila – anda sempre de mochila! Caso não tenha o boné posto, vê-se que abusa do gel e se penteia “à ouriço” (cabelo espetado), ou em alternativa usa o cabelo rapado à gilete.
    Veste sempre jeans e t-shirt, independentemente do clima, que completa com uma sweat ou camisa de flanela, e, usa botas ou ténis de marca.
    São comuns neles, tatuagens e/ou brinco.
    Fala alto, usa de palavrões e obscenidades, correntemente (julgo que também os russos).
    Incomodam pelo número e barulho que fazem, mas ficam por aí.
    Básicamente são “cromos”… globais!

    O Braga:
    É um português de meia-idade, típicamente operário da construcção civil ou afins, baixote e robusto, normalmente com cara de bom-tipo.
    Quase sempre viaja sózinho e tem pronúncia nortenha.
    Veste de qualquer maneira mas sem gosto: é o que calha e não se rala, é a Maria, igualmente desprovida de gosto, quem lhe compra a roupa que deve ser prática e apta a sujar-se ou estragar!
    Tem postura humilde, mas é óbviamente bisbilhoteiro, sempre a mancar o que se passa e disposto a intervir para ajudar ou comentar. Ri com facilidade e se lhe dermos trela cola-se e conta-nos a sua história.
    Inócuo!

    O Gordo-mal-amanhado:
    Uma figura de burgesso, sem nacionalidade ou raça definida.
    Gordo e pesado, destaca-se pelo volume e aspecto desmazelado. Sempre por pentear e com a barba mal-feita, dá uma sensação desagradável de besuntas. Apresenta os olhos esbugalhados, parece que acabou de acordar e dormiu vestido, pelo desalinho e amarrotado com que se apresenta.
    As calças caindo e fazendo fole nos tornozelos deixam o rego do rabo à vista, a fralda da camisa meio-
    dentro, meio-fora, ou a barriga saindo-lhe por fora da blusa.
    Fala pouco, não olha para nada nem ninguém, no geral está-se nas tintas e só incomoda visualmente, ou caso fique sentado ao nosso lado!

    O Humorista de Serviço:
    Dá logo nas vistas, ou melhor nos ouvidos! Fala alto, manda bocas e conta piadas, mete-se com os outros, tem um tom de voz típico.
    Na versão portuguesa é um castiço com cerrado sotaque ou do Porto ou alentejano. Na versão angolana é um mulato claro que usa tom chocarreiro e arrastado. Eles sabem que a sua maneira de falar é ainda uma forma de reforçarem a sua eventual graça… há os que têm mesmo piada e os que nem por isso.
    Não tem idade definida, mas faz sempre parte de um grupo qualquer, nunca vi nenhum isolado e o grupo
    é óbviamente o seu público.
    Veste quase sempre uma t-shirt de um clube de futebol, o que é ainda um manancial piadístico.
    Acaba por ser chato porque não se cala, relata e comenta tudo o que vê ou recorda, torna-se cansativo.


    (continua)

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  5. Parte II

    Os Empresários:
    Em pequeno grupo de 3 ou 4, às vezes em parelha. Não têm idade nem tipo definido, destacam-se apenas pelo anacronismo dos fatos completos, formais, sempre cinzentos ou azul-escuro e camisa branca com gravata. A única concessão que fazem ao acto de viajar é por vezes dispensarem esta, que colocam no bolso!
    Arrastam consigo pesadas mala-trólei, de cabedal preto e levam a tiracolo os porta-fatos.
    Falam baixo entre si, fazendo círculo, confabulando como se estivessem a decidir ali e na hora o preço do barril de petróleo ou a cotação do dólar!
    O telemóvel, desses que fazem tudo, sempre em punho, é consultado a toda a hora, de vez em quando
    afastam-se um pouco e colocam-no no ouvido para trocarem curtas e misteriosas mensagens.
    São discretos e inóquos.

    O Homem de Negócios:
    Típicamente da meia-idade para a frente, viaja só.
    A farda é o blaser ou blusão corta-vento da Ralph Laurent, azul-escuro! Camisa de risca com colarinho branco, de onde se salienta sempre a indispensável barriguinha da prosperidade. Não usa gravata. Calça de ganga ou de corte desportivo, sapato de vela ou mocassin com berloques, sem meias!
    Obrigatório o relógio de oiro, vistoso, tipo Rollex com pulseira de metal, largo no pulso como se fosse uma pulseira. Por vezes trás óculos escuros puxados para a testa.
    O cabelo também faz parte da imagem de marca: sobre o comprido, bem penteado para trás, com ou sem gel e usa poupa!
    Masca sempre pastilha elástica, com a boca fechada, num ríctus de maxilares contraídos.
    Não dá confiança, não fala com ninguém, isola-se mas gala sobretudo as passageiras e dirige-nos um rápido olhar avaliador disfarçado, se não nos enquadramos nos outros tipos.

    O Quadro:
    Pode ser homem ou mulher, na casa dos trinta anos, bem-apresentados mas discretos.
    Arvoram um ar concentrado e percebe-se o peso das responsabilidades que carregam. Não largam o computador que trazem numa pasta a tiracolo e a todo o momento colocam nos joelhos, onde dedilham frenéticamente. De vez em quando fazem ou recebem telefonemas… são trabalhadores incansáveis e permanentes.
    Viajam sózinhos. Isolam-se e não olham para ninguém nem comunicam.
    O Mundo empresarial pode dormir descansado, pois eles nem no aeroporto negligenciam o seu dever e
    fazem questão de que isso se veja, alardeando a sua responsabilidade e importância!
    Outros cromos, nem se dá por eles…

    O Classe A:
    Outro que salta logo à vista, até porque é quase sempre alto… mas é a postura característica que o faz destacar-se: - Costas direitas e ombros em sentido, pescoço bem erguido com a cabeça alta e o queixo espetado para cima, em altiva pose de superioridade, destinada a mostrar a todos que está ali uma pessoa superior, de qualidade! Um representante da elite… resta saber qual?
    Veste formalmente, blazer escuro e uma camisa colorida, sem gravata. Usa também sapatos com berloques… o cabelo sobre o comprido de que se destaca a melena que vai puxando para trás da testa e das orelhas, num gesto de classe inquestionável.
    Olha por cima, sem fixar ninguém, não dá confiança, mas se lhe pedem passagem dá um salto rápido para trás e exclama educada e consternadamente: “peço imensa desculpa”!
    Demonstra de forma inequívoca o seu incómodo por estar com a maralha. Se não viaja em executiva mais agressiva se torna a postura de superioridade. Franze o sobrolho e torce o nariz com frequência. Só fala se for interpelado, diz frequentemente, “com certeza”, “peço imensa desculpa” ou “faz favor”, e nesse caso exibe por instantes um “sorriso pepsodente” de circunstância, forçado, que se destina a mostrar a sua educação superior e que condescende em falar com quem não é do seu nível.
    Olha-nos disfarçadamente, a medir o status.
    É um parvalhão qualquer! Irrita, mas não passa daí…
    (continua)

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  6. Parte III

    O Passageiro-Frequente:
    Outro grande cromo! Homem ou mulher, normalmente de meia-idade ou jovem, sabe as voltas todas e está no aeroporto como peixe na água!
    Usa roupa prática e desportiva ou mesmo fato-de-treino.
    Vai lavar os dentes e a cara ao WC, que aliás deixa encharcado (sabe que a limpeza é contínua… mas às vezes sai-lhe furado, se fora da Europa…), trás uma garrafinha de água consigo e aquelas almofadas em U para apoio da nuca.
    Anda sempre com os seus auriculares, nos ouvidos ou pescoço.
    Uma mochila grande e cheia, com muitos bolsos, é a sua bagagem e imprescindível!
    Deita-se ao comprido nos bancos e dorme enquanto espera.
    Sabe sempre o caminho para os terminais e toda a informação sobre portas de embarque, etc.
    Por vezes anda aos pares ou em casais!
    Inofensivo e até útil, mas atenção que é egoísta e pouco comunicativo!

    O Passageiro-Difícil:
    Já passando da meia-idade para lá, mais vezes homem do que mulher… é um chato incomodativo!
    Pouco sofisticado, desinformado e deseducado, não faz nada e nem deve saber fazer nada, só reclama, queixa-se de tudo e tem opiniões que ninguém quer saber.
    Mete sempre conversa, partilha o seu incómodo tentando aliciar-nos para a sua causa. A insatisfação e a dúvida são o seu estado permanente. É antipático, de cara franzida e não olha a direito, sempre desconfiado a mostrar bem a sua revolta: - É a comida, são os bancos, é a temperatura, é a espera…
    Um tipo de fugir a sete-pés, muito má vizinhança. Topa-se logo, fujam dele e não lhe dêem troco, porque se cola como um adesivo.

    A Senhora-dos-Sacos:
    Outra passageira típica e muito chata por sinal, indirectamente, mas chata!
    Quase sempre da meia-idade para a frente, mulher de rabo-grande, frequentemente mulata ou africana escura.
    Viaja sozinha, eventualmente com miúdos, tem aspecto inofensivo mas desenganem-se, é abusadora!
    A sua principal característica e a mais nociva, é justamente andar com uma grande bolsa e uma quantidade de sacos de papel, tela ou napa, e, embrulhos de toda a qualidade, pendurados nos ombros e braços, ou em cima do trólei. Bate-nos com aquilo tudo, entope o caminho mas o pior é que ocupa todo
    o espaço nos compartimentos das bagagens!
    É uma praga! Ainda por cima, embora viaje normalmente sózinha, há sempre várias em cada vôo!
    As companhias aéreas deviam ter leis contra elas! Aliás têem, pois há limites ao peso, volume e número da bagagem de mão que elas pura e simplesmente não cumprem, ignoram ou desprezam, perante a complacência do pessoal no check in (que elas enganam) e depois no embarque!

    A Velha-Furona:
    Outra praga incómoda.
    Idosa, baixa e muitas vezes magra com tipo de ratazana, de cabelo curto, quase sempre branca sem classe social definida mas mal-educada.
    Nota-se logo porque denota um estado de ansiedade, medo de ficar para trás… portanto mete a cabeça no meio dos ombros mas espetada para a frente, alarga os cotovelos e aí vai ela, furando e passando à frente literalmente, por baixo ou por qualquer espaçosito que se deixe, aproveitando ser pequena e magra… não hesita! Empurra, acotovela, parece um leitão a procurar a teta!
    O pior é que se acha no seu pleno direito, com a complacência generalizada dos que a deixam passar, ficando a olhar… ninguém tem coragem de lhe dizer nada.
    É velhaca e nunca pede desculpa, mesmo que arranque um olho a alguém!

    A Mãe-gordona:
    Típica também, dá-se logo por ela, como não? Gorda e bem gorda, do género normalmente dito “baleia”.
    Mulher na casa dos quarenta viaja muitas vezes em parelha e sempre com crianças, não tem raça nem país definidos mas é frequentemente africana branca, mulata ou preta, também cubana ou brasileira e até indiana. Leva consigo malas e maletas e sacos, fala alto, esbraceja, nunca sabe onde está e só se preocupa em ralhar com as outras e com os miúdos, enquanto atropela tudo e todos a falar sempre muito.
    Básicamente é e

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  7. Parte IV

    A Gaja-Boa:
    Bom… também se dá logo por ela! Os olhos batem imediatamente naquele vulto, de que se destaca imediatamente a cabeleira tipo juba, volumosa. Um chamariz para quem sabe o que está por baixo, e é imagem de marca obrigatória, como os grandes brincos!
    É de idade indefinida mas tende para o jovem, mulher (claro!) sem côr nem país.
    O sorriso é resplandecente e complementa a sua imagem que se pretende sedutora, atraente, e, consegue geralmente sê-lo!
    É simpática, distribui sorrisos e pode meter-se conversa com ela, que se ri fácilmente!
    Viaja sempre sózinha, mas não tem problemas pois sabe que existe uma legião de cavalheiros que a ajudarão com a mala ou o que seja…

    Há-as para todos os gostos e em vários modelos, com mais ou menos volume, generosamente distribuído mas sempre capitosas e glamorosas.
    A sua beleza é normalmente bastante artificial à custa de pinturas e roupas justíssimas, mas o que conta é o sex-appeal inegável. Ela sabe-o e gosta disso, de atrair e exibe-se mesmo que sem intenções ou resultados práticos, porque sabe que existe desde sempre para encantar os homens. As feministas e o assédio que se danem, ela quer lá saber!
    É uma mulher por inteiro e o Mundo pertence-lhe, é a herdeira de Eva!
    Compõe o aeroporto como uma flor um jardim, e, deviam ser cultivadas, por exemplo ter uma redução na tarifa!

    A Velha-Gaiteira:
    Será talvez a evolução da gaja-boa! É uma mulher, já bem entrada na idade e algo em decadência mas que ainda cultiva a postura de quando era boa, com a mesma segurança mas melhor capacidade de jogo!
    Mantém o cabelo armado, colorido, abusa das pinturas e deve pôr base na cara com uma colher de pedreiro. O batôn exagerado é imagem de marca! Veste-se de forma espampanante, cintila e chocalha pechisbeque nos pulsos e pescoço.
    Por vezes anda em conjuntos de duas ou até três.
    O seu charme muito treinado já é um bocado forçado e é por respeito que entramos no jogo, mas são simpáticas e comunicativas, mostrando grande disponibilidade, que são mentes abertas, modernas. Disponíveis para a conversa com os outros viajantes, masculinos.
    Dão um toque de ridículo ao grupo de passageiros, mas dispõem bem e são uma interessante fonte de distracção nem que seja pela observação e ouvir das suas conversas.
    Inofensivas, divertem-nos e fazem parte.

    O Galã:
    Também há sempre um tipo destes, mais ou menos evidente, mas se procurarmos bem, nas longas filas e esperas, acabamos por dar fatalmente com ele em qualquer parte do Mundo!
    Não tem idade, até porque pinta o cabelo… mas existe na versão tropical e europeia:
    - O tropical, é muitas vezes mulato, usa bigodinho à Tonico Bastos e penteia muito bem o cabelo curto, frisado. Veste quase sempre o indispensável fato de linho, impecável, de côr clara, e, usa a gola da camisa por cima da do casaco. Vários anéis são marca distintiva.
    - O europeu, distingue-se pelo aprumo e cuidado no vestir, sem um vinco, uma ruga… usa quase sempre blazer que pode ser rosa ou cor-de-vinho, com a camisa ou pólo por fora das calças brancas. A barba muito bem-feita e o cabelo impecávelmente penteado, pode ser oxigenado ou usar capachinho! Uma pulseira de oiro fino ou um fio com um pequeno crucifixo ou cabeça de Cristo, denuncia-os!
    É sempre simpático, muito educado e atencioso, bom conversador, comunicativo com preferência pelas senhoras-passageiras a quem dá a maior atenção. Desvela-se, sempre pronto a ajudar só se traindo pelo olhar e tom dengoso que não consegue disfarçar.
    Inofensivo, é outro cromo, que também anima e compõe a fauna aeroportuária.

    O Casal da 3ª Idade:
    Um casal de velhotes, atarantados mas determinados quase sempre, não obstante parecem andar ali perdidos… sabem para onde vão, mas não como ir!
    Europeus, a principal tendência e incómodo é insistirem em passar primeiro e meterem-se na frente, porque terão medo de ficar para trás. Depois porque trôpegos e normalmente carregad

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  8. "Os livros relembram-nos que somos seres muito peculiares. Porque é que encontramos tanto prazer na exploração de mundos imaginários ? O que é que nos atrai em todos esses relatos onde se descrevem factos que não aconteceram, e que são apenas invenções ? Alguns cientistas opinam que ler é uma ampliação da brincadeira infantil e, como as restantes brincadeiras, prepara-nos para a vida. Os leitores habituam-se a observar com o olho da mente a amplitude do mundo e a enorme variedade de situações e pessoas que o povoam; é por isso que as suas ideias são mais ágeis e que a sua imaginação é mais iluminadora.
    Para além do mais, quando lemos, saímos de nós próprios. Projetamo-nos com total liberdade e à nossa vontade nas personagens de uma história. (...) "

    Alguém Falou Sobre Nós , Irene Vallejo, Bertrand Editora, pág.53


    AM

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  9. Parte V

    A Criancinha:
    No outro topo da tabela etária está a inevitável e detestável criança, mal-educada ou como agora se diz, hiper-activa, mas no fundo a quem faltam umas valentes palmadas naquele sítio com que Deus nos dotou desde que nascemos, para isso-mesmo.
    Apoquenta e desrespeita a mãe que às tantas desiste de controlá-la. Corre por todo o lado, pisa os outros passageiros, choca com eles, tropeça nas bagagens, trepa por toda a parte, ri alto, grita, acaba fatalmente
    por cair e chora aos berros.
    Responde malcriadamente. É estuporada e pespineta! Depois no avião vai fazer uma birra qualquer.
    Actualmente nesta categoria preponderam os mulatinhos, uma verdadeira praga!
    Deveria haver um agravamento da tarifa para estes!

    O Chinoca:
    É um tipo razoávelmente recente, pelo que ainda pouco tipificado.
    Olha para tudo, ri muito - não se sabe bem se a dentuça arreganhada é uma característica facial.
    Viaja em grupo e faz-se então mais notado mas às vezes anda isolado, porém o resultado é sempre o mesmo: - A confusão que provoca em todos os processos e operações ante e pós-vôo! Não entende nada nem ninguém e ninguém o entende, nem aos documentos que tráz e sempre provocam atrasos para serem entendidos e descodificados. Acredito que seja uma defesa, deve ser a forma de nos vencerem e levarem a sua avante: o cansaço que provocam!

    O Monhé:
    Trata-se de um clássico! De origem indefinida, algures entre o Norte de África e a Península Industânica, tanto pode ser libanês como sírio, paquistanês ou indiano.
    Não tem idade e não se distingue a nacionalidade, mas apresentam em comum terem uma barba cerrada que lhes escurece a cara, esteja ou não feita; envergarem vestes largas e barrete, e, usarem por bagagem caixas de cartão ou sacos, enrolados com panos e fita adesiva.
    Viajam em pequenos grupos, se com mulheres, estas são humildes.
    Reivindicativo, antipático e agressivo para com o pessoal das companhias aéreas. Não fala com ninguém e mantém-se à parte.
    É porco, suja tudo por onde passa deixando um rasto de lixo e os lavabos imundos!
    Chafurda na comida que lhe servem e não come.
    Descalça-se em todo o lado e deixa os chinelos ou sapatos espalhados – normalmente, e se não estiverem a ver, eu chuto-os para baixo das cadeiras!
    Estende-se no chão para dormir ou ocupa três lugares, sem qualquer respeito ou senso.
    Devia haver linhas aéreas só para eles!

    O Anónimo:
    Ficou para o fim!
    Somos a maioria, Graças a Deus e a Ícaro, e, ainda bem para as companhias aéreas que assim poupam em ansiolíticos e consultas de psiquiatria com o seu pessoal!
    Não temos idade, nem raça ou tipo definido… só queremos ir, vamos por onde nos mandam e para onde nos conduzem, fazemos o que nos dizem, comemos o que nos dão!
    As companhias tratam-nos como gado, cobram-nos, desrespeitam-nos e abusam-nos pela nossa necessidade de viajar. Atiram-nos com sorrisos chapa cinco, mas querem lá saber de nós!
    Comportamo-nos como um rebanho, seguimo-nos uns aos outros cega e instintivamente, juntamo-nos à espera do embarque depois de humilhados nos contrôles de segurança e somos ainda violentados por aqueles passageiros que têm o direito a ser tipificados!
    Mas ser anónimo é a nossa vingança, que assim podemos gozar e dizer mal desses outros!

    Votos de um Extraordinário Fim de Semana, cá desde a Cidade Morena.

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  10. Por um lado o Big Brother é anónimo e, por outro, a servidão dos súbditos é mais "voluntária" do que nunca, sendo a manipulação da publicidade comercial infinitamente mais insidiosa do que a da propaganda política. Nestas condições, como afrontar "politicamente " a megamáquina?
    Segue Latouche - Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno

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  11. Ainda não consegui ler tudo,mas o amigo Pacheco é um ganda escritor!Sim senhor,grandes comentários!Vou arranjar tempo e depois leio

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  12. Achei um máximo a descrição dos tipos de viajante (tem viajado bastante). Já não viajo há muito tempo, não me lembro de encontrar essa gente toda. Com excepção das crianças que cabem exactamente no tipo descrito. E, se o avião leva muita gente para a Disney, é uma carga de trabalhos, há sempre um garoto a chorar. Isto em horas de sorte; sem ela, serão vários de goela aberta.

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