As capas

Um dia destes, estava a lembrar-me junto de alguém do ofício como eram feitas as capas quando começámos a trabalhar neste mundo dos livros, e até parecia mentira que tivesse existido um tempo assim tão atrasado. Sem contar com as capas desenhadas por pintores consagrados (mesmo na velhinha colecção Vampiro), e pagas generosamente (segundo me contam), os artistas gráficos não tinham outro remédio senão fazer tudo à mão; e recordo uma colecção de obras de António José Saraiva que seguiam um modelo que tinha letras pretas e uma pequena ilustração sobre um fundo creme, fundo esse que (os leitores não o sabiam) tinha por base uma cartolina com areia da praia lá colada, que era usada em todos os livros da série e guardada num armário para que se não perdesse. Doutras vezes, recortavam-se imagens de revistas (os bancos de imagem, se já existiam, andavam com certeza distraidíssimos...) e colavam-se numa cartolina, com outras, de forma a criar uma composição alusiva à história que o livro contava, que depois se fotografava; mas, em muitos casos, a solução era ir pelo mais simples: escolhia-se uma única cor de fundo e outra para o lettering... e já estava! Hoje, com as exigências do marketing e para se sobressair entre os milhares de livros que se publicam todos os anos, as capas têm mesmo de ser chamativas e, para isso, vistas à lupa, pensadas por todos e discutidas às vezes por quem nem leu nada do livro, mas sabe que aquelas cores vão passar despercebidas numa mesa. E quantas vezes alguém nos pede para acrescentar uma frase bombástica que explique o livro a quem eventualmente precisa de um impulso para o comprar? Enfim, e agora também se tornou comum, tratando-se de autores estrangeiros, quererem aprovar a capa e às vezes exigirem duas ou três semanas para responder. Bem sei que o trabalho é hoje mais cuidado e profissional, mas, caramba, para quê tanta coisa à volta de uma simples capa?

Comentários

  1. Concordo consigo! Para quê tanta coisa à volta de uma simples capa?

    O "capismo" deve ter-se tornado na indústria livreira, só por si também, uma indústria complementar ou acessória da indústria editorial. Imagino os custos que isso tenha e a sua implicação no produto final: o livro!
    Não contesto que na fileira do livro, seja forma de sustentar empregos e criadores, mas duvido que acrescente valor ao que me importa no livro: o texto, a escrita! A revisão e paginação, sem dúvida que acrescentam valor - aprendi isso da pior maneira! Mas a capa?
    Eu não leio capas, leio o conteúdo, pelo que uma sinopse me basta, além do nome do autor. Imagem, encómios, prémios atribuídos, para mim não têm o menor peso na decisão da compra e da posterior leitura, e, muito menos se esta é uma obra de arte, ainda que goste de a mirar.
    Não serei um leitor/comprador típico? Acaso alguém compra um livro por causa da capa? Pode despertar atenção, sim, levar a que se pegue nele, e, deve ser esse o objectivo, é o merchandising, porém justificará o custo associado?
    Que se façam edições diferenciadas então, com preços diferentes. Os vaidosos até comprarão o mais caro para se exibirem, é apostar na ostentação.
    Evidentemente que podem haver excepções, as edições especiais, comemorativas, de luxo, para coleccionadores ou diletantes que o apreciem no todo. Não lhe sou insensível e até já adquiri algum.
    Há até o caso dos livros temáticos, que pedem uma capa especial e adequada, artística.
    Mas na grande maioria dos casos, uma capa com título e autor, bastam... tenho umas centenas de livros assim, na sua simplicidade dita até "de cordel". Bons romances!
    No entanto de acordo que por vezes a capa ajuda, ao ilustrar o tema do romance - e estou aqui a lembrar-me das aventuras do nosso D. Perdigote, foi feliz. Evidentemente que "A saga de Selma Lagerlof", sendo um livro de culto e muito específico, teria de ter uma capa condizente, porém de uma forma simples e distinta que é a fotografia da aludida.
    Sem exageros!

    Faz-me lembrar o que se passa na indústria do engarrafamento. Também costumo dizer que bebo vinho, não bebo rótulo! Sou consumidor e apreciador de vinhos, gabo-me até de ser conhecedor, no entanto quero lá saber do rótulo, basta que me diga a sua origem e as castas que o compõem. Foi moda lançada em França, interessante aliás, em que todos os anos o celebrado vinho Beaujolais novo, tinha um rótulo diferente da autoria de um pintor igualmente célebre, ansiosamente aguardado pela comunidade enófila!

    Enfim, vive-se da imagem e o livro não podia deixar de espelhar essa realidade.
    Mas é triste que alguém deixe de comprar "Torto Arado" porque apresentado numa versão sem capa ilustrada e se deixe tentar por um romance oco de uma celebridade vazia, porém apresentado com uma capa caríssima e produzida para o promover, enganando os tansos que associem à capa a qualidade da escrita.

    Já que estou aqui na Cidade Morena, o belíssimo romance angolano-benguelense "A Sul o Sombreiro", (Pepetela), tem uma capa simples, porém atractiva.
    Saudações daqui!

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  2. Não estou bem certo, mas creio que em 84, o meu segundo emprego gráfico depois da António Arroio, foi na Agência Belarte, sobre o Banco Espírito Santo da Praça de Londres. Alguns anos bons e grande escola para dar uso às rottring, aos pincéis, ao manejo do aerógrafo, da Repromaster e, onde sobretudo se usava letra de decalque da Mecarnorma para maquetas a exigir texto que fosse além dos logotipos e aquilo que tinha de ser desenhado e pintado à mão. Um manancial de páginas mecanorma ou letraset com tipos de fontes.
    Em 90, nas agência começava-se a utilizar o computador, e lembro-me por exemplo de ver alguém retocar uma verruga no rosto de um grande político que o país teve. Porém a Belarte estaria longe do salto para um Macintosh de acesso aos primeiros softwares gráficos. Na própria Impala, onde estive uns meses, com trabalho não criativo, a maquetagem das revistas ainda se fazia com o recorte de páginas de texto, em papel, que eram dispostos nos chamados espelhos, sendo a área das fotos desenhadas à mão. Não gostei nada, e surgiu um anúncio para desenhador gráfico numa editora. Concorri, e fui aceite após testes realizados num refeitório (agora exposto à intempérie, visivel para quem no IC19 passa perto de Mem Martins) à pinha de candidatos.
    Se bem que a editora (uma outra, grande, enorme escola) fosse das maiores à época e pioneira e afoita a partir dos anos cinquenta, não só não tinha ainda computadores, como a montagem dos títulos e demais informações de frente capa e lombada, se realizavam tirando fotocópias (indo de cavalo para burro) às páginas dos catálogos Mecanorma, e depois letra a letra eram recortadas e coladas sobre uma linha visual imaginária.
    As imagens, tal como a Maria do Rosário Pedreira menciona, eram fanadas de revistas, preferencialmente estrangeiras de forma a que os direitos de autor estivessem mais longe da vista. Sim, já havia os Bancos de Imagem, mas não era para todos, com licenças de uso temporário a rondar os 80/90 contos à época. Tenho a ideia de ter sido (talvez) o Henrique Cayatte e o seu atelier, dos primeiros ao recurso a essas imagens tipo Getty ou Image Bank, para a Dom Quixote. No que me toca, foi já no percurso freelance que tive acesso a esses mesmos Bancos por via do grupo Difel e da Dr.ª Maria da Piedade Ferreira (que bom período), depois com a ASA, Porto, e por aí fora já que "os tempos começaram a ser outros". Como curiosidade, em 11 anos de PEA, apenas tive problema com a imagem de capa, talvez de Sidney Sheldon, em que a foto de sala que dava suporte à capa, um bonito salão com candelabros, tinha como foco a Embaixada de Espanha em Lisboa, história que acabou em bem após diálogo entre Editor e responsável pela Embaixada.
    Concordo que hoje, as exigências são enormes por parte do grupo de gente que decide... e se bem que as nossas próprias exigências acompanham o evoluir do mundo e dos tempos, sendo a nossa fasquia alta, o poder dar voz a tanta gente do tal grupo decisor, tantas vezes antagónicos, não é fácil, havendo hoje um pedido de capa com as cores y e amanhã mudar tudo e testar novas "n" maquetas com a cor x... com o acréscimo do trabalho de capa ter entretanto baixado para quem as engendra e executa.
    Dizia-me um outro grande Senhor Editor com percurso de responsabilidade editorial em várias grandes casas, "pois é zm, as coisas complicam-se, e o Editor em si, na hora de escolher, não acerta nada, já que tal responsabilidade cabe agora à equipa de vendas e ás novas leis do mercado livreiro, mais supermercado e menos literatura".
    Diz-se, sabemos, que todos gostam de falar de si e, talvez neste caso, dar significado às suas boas memórias, quiçá avolumar uma espécie de ego (será?).
    Esta foi a oportunidade de entrar no diálogo, os meus cinco minutos de antena... a evolução profissional do corta e cola, daí as nossas capas terem sido tão pobres, para a liberdade total de criação e manipulação, que os photoshop's permitem.
    Tudo evolui, em nada me considero retrógrado, mas tenho saudades não do tempo, mas dos Editores mais "séniores" que t

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  3. E ainda bem que decidiu partilhar... foi muito interessante lê-lo!
    Não sei se serei pura e simplesmente um mero bisbilhoteiro, mas como já referi, gosto de ler biografias e gosto de ouvir ou ler memórias.

    Grato, receba um abraço cusco cá da Cidade Morena.

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  4. Grato!
    E eu leio António Luiz Pacheco praticamente diariamente, e também gosto.
    Esta é uma página de bons momentos com a chávena de café a fumegar, no interregno do trabalho profissional diário. É um luxo ter uma vida repleta de vivências ligadas a esse objecto tão lindo e completo chamado livro... e é um prazer imenso ler-vos, já que o tema é esse mesmo, o Livro.
    Cumprimentos!
    josé reis

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  5. Não tenho uma visão tão pessimista das capas de livros, no passado. Bastaria lembrar a criatividade original de um Sebastião Rodrigues ou de um Victor Palla - grandes profissionais.
    Hoje, sim, o design habitualmente usando bancos de imagens pobretes ou medíocres artífices anda pelas ruas da amargura estética. O desinteresse, ou ignorância, da maior parte dos escritores também não ajuda à pobreza franciscana...

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  6. Gostei muito de o ler, por favor apareça mais vezes! Todos aprendemos.

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  7. Não falo a ler este blog diário. É um prazer enorme.
    Muito obrigado... resto de dia feliz!
    :)

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  8. Cláudia da Silva Tomazi28 de novembro de 2023 às 04:48

    Ah, as capas! Eh, lá se foram as folhadas, em ouro. O verdadeiro charme épico. Eu amo realimente deslizar a mão em uma bela capa. Há uma (espécie) de sabor no tato.

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  9. Teve épocas, mas no fundo os recursos eram mais escassos.
    Mas concordo consigo: havia bons Artistas a trabalhar capas, sobretudo nos anos sessenta e setenta, mas claro, também quando agarrei a profissão...enquanto leitor tinha os meus capistas preferidos de quem já não me lembro o nome, mas havia colecções da ASA muito boas, capas da Presença eram assinadas por alguém que esqueci mas não só admirava, como reconhecia o estilo à vista desarmada. Da minha época, a partir dos anos 90, retive um nome de quem apanhei layouts de colecção, chamava-se Rogério Petinga... e ainda hoje vejo as suas estructuras, as suas composições, o seu bom gosto, de uma sobriedade abraçada a um grande requinte e qualidade, excepcionais. Nas PEA, onde trabalhei, havia o José Rui, com os seus guaches feitos em três tempos, alguns grandiosos atendendo ao seu estilo e à época. Sempre gostei do objecto livro, e sempre tive atenção ao seu invólucro... quantos aos artistas, alguns desconheço, outros esqueci o nome, mas sim, capas muito boas... com os recursos magros. Concordará que outras eram um pavor... mas talvez se passe na actualidade de um modo similar com outras nuances.

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  10. Cláudia, adoro as capas em coiro! Coiro lavrado, por vezes com outros materiais... oiro.
    As de cartão também me agradam, gosto do toque sobretudo se rugoso, sendo liso transmitem frieza. E das de papel, sobretudo as que se usavam antigamente, a lembrar mata-borrão macio e absorvente como guardanapos para a leitura. Até com a lombada em pano... pena tenderem a descolar com o tempo, ficando à vista as linhas, como entranhas num corpo em decomposição.
    Capas plastificadas ou de papel duro não me dizem nada!

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  11. Oh...deixem-me sonhar...
    A BELARTE ESTÁ EM TODA A PARTE

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  12. Sei que o Extraordinário Pacheco não vai ficar melindrado: na frase "podem haver excepções" deve ser "pode" porque o verbo haver não pede plural.

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  13. Ser corrigido por quem sabe, é um privilégio!
    Grato pela sua atenção, abraço!

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  14. Era outro tempo. Um tempo em que tínhamos mais tempo e as coisas decorriam à nossa medida. Humana.
    Hoje, sinto que corremos atrás do tempo, sem o conseguir apanhar.
    Tudo está especializado e compartimentado. E industrializado. Pelos vistos as capas também. Já não são obras de "arte artesanal", talvez algo ingénuas. São produtos bem embrulhados.

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