Pensar palavras
Às vezes dou comigo a pensar em palavras e ando com elas imenso tempo na cabeça. A minha avó nunca dizia «estore», usava a palavra «gelosia», e curiosamente «gelosia» é também o vocábulo italiano para «ciúme»: um ciumento é um «geloso», palavra que se aproxima do «celoso» espanhol, que tem o mesmo significado, por sua vez próxima do termo português «zeloso», que hoje tem pouco que ver com ciumeiras e com as gelosias através das quais podemos espreitar o que andam a fazer as pessoas que nos provocam ciúmes. Será que uma «gelosia» tem realmente que ver com a outra? Confesso que achei graça à imagem da espreitadela, mas não estou certa. Por outro lado, achei um dia destes que também poderiam ser aparentadas as palavras «asilo» e «exílio», uma vez que os exilados pedem muitas vezes asilo nos países para onde fogem ou são enviados, e ao ouvido o som nem é assim muito diferente; mas aqui a etimologia é claramente distinta: enquanto o asilo, na base, quer dizer refúgio, lugar protegido, o exílio está ligado a degredo e banimento e inclui a partícula «exil», que indica desde logo algo exterior, que fica fora. E, pronto, hoje era só isto.
É um tema curioso o que nos traz.
ResponderEliminarMuito interessante aliás, dado que para quem gosta de ler e de escrever, como muitos de nós, esse pensar palavras é fundamental, pois ler é fazer colheita das palavras e escrever é tecer com as palavras.
Portanto as palavras são para nós, amantes da leitura e da escrita, fundamentais!
A língua portuguesa espelha a nossa globalidade, tanto por termos corrido as sete partidas do Mundo como termos sido invadidos ao longo de séculos por outros povos.
Pela nossa notória tendência de ir, de emigrar, muitos nos apodam de colonizadores, eu gosto de pensar que tanto fomos colonizadores como colonizados, pois ao espalhar-nos pelo Mundo que colonizámos, recebemos muito das terras e dos povos com quem nos misturámos, a começar e desde logo pela língua, indo buscar palavras a todos eles, as quais integrámos no nosso vocabulário e faz dela uma das mais ricas que existem - corrijam-me se estiver a ser megalómano.
A quem seja atento e goste de pensar palavras, consegue perceber o significado de muitas delas quando as ouve, ao fazer a ligação a outras línguas ou pela decomposição da mesma.
Em ler e escrever está o fazer uso e tirar proveito das palavras! Em pensá-las está o exercício de as conhecer.
Saudações palavrosas cá da Cidade Morena e votos de um Extraordinário fim de semana, com muitas e boas palavras, lidas, ditas ou escritas.
Curioso: o primeiro rádio que o meu Pai comprou era da marca "GELOSO".
ResponderEliminarÉ claro que zeloso tem o significado de ciumento. Só não sabe quem não leu livros dos séculos anteriores. Aliás, é uma das acepções dos dicionários. Vem de zelos e quem conhecer minimamente a obra de Bocage, tem de conhecer esta:
ResponderEliminarMagro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir n′um só terreno,
Mais propenso ao furor do que á ternura,
Bebendo em niveas mãos por taça escura
De zelos infernaes lethal veneno:
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) n′um só momento
Inimigo de hypocritas, e frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Sairam d′elle mesmo estas verdades
N′um dia, em que se achou cagando ao vento.
onde lá aparece 'de zelos infernais...". Ou seja, 'de ciúmes infernais'. Também está dicionarizado, claro. Basta ir, por exemplo, à infopedia (Porto Editora) que, não sendo o melhor dos dicionários, também não é dos piores.
Obrigada pelo seu comentário. Também estudei Bocage na escola e a minha mãe de 99 anos até sabe de cor este poema, com que nos coloriu alguns serões. Mas não me lembrei nem associei. Modifiquei o texto acima, acrescentando um «hoje», para ficar claro o que quis dizer. Venha sempre.
ResponderEliminarInteressante. Há um termo no Brasil muito usado para mandar pessoas para “cucuia” o tal se “lixe”. É correto considerar “exil” palíndromo?
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