As mãos

Diz-se que os italianos não conseguem falar sem gesticular (por vezes até um pouco exageradamente) e que há pessoas que têm mãos que falam. É verdade, e tem graça olhar para elas, embora eu seja bastante contida nessas movimentações e isso nem esteja especialmente relacionado com contenção ou timidez, mais com tensão e stress. O que não sabia era que também há mãos que cantam, e isto pareceu-me mesmo bonito. Porque os deficientes auditivos comunicam através de Língua Gestual entre eles e com quem a domina, como os tradutores dos noticiários ou as pessoas que traduzem conferências, debates, palestras, congressos, etc., com as mãos; mas a verdade é que não havia tradutores de canções para quem as não pode ouvir, e acabo de ler que o projecto Mãos Que Cantam, em associação com o Museu do Fado, está a construir uma base de dados de fados em Língua Gestual Portuguesa. Ao que entendi, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte foram os primeiros artistas a cantar para estes tradutores, e na foto abaixo aparece a reprodução de uma destas traduções. Fiquei ainda mais impressionada com a maravilha quando descobri que o Papa, quando em Agosto esteve em Portugal, foi brindado por um coro de surdos, que cantam, claro, com as mãos.


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Comentários

  1. Extraordinário!
    Estas coisas, próprias dos humanos, não cessam de nos espantar!
    Afinal nem tudo o que vem dos humanos é mau, fica-nos mesmo a certeza de que a humanidade é capaz de coisas assim tão belas e maravilhosas.
    Celebremos!

    Saudações escritas e gesticuladas cá da Cidade Morena.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi13 de novembro de 2023 às 04:30

    Mas, que doçura! Falar com as mãos é de uma sensibilidade ímpar. A ferramenta da linguagem corporal, especificamente as mãos “cantantes” o propósito em transfigurar o silêncio e avançar nos sentidos, é tocante. Parabéns!

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  3. Quando se deu a unificação italiana cada região falava a sua língua, ou o seu dialeto, talvez seja mais correto dizer. Com a escolaridade obrigatória os italianos passaram a falar uma só língua. Mas tinham nisso muitas dificuldades pelo que recorriam às mãos para completar a comunicação e nunca abandonaram o hábito por completo. Explicaram-me assim o fenómeno.

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  4. É de facto extraordinário assistir à comunicação entre deficientes auditivos. Eles aprendem-na desde cedo e com uma facilidade incrível. E as suas mãozinhas pequeninas mexem-se com um vigor inusitado e muito eficiente, se conversam uns com os outros. O passo seguinte, nas escolas de ensino especial que não faço ideia se ainda existem, já lhes é mais difícil: conseguir falar, traduzir os gestos por palavras aprendendo através de múltiplos recursos, a vocalização de letras, sílabas e palavras. Não será transição fácil. Ignoro o modo de, dominando a linguagem gestual, alguém poder ensinar cantigas por gestos. Parece-me tema de interesse; será que esses tradutores de canções aprendem um método? É indecente e muito triste que existam pessoas sem a oportunidade de ouvir música.

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