Bolaño e os contos
Na revista que a Livraria Bertrand me envia regularmente por email (obrigadíssima!), descobrem-se factos e recomendações bem interessantes; de uma destas últimas vezes encontrei ali um resumo de um artigo sobre o escritor chileno Roberto Bolaño sobre alguns conselhos que este romancista, contista e poeta (como gostava de considerar-se, embora para nós seja sobretudo um ficcionista) terá dado sobre a escrita de contos. Além de dizer que quem quisesse dedicar-se ao género não poderia falhar de forma alguma a leitura de contos de uns quantos autores (entre os quais estão, obviamente, Cortázar, Rulfo, Tchekhov, Borges, Bioy Casares, Francisco Umbral, Camilo José Cela e Raymond Carver), Bolaño defendia que não se escrevesse apenas um conto, mas mais de um conto ao mesmo tempo, alegando que, de contrário, se ficaria a escrever o mesmo conto até morrer. Chega mesmo a recomendar no seu artigo, a quem tenha energia para tal, que escreva cinco ou seis contos de uma assentada (e, se tiver pedalada, dez ou doze!). O autor de Detectives Selvagens e 2666, que morreu demasiado jovem (aos 50 anos) e decerto com ainda tanto para dar, era o mais promissor escritor latino-americano da sua geração e é dos mais lidos em Portugal. Mas é também, curiosamente, um admirador confesso de Edgar Allan Poe, cujos contos, segundo ele, quase bastariam como material de leitura para quem quisesse ler uma panóplia variadíssima de contos.
Revelação muito interessante esta de escrever vários contos ao mesmo tempo. Ajudou-me a entender o aparecimento das mesmas personagens nas suas diversas obras de ficção, entre as quais ele próprio. Nos "Detetives Selvagens" ele é Arturo Belano, n' "O Terceiro Reich" e n' "A Pista de Gelo" é o guarda do parque de campismo. Só li estes e gostei de todos, em breve vou enveredar pelo "2666".
ResponderEliminarSem desprezar os conselhos dos escritores confirmados, há no entanto e a meu ver, os conselhos e as lapalissadas, dignas de um ministro que afirma que a um pico de incêndios sucede um abaixamento dos mesmos. Assim, James Mellon aconselhava (e muito bem) a escrever para os outros e não para si mesmo, enquanto um "intocável" da nossa praça aconselha a ganhar um prémio literário, para ter sucesso!
ResponderEliminarCom todo o respeito por Bolaño, parece-me ser mais do mesmo e diria que, com conselhos destes ninguém vai a lado nenhum... é como aconselhar um piloto que pretenda ter sucesso na Fórmula 1, a ganhar o campeonato mundial.
Amanhã tenho uma reunião com alguém que pretende encomendar-nos um estudo e um projecto, nesta linha de pensamentos irei aconselhar como factor de sucesso o ser-se bem sucedido?
Enfim... lembra-me a história do rato, do gato e do leão.
O gato perseguia os ratos e não lhes dava descanso. Um rato vai ter com o rei Leão e apresenta-lhe o caso pedindo conselho sobre como fazer.
Sábio, o rei Leão, diz-lhe: - Ó rato, de que tem o gato medo?
- Ó rei, tem medo do cão!
- Ora aí tens, a tua solução é seres cão e o gato não te incomoda mais.
- Obrigado ó sábio rei, é isso mesmo! Mas... ó rei, e como é que faço para ser cão?
- Ó rato, eu dei-te a solução para o teu problema, agora a táctica é contigo!
Pois! Como diria o capitão do Raúl Solnado.
Saudações aconselhadas cá da Cidade Morena.
Embora autores citados por Bolaño (ele próprio um excelente contista, principalmente no livro «Chamadas telefónicas») sejam, na sua maioria, obviamente bons, tenho de referir outros nomes que são absolutamente essenciais na arte do conto: Maupassant, Kafka, Nabokov, Katherine Mansfield, Edith Wharton, Alice Munro. E, a nível nacional, Mário Dionísio, Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Teresa Veiga. O conto é uma arte que estimula o autor a escrever o essencial, e que deixa mais espaço do que o romance para a imaginação e reflexão do leitor. Tenho pena que poucos autores, hoje em dia, se dediquem verdadeiramente a esta forma da escrita.
ResponderEliminarLAC
LAC,
ResponderEliminarBasta propor contos a uma editora em Portugal para ela dizer 'isso não vende'. Por isso se escrevem tão poucos contos em Portugal, as editoras gostam de livros de 400 páginas para cima. Porquê? Porque os "leitores" gostam de livros que lhes encham as estantes, como o péssimo '2666' de Bolaño.