Excerto da Quinzena

Saí ontem de casa com uma ideia bastante vaga de como iria decorrer a tarde, disposta a deixar-me conduzir pelos meus passos. Não é bem verdade porque pelo menos tinha dois objectivos: 1) ir até à rua onde está o café que tem quadros do Miguel Ribeiro expostos; 2) ir à Cooperativa Árvore onde estava o corpo sem vida de João Semedo. Há dias vi o Miguel na Poetria a comprar livros de poesia, febrilmente como sempre. Achei-o mais gordo mas com a mesma cor macilenta, os olhos sem luz e a mesma voz de criança tímida. Disse com uma calma desconcertante que tinha um linfoma. Aliás, vinha de mais um tratamento no Hospital que era o que lhe provocava aquele inchaço no rosto. E então prometi-lhe que ia ver os seus quadros, sem ficar com o nome da rua, em frente ao Cemitério do Prado do Repouso [...]. Mas acabei por descobrir tudo: a rua (Ferreira Cardoso), o café (afinal churrasqueira Nova Era), os quadros, a casa (magnífica) onde o Miguel já não mora e, oh surpresa, o próprio Miguel sentado a uma mesa da Nova Era, sozinho, a comer queijo acompanhado de um copo de vinho. Bom vinho, como constatei depois de aceitar o convite para me sentar e brindar com ele «à poesia» como sugeriu. Quando lhe disse que queria ir conhecer o cemitério dispôs-se a acompanhar-me para me mostrar a campa de Eugénio de Andrade, da autoria de Siza Vieira, em mármore liso de aspecto depurado e austero com gardénias plantadas num dos lados e um poema gravado, do próprio Eugénio, que termina com os versos: «A morte não existe / tudo é canto ou chama» [...]


Despedi-me do Miguel e segui para a Árvore, onde me deparei logo com uma bateria de jornalistas no exterior com os equipamentos prontos para a notícia. Lá dentro, muita gente, das artes, do teatro, da política, claro, muitos jovens, um vídeo a passar imagens de muitos dos momentos da vida do João Semedo [...] No modesto «livro de condolências» não resisti a transcrever os dois versos do poema gravado na campa do Eugénio [...]: «A morte não existe / tudo é canto ou chama» [...].


 


Dina Ferreira, A Mais Bela Profissão do Mundo: História de Uma Livraria, seguido de Os Dias de Uma Ex-Livreira à solta, Poetria, 2022

Comentários

  1. "Há onze anos que não ia a Nova Iorque. Exceptuando uma operação em Boston para tirar uma próstata cancerosa, nesses onze anos não tinha praticamente saído da minha estrada rural de montanha nos Berkeshires e, o que é mais, raramente tinha olhado para um jornal ou ouvido as notícias desde o 11 de Setembro, três anos antes; sem qualquer sensação de perda - apenas, a princípio, uma espécie de secura interior - tinha deixado de habitar não só o grande mundo mas também o momento presente. Há muito que eu tinha matado o impulso de estar nele e de fazer parte dele."

    "O FANTASMA SAI DE CENA" - Philip Roth

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  2. Passado algum tempo, o meu pai avistou ao longe o avô Manel sentado na pedra, à espera da sua oportunidade, e, mandou-me ir entregar-lhe a lebre. Sorriso de orelha a orelha e feliz da vida assim fiz. Mal cheguei comecei a contar como tínhamos caçado a lebre e com todos os detalhes expliquei, orgulhoso, o que o pai tinha feito: descobrir a lebre na cama, bater com o pé no chão para a fazer levantar e atirar na corrida.
    O avô Manel sorriu e respondeu: - O teu pai é parvo!
    Há um claro choque geracional relativamente ao que é a caça e às prioridades que devemos ter quando caçamos. Quando se caçava para comer, e, ajudar a alimentar a família, claro que era parvo colocara a ética em cima da mesa e dar uma oportunidade á lebre. O meu pai também cresceu com essa realidade, mas com o tempo conseguiu conciliar o melhor das duas gerações: de um lado a paixão e respeito pela carne, e, do outro, a ética e o respeito pelo animal.

    In - " Da planície às altas montanhas", o livro que estou agora a ler.
    Do meu bom amigo e Confrade Caçador, António Afonso Inácio

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  3. Cláudia da Silva Tomazi15 de dezembro de 2023 às 08:01

    “Afonso falava, mas ela não ouvia.
    Doía muito mais que ela imaginara. Já se arrependia de ter sido tão correcta, de não se ter deixado ir onde Filipe a queria levar. Sentiu as mãos dele no corpo, recordou o perfume de jasmim… e agarrou o parapeito da janela com força. Desperdiçara a única oportunidade que tivera de saber o que significava ser amada por um homem…
    - Pois não achas filha?
    A galera de Filipe ainda se encontrava amarrada ao cais. Se ela desatasse a correr pelo morro abaixo, ia a tempo de saltar a bordo. Viveria dois anos junto com ele, em terras distantes, cheias de aventuras…
    -Teresa, estou a falar contigo!
    Virou-se de rompante, principalmente para resistir a tentação de sair porta fora. Perguntou de respiração cortada:
    - Que disses meu pai?
    Duas lágrimas caíam-lhe pelo rosto pálido, marcado pelas olheiras. Embora o barbeiro ainda não tivesse acabado de o pentear, Afonso dispensou-o.”


    “Afonso Henriques o Homem” da extraordinária Cristina Torrão.

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  4. Costumava contar-te as histórias que lhe aconteceram entre os 15 e os 18
    Um filme de sexo e de terror
    Corpos nus e negócios nas margens da lei
    Uma vocação de atriz e ao mesmo tempo uma rapariga com estranhos rasgos de avareza
    Conheci-a quando acabara de fazer 25 anos
    Numa época tranquila
    Suponho que tinha medo da velhice e da morte
    A velhice para ela eram os trinta anos
    A Guerra dos Trinta Anos
    Os trinta anos de Cristo quando começou a pregar
    Roberto Bolaño - Poesia Completa

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  5. Que feliz me sinto ao ler este excerto que transcreveu do meu livro. Há gestos que falam por si, elevados na intenção, delicados na forma, simplesmente belos como tudo o que é humano! Obrigada, Maria do Rosário.

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