Excerto da Quinzena

– Então, senhora Kayleigh, afinal de contas, que tipo de coisas viu?


As pessoas fazem de conta que é uma pergunta perfeitamente normal, mas que normalidade pode haver numa pergunta para a qual se espera uma resposta horrível? Também não sinto que essas perguntas signifiquem que as pessoas se interessam por mim. Talvez isso não seja estranho, talvez as perguntas não tenham como objetivo o interesse pela outra pessoa, mas a curiosidade sobre as vidas que nós pudemos ter levado [...] mesmo assim, eu noto uma pontinha de fascínio mórbido, uma necessidade que leva a fazer perguntas, mas que nunca ficará totalmente satisfeita.


Vi uma rapariga enterrar em direto uma navalha demasiado romba no braço; foi preciso enterrá-la bem fundo para começar a sangrar. Vi um homem dar pontapés ao seu pastor-alemão com tanta força que o bicho chocou aos latidos contra o frigorífico. Vi miúdos a desafiarem-se mutuamente para ingerir uma dose irresponsável de canela. Li textos de pessoas elogiando as qualidades de Hitler aos vizinhos, colegas e vagos conhecidos, assim sem mais nem menos, à vista de todos, para potenciais companheiros ou patrões lerem. Li a frase «O Hitler devia ter acabado o que começou» escrita como comentário à fotografia de uns imigrantes num barco à deriva.


Tudo isto são exemplos desenxabidos [...] São tudo coisas que apareceram nos jornais, contadas por outros ex-moderadores de conteúdos, o que de resto não significa que eu não as tenha visto: as saudações nazis, os cães violentados…, a rapariga com a navalha é inclusivamente um clássico. Há milhares delas por aí, há uma em cada rua, imagino eu: naquela casa onde à noite a luz da casa de banho está acesa, ali está ela, sentada sozinha no chão duro e frio. Mas isto não é o que as pessoas querem ouvir. Querem que eu descreva algo novo, coisas que elas mesmas nunca teriam coragem de ver, coisas que ultrapassam em muito o seu poder de imaginação […]


Hanna Bervoets, Tivemos de Remover Este Post, tradução de Maria Leonor Raven

Comentários

  1. "Em Petrogrado e Viena, em Paris, Londres e Berlim, os tambores do patriotismo rufavam com tanto mais vigor quanto mais se intensificava o equilíbrio e a chacina no campo de batalha. Nesses dias, Albert Einstein escreveu de Berlim ao escritor francês e pacifista, Romain Rolland: 'Quando a posteridade descrever os feitos da Europa deveremos deixar os homens dizer que três séculos de penoso esforço cultural não nos levou mais longe do que do fanatismo religioso à insanidade do nacionalismo? Hoje, em ambos os campos, os eruditos comportam-se como se há oito meses eles de repente tivessem perdido a cabeça' "

    A primeira guerra mundial - Martin Gilbert

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  2. «Porque nós somos feitos de histórias, não de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias.»

    Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz - Editorial Caminho (2010).

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  3. Seis meses depois de Maria da Piedade ter entrado na Casa-Mãe, o casal apareceu enfim à luz do dia, como se de mulher e marido se tratasse, aperaltados e bem penteados, para tomarem lugar na caleche que os conduziria à feira de Aires. Voltaram ao fim de dois dias, com o carro ajoujado de tudo aquilo com que Piedade se propunha substituir os apetrechos da casa em que pontificava: potes, tarraças, escudelas, formas de cobre, barranhoas, pintas, meias e quartas, alquaras, almofias e almotolias, alcudafes, moringues, jarros, pichéis, bateias, cabaças, pingadeiras e mais uma infinidade de objetos que pela primeira vez apareciam aos olhos espantados do povo de Torranjo.
    Mário Ventura - Vida e Morte dos Santiagos

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  4. " Corria o Junho. O vento norte trazia a areia e enterrava-se com força na pele daquele punhado de mulheres, pernas e coxas nuas e molhadas, corpo meio tapado com umas ridículas calças de riscado e um casaco muito roto, que às vezes tinha sido mesmo oleado, outras era um casaco do homem que estava no Brasil.
    O sargaço vinha na maré, solto, pesado, a cheirar a iodo de entontecer. A água ,gelada, zangava-se do roubo que lhe faziam as redes empunhadas por aqueles corpos cansados e, de sociedade com o frio da nortada, abria golpes nas pernas e nos braços das mulheres, golpes que deixavam sair gotas de sangue.
    Mas as mãos enfurecidas, cortadas pelo sal e pelo frio, mais se agarravam ao cabo do redenho, num desafio teimoso, porque o dinheiro do sargaço é o maná do Verão, para pagar ao vendeiro a conta do Inverno.
    E vá de entrar água dentro. A sentir nos seios o frio da onda que bate com força e também a pancada impiedosa que é sinal de segurar mais ainda. No regresso, é o sargaço que dica.(...)"

    in Ilídio Rocha , Sargaço, pág. 11, Coimbra 1959

    AM

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  5. Rectificação : " No regresso, é o sargaço que fica. "

    AM

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  6. Talvez o melhor livro sobre o Alentejo e os alentejanos que já li!!!!

    Grande abraço cá da Cidade Morena!

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  7. Bom autor... belíssima escrita de temas invulgares, como este "Sargaço", "Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer" (em co-autoria com Diocleciano das Neves) ou "A ilha das mulheres arcanos". Um minhoto-africanista!
    AInda bem que o recorda!

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  8. Uma ajuda aos que queiram escrever...

    Nove «dicas» para quem quer escrever bem:
    1. Evite repetir a mesma palavra, porque essa palavra vai se tornar uma palavra repetitiva e, assim, a repetição da palavra fará com que a palavra repetida diminua o valor do texto em que a palavra se encontre repetida!
    2. Fuja ao máx. da utiliz. de abrev., pq elas tb empobrecem qquer. txt ou mensag. que vc. escrev.
    3. Remember: Estrangeirismos never! Eles estão out! Já a palavra da língua portuguesa é very nice! Ok?
    4. Você nunca deve estar usando o gerúndio! Porque, assim, vai estar deixando o texto desagradável para quem vai estar lendo o que você vai estar escrevendo. Por isso, deve estar prestando atenção, pois, caso contrário, quem vai estar recebendo a mensagem vai estar comentando que esse seu jeito de estar redigindo vai estar irritando todas as pessoas que vão estar lendo!
    5. Não apele pra gíria, mano, ainda que pareça tipo assim, legal, da hora, sacou? Então joia. Valeu!
    6. Abstraia-se, peremptoriamente, de grafar terminologias vernaculares classicizantes, pinçadas em alfarrábios de priscas eras e eivadas de preciosismos anacrônicos e esdrúxulos, inconciliáveis com o escopo colimado por qualquer escriba ou amanuense.
    7. Jamais abuse de citações. Como alguém já disse: “Quem anda pela cabeça dos outros é piolho”. E “Todo aquele que cita os outros não tem ideias próprias”!
    8. Lembre-se: o uso de parêntese (ainda que pareça ser necessário) prejudica a compreensão do texto (acaba truncando seu sentido) e (quase sempre) alonga desnecessariamente a frase.
    9. Frases lacônicas, com apenas uma palavra? NUNCA!

    Nota: Paulo Moreiras... estás tramado com o conselho nº6!!!! Creio mesmo que foi o que impediu o Mestre Aquilino de ser candidato ao Nobel.

    Votos de um Extraordinário fim de semana a todos!

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  9. Que lindo trecho, vou procurar este livro! Acho que encontrei uma epígrafe: "naquela casa onde à noite a luz da casa de banho está acesa, ali está ela, sentada sozinha no chão duro e frio."

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  10. O Aquilino foi candidato ao Nobel em vez do Torga, mas não tinha possibilidades de ganhar! Naquele tempo acho que não havia traduções para inglês, com é que os académicos suecos haveriam de ler o Mestre! Outro galo cantou no tempo do Saramago!

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  11. Pior... como é iam traduzir para uma língua lacónica como o inglês, a riqueza e o léxico do Mestre?

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  12. Está muito bem redigida :) a lista de apoio a quem ambicione escrita aprimorada.
    Sem querer ofender o autor(a) da lista, digo que gosto de gerúndios e de Aquilino. E que as repetições têm o seu lugar sim (podem reforçar uma ideia ou; logo, não são casuais ou fruto de distracção, mas propositadas). O mesmo para o uso de uma só palavra.
    Mas essa lista está demais:))

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