Morrer com os livros

Há uns dias falei de destruir livros em biblioteas e livrarias, e hoje o livro de que falarei vem a propósito. Diz-se que o autor checo Bohumil Hrabal afirmou ter vivido apenas para escrever Uma Solidão demasiado Ruidosa, romance que se tornou obra de culto para todos os que acreditam que os livros não vão morrer nunca, apesar de muitos os terem, ao longo do tempo, condenado à morte, sobretudo ditadores e líderes religiosos para quem o que traziam escrito podia ser uma ameaça ao seu poder. Mas nem a Inquisição nem a Censura fascista ou comunista foi capaz de matar a memória, e a palavra escrita e, até ver, os livros importantes continuam a ser escritos e lidos contra a barbárie e a arrogância da ignorância. Hanta, o protagonista deste romance de Bohumil, prensa livros e papel há trinta e cinco anos e, não resistindo a ler uma frase aqui e outra ali, acabou por tornar-se um homem extremamente culto que, entre a miséria e muitas canecas de cerveja, cita Hegel e Lao-Tsé. De há muito para cá, numa cave infecta e cheia de ratos (que também vão parar à prensa de vez em quando), separa das enormes pilhas de papel os livros que o mandam destruir e tem, por isso, toneladas de obras literárias no seu quarto de dormir, o que ninguém sabe e poderia perturbar realmente a sua paz. Mas eis que chega a grande prensa tecnicamente desenvolvida (que, na verdade, dispensará o seu trabalho manual), bem como os rapazes e raparigas com fardas coloridas e cursos superiores que são os novos prensadores a mando da nação... Que será do pobre Hanta e dos seus livros? Com um final inesquecível, este romance (que foi censurado na sua época, ensina que o riso silencioso dos livros se ouve sempre, mesmo entre as engrenagens de uma prensa).


 

Comentários

  1. Fiquei curiosa.
    Vou pesquisar
    Bom dia!

    ResponderEliminar
  2. Teresa Palmira Hoffbauer21 de setembro de 2023 às 02:18

    Ele adorava gatos e cerveja, trabalhava como empacotador de resíduos de papel e escrevia. O homem, que cresceu numa cervejaria, sonhava em tabernas e pubs e ouvia o fluxo de discursos a álcool dos convidados. O que ele inspirou aqui em piada, sabedoria e loucura encontrou entrada em textos que ele inicialmente escreveu apenas para a gaveta e, na melhor das hipóteses, leu para amigos próximos.
    Nos anos 1960, no decorrer de uma política cultural liberalizada na Checoslováquia, Bohumil Hrabal tornou-se um dos autores mais lidos do seu país, as suas obras foram filmadas e traduzidas muitas vezes. A prosa de Hrabal contém motivos de slapstick, a riqueza anedótica e o humor anárquico de Jaroslav Hašek e o absurdo do surrealismo.

    ResponderEliminar
  3. Graças ao que resta da biodiversidade editorial portuguesa, podemos desfrutar (como diria o inefável CR7) desta obra subversiva.

    Porém, nos dias que correm, mais horripilante que a prensa, a guilhotina ou a censura é o desprezo, ou pior, a ignorância face a todo o saber acumulado que os livros encerram.

    Paradoxalmente, a abolição das censuras parece ter-nos tornado voluntariamente ignaros.

    Mas, como dizia um escritor contemporâneo, não sou a favor de impôr a felicidade. Todos temos direito ao mau vinho, à estupidez e a ter as unhas sujas.

    ResponderEliminar
  4. Slapstick?Porque nao falar portugues,ainda por cima neste blog dedicado a lingua e literatura?

    ResponderEliminar
  5. Dentro do mesmo tom, permitam-me salientar "O instituto para o acerto dos relógios", de Ahmet Hamdi Tampinar, editado recentemente no nosso jardim à beira mar plantado.

    ResponderEliminar
  6. Teresa Palmira Hoffbauer21 de setembro de 2023 às 03:45

    Ahmet Hamdi Tanpinar, escreve o vencedor do Prémio Nobel de Literatura turco Orhan Pamuk no seu livro autobiográfico "Istambul" (um dos livros da minha vida), foi um modelo para ele com a sua atitude criativa que flutua entre "passado e presente — ou como os europeus gostam de dizer: entre o Oriente e Ocidente.

    ResponderEliminar
  7. Teresa Palmira Hoffbauer21 de setembro de 2023 às 03:50

    Concordo absolutamente consigo, meu caro anónimo‼️
    No meu tempo de “menina e moça” escrevia a língua de Camões a preceito.
    Após alguns anos no país de Johann Wolfgang von Goethe, escrevo um português tão sujo como as minhas unhas.

    ResponderEliminar
  8. Um dos comentários mais certeiros e comovente sobre livros é o de Stefan Zweig na obra "ENCONTROS-Impressões sobre livros e escritores", intitulado Agradecimento aos Livros. Consegui este livrinho num alfarrabista pois foi publicado em 1938 pela antiga editora Civilização do Porto.

    ResponderEliminar
  9. Fiquei supercurioso!!!!
    Vou mesmo procurar esse livro de que nunca ouvi falar, nem do seu autor...
    É por estas e por outras, porém parecidas, que vale a pena vir aqui!!!!

    ResponderEliminar
  10. Eheheheh!
    Terá perdido algo, mas a resposta pronta à portuguesa não!
    Saudações cá da Cidade Morena, com unhas sujas e cerveja!

    ResponderEliminar
  11. Ora... e qual é o comentário?

    ResponderEliminar
  12. Meu caro amigo, não o publiquei porque é um bocadinho longo...mas se quiser posso fazer a fineza de o reproduzir!

    ResponderEliminar
  13. Não vejo qualquer inconveniente na afirmação: 'Todos temos direito ao mau vinho, à estupidez e a ter as unhas sujas'. Acredito até que poderia ser incluída na nossa Constituição como um direito fundamental. O que verdadeiramente me perturba é quando este princípio se torna o lema de pessoas que realmente me importam. Nestes casos, não desisto de as desafiar e de tentar provocar a sua mudança.
    (Escrito com recurso a ferramentas de Inteligência Artificial).

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório