Metais
Na mesma semana em que eu deitava uma última olhadela às provas de uma edição revista de Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras (a sair em princípios de 2024), estava a ler em casa um pequeno livro de poemas de José Carlos Barros (nascido em Boticas) intitulado Lítio e publicado numa colecção muito especial que se dedica aos elementos da Tabela Periódica, sob a batuta de João Pedro Azul, que deve ser assim uma espécie de químico-chefe. Foi curioso por variadíssimas razões, sendo a primeira o facto de o romance Os Dias de Saturno ter como tema central justamente a transmutação dos metais em ouro, a alquimia; mas também porque foram quase simultâneas essas duas leituras e as notícias, então vindas à baila, relacionadas com o lítio, sobre o que levou, no fundo, à queda do governo de maioria socialista. Foram metais a mais numa semana, mas, se no caso do romance de Paulo Moreiras esconderei para já o essencial, guardando-o para quando o livro estiver disponível, não resisto a partilhar um poema de Lítio que, sendo sobre lítio, é também sobre um outro metal, mais do nosso encanto. Leiam-no e desfrutem. Bom feriado.
De entre os metais
O ferro escolho de entre
os metais
em vez da prata,
do lítio, do
ouro,
em memória dos portões
dos pátios, do garfo
e da faca, das aivecas
do arado,
da grade
da varanda,
como exemplo do que está
ao serviço
das causas
e das pessoas
comuns.
A Química ainda dava pequenos passos para identificar e compreender os elementos que tinham afinidades entre si. Para Goethe foi o suficiente para escrever as suas "Afinidades Electivas" e, se bem que nem todas as combinações acabem em explosivos e bombas atómicas, criou uma situação de paixões que culmina em caos e destruição.
ResponderEliminar"O desenvolvimento tecnológico irá deixar apenas um problema: a debilidade da natureza humana."
ResponderEliminarKarl Kraus
https://en.wikipedia.org/wiki/Karl_Kraus_(writer)
https://www.vseditor.net/product-page/aforismos
O que é feito do homem quando a violência da guerra põe em causa a própria definição de humanidade? Génio irado mas compassivo, Karl Kraus mergulhou no pandemónio da Grande Guerra (1914-18) e de lá regressou com duas centenas de cenas da “humanidade em decomposição”. Os Últimos Dias da Humanidade (1915-22) é uma crónica desses dias sangrentos que viram nascer a era da industrialização da morte, da mentira, da estupidez. Mas é também um laboratório de escrita experimental a que alguém já chamou a “obra-prima submersa do teatro do século XX”. Um teatro da citação, da repetição, da montagem, do contraste: personagens e documentos “reais” vivificados pela imaginação satírica do autor, a atrocidade de mãos dadas com a futilidade. “Contrastes assim só os há na guerra!” Suscitada pelos encenadores Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso, esta versão integral, que agora reeditamos, valeu a António Sousa Ribeiro o Grande Prémio de Tradução Literária APT/SPA 2017.
https://edicoeshumus.pt//index.php?route=product/product&product_id=1585&search=karl+kraus&description=true
O nosso camarada Moreiras tem obra nova? Boa.
ResponderEliminarCaso para perguntar:
Leste, filha?
Li , tio!
Esta é connosco.... ahahah!
Desculpem a parvoice e votos de Extraordinário fim de semana prolongado.
PS- Bem precisados estamos, de restauradores!
Oh, a Tabela Periódica é uma das mais belas obras de arte, que bom ter falado nela, Maria do Rosário!
ResponderEliminarGostei muito do poema, adorei este pequeno desvio da literatura para a ciência, área em que me sinto um pouco menos peixe fora de água .
Bom feriado a todos e boas leituras!
(ando a ler João Aguiar, meu deus, ele é tão bom!)
Era.
Não, perdão, é.
Belo poema. Uma homenagem ao património vernacular e a uma sociedade tradicional que se vai afastando da nossa memória,
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