Excerto da Quinzena
Naquele verão ninguém podia imaginar que esse seria o último verão. Eu lia poesia no alpendre. Lia César Simón e Pessoa. O meu sobrinho flutuava numa piscina da ToysRUs. Andávamos sempre todos de t-shirt e fato de banho. Por vezes saíamos para jantar com alguém ou para fazer compras. Encomendávamos paelhas no Bar Levante e íamos buscá-las. Eu tinha os olhos cheios de estrelas. O meu pai ensinou-me a programar os aspersores, a ligar a máquina depuradora de água e a encarar a hora da rega como uma forma de meditação zen. Ajudei-o a cortar a relva e os ramos dos ciprestes.
A minha avó, que morrera no ano anterior, surgia de vez em quando nos corredores com o seu avental com flores, com a sua caixa de costura nova. Ensinava-me a descascar batatas, a enfiar a linha na agulha, a fazer paciências. Ou pedia-me que lhe lesse um poema de Antonio Machado.
Naquele verão, o meu sobrinho comeu arroz pela primeira vez. E o meu irmão e eu demos de comer pela primeira vez a uma criança. Adormeci na espreguiçadeira debaixo da palmeira. Falei ao telefone durante horas junto à piscina. Cruzei-me com velhos amigos dos quais nada sabia há anos, e recordámos episódios da infância. Passaram-se muitas coisas e nenhuma com importância. Nenhuma parecia merecer uma só linha de um livro. Morreu a tartaruga do meu irmão e substituímo-la por outra. Convidei um amigo a subir ao meu quarto aproveitando o facto de todos terem saído. Trocámos confidências e dissemos mentiras no terraço fresco. Escrevi cartas de amor que foram correspondidas. Caíram ninhos e tentámos salvar as crias. A oliveira deu azeitonas. Nada do que nos comove termina. Tudo fica imobilizado, suspenso, como se alguma vez pudéssemos regressar.
Lola Mascarell, Nessa altura já cá não estamos, tradução de Rui Elias
"nada do que nos comove termina", uma sempre verdade que ajuda a subir degraus.
ResponderEliminar"As minhas tias, aquelas numerosas semimães, que se esforçavam por me levar a reboque, mas que me amavam de verdade, tentaram por anos a fio influenciar-me para que eu estabilizasse como alguém que se visse, ou seja, como advogado ou burocrata - a minha indefinição era-lhes profundamente incómoda, não sabiam como conversar comigo, nem quem eu era e, no máximo, remoíam coisas como:
ResponderEliminar— Józio - remoíam - Já está mais do que na hora, meu querido! O que dirão as pessoas? Se tu não queres ser médico, pelo menos sê ao menos um mulherengo ou um especialista em cavalos, mas torna-te em alguma coisa... em algo de concreto..."
Witold Gombrowicz - "Ferdydurke" (trad. do polaco de Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes)
Com tantos extraordinários romancistas, mais um poeta disfarçado de prosador ganha o Nobel. Haja Deus ! (que não o da Literatura).
ResponderEliminarLola Mascarell, nunca li nada, que beleza este excerto! Obrigada Maria do Rosário Pedreira por dar a conhecer estes escritores.
ResponderEliminarO excerto da semana:
H. cortou um dedo num agrafador. Um
certo pânico instalado. Os homens não são
tão fortes como os pensamos. Água oxigenada
mercúrio uma curita. Parou o sangue.
H. olhou para mim agradecido. Encostou
a cabeça no meu ombro, pequeno para uma
cabeça tão grande. Chorou no fim. As coisas
estão mal com a namorada e o trabalho
não lhe corre bem. O dia lá fora era perfeito.
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Ana Rodrigues - Di Versos , número 35
«Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.»
ResponderEliminarLivro do Desassossego, Bernardo Soares, Vol.I Fernando Pessoa, Presença.