Uma coisa leva a outra
Uma das coisas mais bonitas dos livros é que uns levam a outros. Li, por exemplo, o sarcástico e impiedoso Jules Renard por causa de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, e também me acontece regularmente um livro de determinado autor que não conhecia fazer com que leia os outros livros que escreveu antes e depois desse. Foi, de resto, o que me aconteceu recentemente com Tudo É Rio, de Carla Madeira, de que já aqui falei; e comprei pouco depois Véspera, da mesma autora, que me atraiu igualmente por ser uma história de gémeos e eu, sei lá porquê, adorar ler sobre gémeos (lembram-se de O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy?). Neste romance, Caim e Abel, filhos de uma mulher extremamente beata e de um homem que gosta de beber, são dois gémeos idênticos que terão destinos bastante diferentes. Enquanto um brilhará em termos académicos e será feliz no amor, o seu irmão depressa se desinteressará da escola, indo trabalhar com o pai na loja de ferragens, tornando-se um tipo macambúzio e agressivo e, pior do que isso, querendo apenas saber da namorada do irmão. Pareceu-me um livro menos cuidado em termos da linguagem do que o que tinha lido e custou-me acreditar numa diferença tão grande entre os dois protagonistas com os mesmos genes, mas já li que há muita gente que gosta mais deste livro do que do outro, portanto, deve ser tudo uma questão de gosto. A autora, que vem ao FOLIO, vai estar na Livraria Déjà Lu na Fortaleza de Cascais no dia 8. Eu não estarei por perto nesse dia, mas a sessão deve ser bem interessante.
Como julgo já ter referido, o meu gosto pelo livro de Carla Madeira - que me ofereceram - não é excepcional embora lhe reconheça qualidade na escrita. Mas Arundhati Roy é escritora que admiro; "O deus das pequenas coisas" é, no meu parco entender, a sua melhor obra e um extraordinário livro. Porque também procuro pelo menos um segundo livro de qualquer escritor para confirmar impressões e argumentos sobre o que dele penso. E também por ser um prazer (ou não) lê-los em contexto diverso. Não tenho memória de ler um livro por sugestão do que noutro se aponta. Para mim, Julian Barnes é outro autor que merece o nosso tempo e atenção, à medida que o vou lendo, mais me atraem as suas obras.
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