Fábula contemporânea

Falo-vos hoje de um dos romances de estreia mais marcantes que li até hoje: As Minhas Estúpidas Intenções é a história fascinante de Archy, um macho de fuinha nascido na miséria, mutilado ainda jovem por um acidente e vendido como escravo pela mãe a um raposo usurário chamado Solomon, que resolve ensiná-lo a ler a Bíblia em segredo. Este conhecimento faz de Archy um milagre da zoologia, mas também um ser estranho que acaba por não encaixar em lugar nenhum. À medida que a vida de Archy é transformada pelos livros e pela ideia de Deus, ele começa paradoxalmente a ter saudades da sua velha existência guiada pelo instinto. Mas não pode desaprender o que aprendeu, nem conciliar as suas pulsões mais selvagens com dilemas éticos, ou o seu desejo de transcendência com as suas necessidades animais. Escrever sobre a sua vida e passar a outros o conhecimento é a tentativa de Archy de vingar o destino a que a mãe, afinal, o quis condenar. Vencedor de uma série de prémios no ano da sua publicação, incluindo o prestigiado Campiello, este é um romance excepcional de um autor ainda muito jovem que promete dar que falar.


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco6 de novembro de 2023 às 04:26

    Não sei... não li, mas não me palpita.
    Animalismo? O animalismo já chegou à escrita?
    Certo que não é original, Esopo usou animais num paralelo que compõe justamente a fábula. A Condessa de Ségur no seu "Memórias de um burro", seguiu esse princípio da fábula mas já romanceando. Em "Kurika - Romance dos bichos do Mato", Henrique Galvão romanceia magistralmente sobre a vida de um leão. Miguel Torga, em "Bichos", faz o mesmo, descreve a vida romanceada de vários bichos, aliás de forma sublime. Manuel Alegre em "Cão como nós" conta-nos sobre um seu cão, mas se o faz por amor ao animal trata-o como aquilo que ele foi: o seu cão.
    A grande questão é, se temos um romance animalista (e estúpido, sim, não sou eu quem o diz) puramente do ponto de vista do animalismo que pretende igualar os animais aos seres humanos inclusive dando-lhes direitos iguais a ponto de haver quem pretenda casar com eles e mesmo defenda a zoofilia. Ou se é um romance que tenta fazer de fábula, ou seja, em vez de pretender humanizar os animais, os usa num paralelo com a finalidade de passar ensinamentos?

    Tenho tanta coisa para ler... será que vale a pena este, só para aferir do que se trata?
    Enfim.
    Saudações humanas cá da Cidade Morena.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi6 de novembro de 2023 às 06:15

    Excelente paralelo “tratar a liberdade por evento de uma fábula”. Desafia a subjetividade com rédeas tanto filosófica quanto cognitiva. Belíssimo exercício a humildade. Parabéns

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  3. Concordo! Deve ser uma ótima leitura! Estou curiosa para o ler.

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  4. Estou a tentar lembrar-me do nome de um outro livro que começa assim, um pai que vende o filho para ser escravo de alguém a quem deve alguma coisa e que me ofereceram num aniversário. Acredito que no resto esse livro seja diferente.

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