A fama e o proveito

Hugo Gonçalves, de quem publiquei há uns meses o romance Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, vive há dois anos no Brasil, onde é editor, e escreve regularmente para diversas publicações portuguesas desse ponto de vista privilegiado sobre as relações entre portugueses e brasileiros. Recentemente, o Diário de Notícias publicou um excelente artigo da sua autoria sobre a diferença entre o prestígio que tem no Brasil alguma literatura portuguesa e os efeitos práticos pouco significativos desse prestígio, ou seja, o relativo desconhecimento por parte da maioria da população (só uma elite conhece e lê autores portugueses) e as vendas francamente insignificantes. Diz Hugo Gonçalves que «a ideia de lusofonia inspira uma ilusão de proximidade entre países que nem sempre estão tão próximos quanto supomos. A ideia de um mercado lusófono de 250 milhões de pessoas, em quatro continentes, pode estimular a ambição expansionista de bancos, petrolíferas ou hipermercados, mas não inspira delírios de riqueza entre os portugueses cujo ofício é a língua». Uma autora como Dulce Maria Cardoso, por exemplo, que em Portugal vendeu cerca de 18 000 exemplares do romance O Retorno, no Brasil vendeu apenas 2000 (e o país é bem maior)… E o mesmo acontece com muitos outros autores que, apesar de receberem prémios no país irmão e de serem muito queridos lá, não conseguem melhor. É o que se chama ter a fama e não ter o proveito… Para os interessados, junto o link.




http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Artigo/CIECO287356.html?page=0



Comentários

  1. Pois, mas se seguirem a ligação indicada vão mais longe e acedam à outra que lá vem, dum tal Gurgel: http://rodrigogurgel.blogspot.com.br/2013/11/o-mercado-e-uma-questao-de-educacao-e.html
    É uma outra visão, do lado de lá do problema.

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    1. Quando se trata de educação e cultura, não há milagres, ainda que a esquerda tenha se especializado em produzir miragens, sua única vocação.
      Também julgo que em educação e cultura os milagres requerem tempo, bastante tempo; logo, deixam de ser milagres. São mudanças de mentalidade que geram novas atitudes. Modificações que demoram.
      Contudo, descreio, desacredito mesmo, que a única vocação da esquerda seja produzir miragens. Parece mais uma função das produtoras de filmes.

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    2. Excelente frase! Eu estou de acordo. Ainda há dias, um brasileiro comentou no meu blogue que a Presidente Dilma dá uma imagem falsa do seu país para o exterior. Cria a imagem de um país em franca progressão, tipo milagre económico, quando os salários e a assistência médica são uma miséria. Não estou a dizer que a direita é melhor, mas a esquerda, sob a capa da solidariedade e da intelectualidade, é elitista e cria muitas miragens. Para dar outro exemplo, olhemos para França...

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    3. Mas eu discordo da mesma frase. Não tomemos a parte pelo todo.

      Não acompanho de perto a política brasileira, mas não há milagres. Nem de esquerda, nem de direita. Os milagres, pelo menos no meu tempo, eram divinos. E a política é feita por homens. O Brasil parece-me muito grande, muito díspar na distribuição de riqueza económica ou intelectual. Mas não creio que seja a direita quem restabelece ou minora tais desigualdades. Julgo que será mais uma função da esquerda democrática. Contudo, aquele é um outro mundo; só indo lá, observando. O que assisti no Brasil não se enterra num ou dois governos democráticos. Mas já melhorou:)

      O problema de Hollande é que ele é um gato em vez de uma lebre. E os franceses não toleram o engano. O perigo dos franceses é suceder-lhes algo parecido com os portugueses; escolherem uma direita inconveniente porque a esquerda que escolheram não se representa a si mesma e muito menos aos eleitores.

      O maior perigo da direita é o seu apego ao poder. Não sei se lhe é afrodisíaco, mas é um indubitável chamado para a autoridade que desejam; uma espécie de vício. E todos os vícios geram dependências.

      Acredito na esquerda e na possibilidade de ir além do sonho. Como tendo a crer em todos os que tomem partido por quem precisa, tem menos, é mais explorado. Que ficou sempre na estação a ver passar os comboios. Acredito num projecto de esquerda que os tome para fazer deles pessoas mais cultas e mais capazes de autonomia e decisão, que vivam melhor e melhor trabalhem. Em suma, que sejam mais felizes.

      Afinal, o mundo é de todos, para todos.

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    4. Acho que a Beatriz disse tudo: E a política é feita por homens.

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  2. E a demonstração que só a educação contínua promove a leitura.

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  3. Num mundo em que está tudo dito de uma forma que extravasa muito as palavras (as imagens hoje substituem sem esforço o descritivo), só a criação de charadas (aquilo que alguns chamam de dramatização) será capaz, talvez, de dar oxigénio à forma escrita e literária. O excesso de intimismo, de pessoalismo, como forma mais individualista, são imagens com pouca nitidez, variedade, regularidades que os olhos captam, por excesso, cada vez menos. O leitor quer cada vez colocar-se ele próprio como o protagonista da sua leitura ficcionada.

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    1. uma forma que extravasa muito as palavras (as imagens hoje substituem sem esforço o descritivo)

      concordo mais com a parte da afirmação dentro do parentesis. As imagens não extravasam a linguagem. Concretizam-na num único sentido, determinam. E retiram a liberdade imaginativa. São em relação à leitura o que o fast food é para a alimentação normal

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    2. E, direi mesmo mais: Atéquenfim que alguém (escritor) me entende a mim (leitor).

      Tirando as autobiografias ou relatos, de um modo geral não me agradam lá muito os romances que se percebe logo serem um exorcismo dos fantasmas e frustrações do autor ou propaganda às suas idéias...

      Há excepções, claro, mas isso é o que diferencia um grande escritor universal e clássico.

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    3. Ólhó Pacheco - onde é k tens andado ó Pacheco?

      Esta é uma msg via tlm.

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    4. Ó Severino... com tanta modernice ainda te apanho a fumar! Ahahah!

      Estive nas "Terras do Fim do Mundo".
      Não me apetecia nada voltar...

      Um abraço!

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  4. Suponho que para a generalidade dos brasileiros o Português (Europeu) seja uma língua estrangeira, veículo de uma cultura com que dificilmente se identificarão. Se assim for, justificar-se-ia tradução.
    Depois, o analfabetismo e a iliteracia têm um peso terrível no Brasil.

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  5. a gente da cultura brasileira que conhece bem a nossa literatura, devia espalhar pelos brasis ", que os autores portugueses contam estórias bem mais interessantes que as anedotas da Maria e do Manuel.

    e mais ainda a gente da cultura portuguesa, que tem meios para fazer a sua divulgação.

    talvez eles até pensem que o Pessoa não é bem português, pela sua costela inglesa...

    e ao contrário de nós, penso que têm uma boa auto-estima gostam do que é brasileiro (e fazem bem).

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  6. Claudia da Silva Tomazi18 de novembro de 2013 às 03:41

    Vamos lá. Entre fama e proveito o que é inteligência efectiva?!

    A) Descrevem-nos

    B) Escrevem-nos

    C) Pertence a quê a escrita literatura, formação ou informação.

    É certo a distribuição do conhecimento fomenta "saber" donde: saber é poder.

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    1. claro, Claudia, saber é poder.

      (será que os brasileiros têm medo de ser de novo "colonizados", agora com a nossa literatura?)

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    2. Claudia da Silva Tomazi18 de novembro de 2013 às 06:46

      Creio que a Literatura nem poderia ser representada de modo ou maneira de colonialismo.

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  7. Vou-vos confessar uma coisa terrível:

    - Para o pessoal da direita, sou um esquerdista!
    - Para o pessoal da esquerda sou de direita!
    Isto é, levo porrada de todos...
    Mas estou-me nas tintas, há muito que não quero saber disso e julgo que na verdade nunca cheguei a dividir as pessoas em "esquerda-diteita".

    Para mim isso de reduzir a humanidade a ser-se da esquerda, da direita... ou do centro, é uma limitação que nunca aceitei!

    E hoje então o conceito esquerda-direita faz menos sentido do que nunca...

    Saudações kaluandas!

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    1. Exatamente: faz menos sentido do que nunca.

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    2. A humanidade não tem esquerda nem direita. Mas os governos e a política em geral, sim. Mesmo que o não saibamos identificar não deixa de ser alguma coisa.
      Mas nenhum escritor é bom ou mau pela filiação política ou falta dela. Podemos é admirar-lhe a coragem política ou cívica; ou o inverso, verificarmos-lhe a falta de integridade. Em qualquer dos casos, nele, é o legado escrito o que mais conta.

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  8. Ah! Dos meus eleitos, Torga era comunista, e Aquilino Carbonário.

    O que faz falta é reconhecer que os escritores não têm sucesso por ser contra ou a favor... eles estão acima disso!

    Quer lá saber da Dilma para alguma coisa, uma terrorista que foi ao cabeleireiro... do Brazil gosto de moqueca, Jorge Amado e bossa-nova, caipirinhas e mulatas... quero lá saber da Dilma para alguma coisa! tanto quanto os brazileiros se ralam com o Cavaco!

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    1. Pois é... Mas essa "terrorista que foi ao cabeleireiro" está à frente dos destinos de um dos países mais populosos do mundo.

      Os problemas näo desaparecem por os ignorarmos...

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    2. Ok! Sucedeu a um sindicalista que foi ao barbeiro!

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  9. Mas como é que será possível adquirir prestígio: creio que já haverá mais escritores que leitores.

    Faz-me lembrar o acordo ortográfico é tanta a confusão que, se não pensasse pela minha cabeça, já não saberia a quantas andava...

    E para o provar lá está o grande e odiado editor, Andrew Wilie (LER de Nov2013 ), quando dizia : A Amazon é um armazém de quinquilharia.

    Esta Amazon é aonde compram os "cagões ", aqueles que gostam de armar (e olhem que há por aqui muitos...), aqueles que depois choram quando fecham as Sás da Costa...

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    1. "creio que já haverá mais escritores que leitores."
      Não é possível, a não ser que os tais escritores nem a si mesmos se leiam.
      A democratização da produção escrita não me parece ser um mal. Mal seria reservá-la para um círculo em que se entra por nascimento, cunha, partido político, amiguismo. Mal está no conceito editorial predominante, que vê o livro como um mero bem de consumo, em tudo comparável a pensos higiénicos ou a lâminas de barbear, sujeito às mesmas regras de mercado.
      E entre nós o prestígio vem não raro a título póstumo: Bernardim Ribeiro, Camões, Fernando Pessoa...
      Nunca gostei da Sá da Costa. Quando lá entrava, enquanto estudante, sentia-me seguido, vigiado como se fosse um ladrão — nunca roubei livros, nem qualquer outra coisa — talvez devido ao meu aspecto. O mesmo, aliás, sucedia noutras livrarias de Lisboa (Buchhozs, por exemplo), que entretanto fecharam. Não sou, portanto, daqueles que choram o seu desaparecimento. O meu afecto sempre foi para as bibliotecas, a começar pela Itinerante Calouste Gulbenkian, a quem tanto devo.
      Não leve a mal as minhas discordâncias e, sobretudo, espero que não veja em mim um dos tais cagões.

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  10. Ainda não me dei ao trabalho e, mais propriamente, ao exercício de paciência, para saber os autores portugueses que a LeYa do Brasil editou, embora considere que está a fazerr um bom trabalho, designadamente a partir de 2010.
    Mas, por vezes, interrogo-me se a desculpa dos portes envolve o óbice da entrada da literatura de Portugal no Brasil, uma vez que, do Brasil, não faltam por aí livros e revistas, a maioria sem devolução.
    Um outro exercício de imaginação prende-se com o prémio LeYa - "O Rastro do Jaguar "- que saiu tal qual se grafa no outro lado do Atlântico, em vez de "rasto", que por aqui se utiliza.
    Imaginemos que era um português a escrever a obra e o livro fosse publicado no Brasil? Sairia com "Rasto do Jaguar" ou "Rastro do Jaguar"?
    Isto merece agora uma adenda, para que os puristas da língua portuguesa (comum) não me caiam em cima. Rastro e rasto estão correctos; mais, talvez até rastro esteja mais correcto (do latim "rastrum"). O que eu quis enunciar foi a intolerância que me parece existir entre os editores brasileiros quando recebem um texto de autor português, o que não parece ser obstáculo em caso contrário.
    Relativamente aos 2.000 exemplares vendidos do livro da Dulce Cardoso, acredito que tenham sido adquiridos pela comunidade portuguesa, aquela que, em qualquer lado do mundo, segue o "rasto" dos seus escritores conterrâneos.

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