Colégios

A minha geração leu na juventude uma data de livros em que as meninas andavam em colégios internos e ali faziam partidas tremendas às professoras ou choravam que nem Madalenas com saudade dos pais. Era também uma situação comum em raparigas de carne e osso que haviam perdido as mães, cujos pais se tinham separado ou que eram completamente inaptos para as educar, e bem assim em rapazes que se portavam mal e iam de castigo para o colégio interno, geralmente de padres e na província. Num dos estabelecimentos de ensino que eu própria frequentei, com centenas de alunas (na altura, éramos só meninas ou só rapazes), embora quase todas as estudantes fossem externas, havia umas pobres miúdas que viviam no colégio. Vindas de longe, de alguma aldeia perdida no mapa, as freiras davam-lhes a escolaridade, cama e roupa lavada em troca de trabalhos de limpeza e, quem sabe, na esperança de reunirem ao seu rebanho mais umas ovelhas que quisessem um dia ser noviças. Mas há quem tenha frequentado colégios internos para ter uma educação de excelência, como Fleur Jaeggy, a escritora suíça que trabalhou na mítica editora Adelphi, de Roberto Calasso, e acabou sua mulher, além de escritora. O pequeno romance Felizes Anos de Castigo (que é uma obra de culto e acaba de sair em Portugal com tradução de Ana Cláudia Santos) parte provavelmente da sua experiência para nos contar a história de uma rapariga que vive em colégios internos desde os oito anos, colégios esses que recebem ordens da mãe dela, que vive no Brasil (talvez com um segundo marido), e aonde o pai a vai buscar uma ou duas vezes por ano para passarem férias juntos em hotéis, nunca existindo uma casa de família. A chegada de uma aluna nova, Frédérique, sofisticada e inteligente, será uma brecha na monotonia dos seus dias sempre iguais, excepto pelas mortes de progenitores que vão acontecendo e que criam separações e feridas que não saram em muitas colegas. Publicada pela primeira vez em Portugal, uma autora que importa acompanhar.

Comentários

  1. Nós, Extraordinários leitores, gente de mais idade que vivemos outros tempos, poderemos entender e até apreciar este tipo de romance ou memórias... houve de facto uma geração que leu por exemplo Odete de Saint Maurice, quem aliás espelhava esse tempo e a juventude da época, enfim, de forma muito romanceada e até algo fantasiosa na excelência e perfeição dos personagens, não foi a única e li na minha infância e juventude vários outros livros sobre o tema, incluindo autores estrangeiros.
    Os colégios eram um Mundo, que deixaram vestígios profundos na nossa sociedade e em muitas pessoas, hoje já veteranas. Falar nisso ou pôr as gerações mais novas a ler sobre o tema, duvido que gere alguma compreensão e muito menos aceitação.
    Para os saudosistas sim, mas para o grande público com menos de 45/50 anos... tenho fortes dúvidas. É tema para leitores com bases sólidas na leitura e até de formação pessoal.
    Nunca andei em nenhum colégio, apenas fiz a primária em duas escolas particulares, o resto foi feito no oficial. Todavia tinha muitos primos e amigos em colégios, pelo que conheço a corporação, ouvia falar neles e como era. Ainda hoje.

    Saudações menos colegiais, mas oficiais, cá da Cidade Morena.

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  2. Seria um livro a ponderar, gastei muito ano em colégios e desconhecia até o nome da autora. Conheço o ambiente de colégio. O de colégio de meninos bafejados pela sorte, cujos pais ganham para lhes manterem certo nível de vida - colégio de nome e também com provas dadas em exames, e que admite internos, semi-internos e alunos externos.
    E existem os outros, (conhecidos por instituições) os tais que recolhem crianças quase miseráveis - vêm de lares desfeitos ou desfigurados, de pais separados; ou foram retiradas aos pais biológicos por isto e aquilo que toda a gente conhece. A grande maioria das meninas (também sou do tempo de colégios femininos e colégios masculinos), dormem. comem, estudam e passam férias ali. É a sua casa até fazerem os dezoito. Poucas tinham para onde ir no período de férias. E, guarde-as sempre um anjo bom, quase todas se mostraram fortes e lutadoras, estudaram mais, tiraram cursos, casaram e construíram a família que tanto lhes faltou.
    E eu que privei com as duas modalidades, digo: são o dia e a noite.
    Pode ser um bom romance.

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