Excerto da Quinzena

Mas o melhor era o banho ao fim da tarde, quando o Sol descia e ficava enorme e cada vez mais encarnado, e o mar estava primeiro verde e depois verde mais escuro, e a seguir azul, e depois anil e depois quase preto. E a água estava quente, quente, e havia cardumes de peixes muito pequeninos nadando entre as algas avermelhadas.


E dava gosto mergulhar e dar beliscões nas pernas das mulheres, para que gritassem. E depois que o papá e o tio Arturo e o marido da titi Josefina nos pusessem às cavalitas e nos deixassem atirar-nos dos seus ombros para a água. E depois que um de nós fosse agarrado por dois adultos pelas pernas e os braços e que eles nos atirassem ao ar e dissessem «Cai na água como um gato», e as mulheres, com o traseiro inchado como um balão debaixo do fato de banho em forma de pêra, dissessem: «Não façam disparates com as crianças». E então os homens diziam-nos «Vamos pregar-lhes um susto» e nós corríamos atrás da mãe e das tias e das outras senhoras e elas saíam da água aos gritos e fugiam pela praia fora até que as apanhávamos e as levávamos agarradas até à beira-mar e ali elas sentavam-se na areia cheias de medo e a tia Honorina quase chorava, dizendo ao marido «Não, não, por amor de Deus, Arturín». E nós partíamo-nos a rir quando dizia «Arturín», e chamávamos «Arturín» ao tio Arturo pelo menos durante uma hora, até que nos cansávamos. Mas depois dávamos todos as mãos (e as mãos das mulheres tremiam) e entrávamos juntos a correr na água e atirávamo-nos de cabeça, mas as senhoras não, sentavam-se e ficavam onde a água não passava de três dedos, rindo como galinhas chocas.


Julián Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Comentários

  1. Já que não sou leitor habitual de poesia (o que não significa que não goste de poesia, sobretudo aquela que entendo e para mim faz sentido), vou deixar aqui um belíssimo poema de Jorge Palma, que por acaso é a letra de uma lindíssima canção.

    ESTRELA DO MAR

    Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
    E em que o sono parecia disposto a não vir
    Fui estender-me na praia sozinho ao relento
    E ali longe do tempo acabei por dormir

    Acordei com o toque suave de um beijo
    E uma cara sardenta encheu-me o olhar
    Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
    Ela riu-se e disse baixinho: estrela-do-mar

    Sou a estrela-do-mar
    Só a ele obedeço, só ele me conhece
    Só ele sabe quem sou no princípio e no fim
    Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
    Quando alguém quer à força
    Ser dono de mim

    Não sei se era maior o desejo ou o espanto
    Mas sei que por instantes deixei de pensar
    Uma chama invisível incendiou-me o peito
    Qualquer coisa impossível fez-me acreditar

    Em silêncio trocámos segredos e abraços
    Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
    Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
    Mas mil anos são poucos ou nada para a estrela-do-mar

    Saudações equinodérmicas cá da Cidade Morena e votos de um fim de semana na praia!

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  2. -- Não passa de um idiota -- frisou Fairholme.
    -- Ou de um impostor -- disse Ágata, dando mais ênfase à sua suposição com um trejeito dos olhos e da boca, enquanto as suas camaradas, que lhe reprovavam as liberdades, se mantinham rígidas e mudas.
    -- Disse à senhora Wilson que tinha uma irmã e que estivera na igreja no domingo passado, e acaba de dizer-lhe, ao senhor, que é um enjeitado e que só chegou aqui na quarta-feira. A sua pronúncia é simulada e sabe ler. Não creio de modo nenhum que seja um campónio. Talvez antes um salteador vindo para roubar as pratas do colégio.
    Bernard Shaw -- Um Socialista Insociável
    Tradução de Penha Coutinho

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  3. Cómodo Lúcio Aurélio22 de setembro de 2023 às 02:38

    O candeeiro é, sem dúvida, um objecto de grande utilidade e deveras encantador. Distinguimos os candeeiros de pé dos candeeiros suspensos, as lamparinas de álcool das lâmpadas de querosene. De um modo quase involuntário, já que estamos a falar de candeeiros, temos forçosamente de pensar no quebra-luz, isto é, não é obrigatório que o façamos. Não corresponde à verdade que estejamos mesmo obrigados a fazê-lo. Ninguém nos obriga. Felizmente cada um pode pensar naquilo que bem entender, mas, de qualquer maneira, o facto é que candeeiro e quebra-luz parecem complementarem-se na perfeição. Um quebra-luz sem um candeeiro seria inútil e absurdo, e um candeeiro sem um quebra-luz ser-nos-ia desaprazível e incompleto. [...]

    Robert Walser - Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos (trad. Ricardo Gil Soeiro)

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  4. "Cold war cultural cleansing

    <....>

    The search for why the long nineteenth century boiled over with anticapitalist movements and ideas and sentiments, and the last half century has not , must measure the enduring impact of this long-ago movement of cultural repression. Language is, as a philosoper once put it, the "house of being". Many americans - working hard, rewarded well, buying homes - were nonetheless homeless."

    The age of acquiescence - The life and death of american resistance to organized wealth and power
    Steve Fraser

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  5. "Esse pai das fotografias, que é vigoroso, que exibe uma energia solar com que me bafejou, não tem qualquer afinidade com o pai das barbas que há dois dias vi no ecrã. O meu pai já era histérico. Mas era uma histeria que fazia acontecer. Hoje é uma histeria triste de quem envelhece e suplica que o oiçam.
    Enquanto o meu pai lutava no mato, a minha mãe poupava dinheiro. Mudou-se connosco para casa da mãe dela. Trabalhou de sol a sol.
    Isto que é o meu substrato, e que é a história do país nos últimos cinquenta anos, parecerá inverosímil a uma criança, mesmo a uma jovem como a Ana Ester, como a mim também parece inverosímil. Um dia, daqui a muitos anos, o seu imaginário terá uma fratura visível, um lugar onde o deslocamento da terra é visível. Esse lugar não é a guerra colonial, mas o agora."

    in "O Quarto do Bebé", Anabela Mota Ribeiro, Quetzal, 1.ª edição Maio 2023 , pág. 75


    AM

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  6. Agora que o Outono chegou, um poema de Ricardo Reis

    Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

    Quando, Lídia, vier o nosso Outono, Odes de Ricardo Reis, Introdução, organização e bibliografia de António Quadros, Publicações Europa-América, Ldª, Mem Martins, s/d, p. 133

    Quando, Lídia, vier o nosso Outono
    Com o Inverno que há nele, reservemos
    Um pensamento, não para a futura
    Primavera, que é de outrem,
    Nem para o Estio, de quem somos mortos,
    Senão para o que fica do que passa —
    O amarelo actual que as folhas vivem
    E as torna diferentes.

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  7. Pôs-se de pé com gestos inseguros e olhou em volta. Passou por eles a cambalear e apalpou caminho entre os cavalos. Flanco e jarrete, o joelho de Rawlyns. Pensei que vocês se tinham ido embora e me tinham deixado aqui, disse.
    Da próxima vez deixamos-te mesmo, trinca-espinhas.
    John Grady estendeu o braço e pegou nas rédeas e segurou o cavalo enquanto Blevins subia para a sela com gestos desajeitados. Passa-me pra cá essas rédeas, disse Blevins. Eu cá sou um raispartam dum vaqueiro, é o que sou.

    BELOS CAVALOS - Cormac McCarthy
    Tradução de Paulo Faria

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  8. «Zinho detestava as irmãs. Odiava-as em segredo. Faltava-lhe ânimo para as odiar em público. (...) As duas nutriam em relação ao irmão uma solene indiferença de rainhas. Tratavam-no como a uma empregada velha, não muito estimada, diante da qual se sentissem à vontade para trocar de roupa, mas a quem nunca se lembrariam de pedir uma opinião.»
    (excerto tirado do conto "Enquanto o fogo avança")

    A educação sentimental dos pássaros, José Eduardo Agualusa, Dom Quixote.

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  9. Sonho Dentro de Um Sonho

    Sonho que estou a sonhar
    Num sonho dentro de um sonho
    Onde nada é o que parece
    E tudo é possível

    Sonho que estou a voar
    Num sonho dentro de um sonho
    Onde plano acima das nuvens
    E toco o sol

    Sonho que estou a cair
    Num sonho dentro de um sonho
    Onde mergulho no abismo
    E encaro a escuridão

    Sonho que estou a acordar
    De um sonho dentro de um sonho
    Onde abro os meus olhos
    E vejo o teu rosto

    A Lua e o Lótus: Poemas de Rumiya Akhter. Lisboa: Edições Namban, 2023. (Poemas traduzidos por Eufémia Akiko, a partir da versão inglesa de Nakamura Kenji.)

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