Ensinar a escrever

Todos nós fomos naturalmente ensinados na infância a ler e escrever. Mas ensinar alguém a escrever um livro, a escrever uma obra de ficção, a escrever poesia, é realmente possível? Ou, pelo contrário, o talento para isso nasce com a pessoa e não pode ser ensinado? Quando comecei a trabalhar com livros, vi que havia escritores estrangeiros que eram, simultaneamente, professores de Escrita Criativa em universidades. Cá em Portugal ainda não havia nada parecido, mas, com a globalização, lá foram aparecendo cursos e oficinas para todos quantos querem tornar-se escritores, umas vezes ministradas por autores de respeito (Mário de Carvalho já trabalhou a escrita de ficção e até escreveu um bom manual), outras por vedetas da literatura dita comercial. Sei que algumas dicas (uso a palavra como indicações) podem de facto ajudar alguém com talento, mas desorganizado; não acredito que, sem o talento, se chegue lá, por mais cursos e oficinas que se frequentem. Há tempos assisti a um documentário (algo chatinho) sobre o finalista do Booker Prize Percival Everett, professor, entre outras coisas, de Escrita. E ele dizia uma coisa interessante: que, quando ia a uma livraria e comprava uma antologia de contos, percebia logo quais eram os autores que tinham feito oficinas de escrita criativa, porque todas as histórias estavam escritas com as mesmas regras e o mesmo figurino. Será que este tipo de apoio à escrita de ficção acaba por espartilhar o espírito criativo em vez de alargar os horizontes?

Comentários

  1. É uma reflexão interessante! Acho que com ou sem talento a prática também deve ajudar muito parabéns pelo destaque:)

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  2. Acredito que sim, tal como no ensino das artes de pintura. Por vezes quem ensina "tolhe" a criatividade dos que naturalmente são artistas, da escrita ou de belas artes.
    Bjs

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  3. Acho que, como em qualquer outra arte, prevaleça a ideia de que é impossível inovar-se sem se conhecer o cânone, sem se conhecer e dominar a norma. E acho que faz sentido. No entanto, qualquer artista tem de perceber quando é que chegou ao patamar do domínio da norma para poder saltar para a inovação. E é este passo que é impossível ensinar seja em que domínio artístico for. Eu estou a fazer um Mestrado em Escrita Criativa na UC e, por ser um nível de ensino mais avançado, não faz sequer sentido nos prendermos com os modelos clássicos de estruturas narrativas/poéticas ou dramatúrgicas. O que este tipo de ensino faz é talvez dar um tipo de validação necessária para que o autor/escritor sinta confiança para poder dar o salto da inovação, porque, sozinhos, nem sempre é fácil perceber se aquilo que tentamos explorar não é uma loucura.
    Quanto ao dito talento, passa muito pela disciplina versus frustração versus loucura. Pode-se nascer com uma maior apetência para explorar certos domínios, mas sem se explorar essas apetências, sem insistir, errar, persistir, cair, levantar, sem se viver com um pé ou os dois no mundo «de lá», não há talento que resista.

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  4. Vejo por aí anunciados muitos cursos de escrita criativa... ministrados por quem não conheço como escritor, o que me admira.
    Aliás nem todos os escritores, ainda que muito bons, saberão ensinar outros a escrever. Escrevem porque têm esse talento natural, que podem ter aprimorado com o tempo e o trabalho, mas não têm que saber ensinar.
    Aliás sempre ouvi dizer que quem sabe faz, quem não sabe ensina.
    Cursos universitários ou mestrado, doutoramento em escrita criativa? É coisa que também custa a entender cá a este barrão ignorante que teve uma cadeira de "estilística prática" na universidade, a qual se revelou bastante útil de facto na ajuda que foi para escrever relatórios, por exemplo. Dos relatórios passei a artigos, mas não consigo vislumbrar o que um doutoramento na área terá a ver com a criação de um Terras do Demo, Levantado do Chão, Contos da Montanha, Os Maias e por aí fora.
    Desconfio mesmo destes cursos, depois de saber que um insigne escritor da nossa praça, que os ministra, defende que a forma de alguém se lançar como autor de sucesso seja "ganhar um prémio literário", o que me soa a lapalissada das grandes, para não dizer conselho tão inútil quanto aplicá-lo ao automobilismo ou futebol: ganhar prémios e campeonatos é fórmula para o sucesso, coisa que toda a gente sabe e percebe, a questão é: como!
    Um escritor faz-se com talento e com trabalho, presume-se. E suponho eu que o oiço dizer: lendo! Lendo muito, os mestres, os grandes escritores. Isto sim, para mim traça dos livros faz todo o sentido, mas que sei eu?

    Saudações natalícias cá do Bairro Ribatejano, onde e porque retido com uma terrível crise de gota, tenho tirado a barriga de misérias no que toca a ler! Vingo-me!

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  5. Cara Sónia Pereira,
    Penso (posso estar errado) que a primeira premissa para ser um bom escritor é dominar, compreender, saber utilizar a língua, oralmente e "escrituralmente". Isso não se aprende nos mestrados de escrita criativa, aprende-se (aprendia-se) na escola primária.

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  6. "as mesmas regras e o mesmo figurino"
    Em termos futebolísticos, falta, a esses escritores, futebol de rua, jogar à bola com os joelhos esfolados, a fugir dos carros e da polícia.
    Estamos a caminhar para uma literatura com muitas regras mas sem glúten, com muita criatividade mas sem alma, com muito "know uau" mas na verdade, sem o saber de experiência feito.

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  7. Escrita sem glúten... Extraordinária imagem!
    Ahahah!
    E, sem dúvida que tudo começa no correcto uso da língua e em possuir um vocabulário rico e alargado. Escola, primária e secundária, também as selectas literárias, ler os mestres!
    Abraço cá do Bairro Ribatejano!

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  8. E a tal Inteligência Artificial...

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  9. escrever muito, escrever todo dia... ajuda muito

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  10. Julgava - e ainda julgo - que as oficinas de escrita criativa serviam para divertir as pessoas que gostam de escrever. Fiz duas e apenas por gostar do modo como eram conduzidas (tinham a mesma pessoa ao volante). Foram bastante interessantes, mas não penso que o objectivo fosse formar escritores, era mais uma ginástica verbal que usava escrita e oralidade. Tenho sérias dúvidas acerca de ensinar alguém a ser escritor, nunca acreditei que seja apenas matéria de instrução.

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  11. haverá casos em que á superficie parece talento, e é, enquanto e se nao encontrarmos os preliminares.
    A autora sabe sempre do que fala, nao é o caso do leitor, mas certamente haverao individuos com talento mas incapazes de o produzir.

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  12. Ler muito, escrever muito, estudar muito. Uma vida inteira. Esquecer a publicidade, a comunicação, as grandes editoras, os prémios literários. Escrever contra tudo isso. Todas as actividades criativas são a seu tempo contra o que existe.

    No fim, voltará a existir uma comunidade de leitores e escritores, cheia de defeitos certamente, mas existirá novamente, e sobretudo a saber reconhecer os seus.

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  13. uma dica é anotar várias ideias ao longo dos dias e parar em algum momento para fazer rascunhos, e aproveite um dia daqueles sem fazer nada e trabalhe em cima do que já tem de ideias anotadas. pode funcionar.. =)

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