Pensar antes de agir

Ao longo da minha vida profissional, pude acompanhar algumas polémicas entre intelectuais, fosse através de relatos em livros que li ou editei – de António José Saraiva, por exemplo, ou na reedição de Rumor Branco, de Almeida Faria –, fosse assistindo, mais ou menos em directo, à zanga entre figurões em cartas duras e azedas publicadas nos jornais. Algumas dessas polémicas eram, de resto, notáveis na sua qualidade literária e pensante e dignas de grandes cabeças, mesmo que nem sempre concordássemos com a matéria em discussão. Creio que um autor que é vítima de uma crítica desonesta ou falsa deve responder ao autor do texto. Uma vez, quando eu escrevia livros juvenis, saiu uma recensão a um livro meu na qual se dizia que as personagens eram demasiado bem-falantes para a idade em certas passagens, oferecendo um excerto como exemplo; só que, por acaso, nesse excerto as personagens estavam a ler, e não a falar… Escrevi uma carta ao jornal e a coisa esclareceu-se. Desde então nunca mais respondi a críticos, embora de vez em quando me apetecesse defender os meus autores de alguns textos não muito bem-intencionados sobre obras suas e, sobretudo, quando se percebe que o crítico não os leu, só folheou (como num caso em que o romance tinha três personagens e o recenseador mencionava apenas duas). Recentemente, pareceu-me, mesmo assim, um bocado insólito que um poeta se tenha insurgido contra um crítico que elogiava a sua obra num jornal. Estava furioso com o facto de metade do texto serem citações de poemas do livro e, em blogue pessoal, mandava o crítico meter as quatro estrelas que lhe atribuíra num certo sítio (acentuando, ainda por cima, o U). Com razão ou sem ela, os termos em que se queixou mancharam a excelência da sua poesia – e o crítico respondeu com luva branca e saiu a ganhar. Mais valia o poeta ter pensado antes de agir, digo eu. Nas velhas polémicas, mesmo com verrina e sangue, tenho ideia de que havia (mais) elegância.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de dezembro de 2013 às 02:24

    Hum... chegaram a haver duelos!
    E digo duelos mesmo, à pistola ou espada!
    No tempo do Eça, ainda se davam umas bengaladas... Eheheh! Como eu gosto do termo!

    Hoje em contrapartida ofende-se mais e de forma gratuita e por vezes excessiva. Talvez se algum ofendido "fosse à cara" ao ofensor, passasse a haver esse cuidado de ser mais literário nas declarações.
    Certa gente, porque ciente da sua impunidade e que ao adversário falta a coragem anímica para "lhe ir às ventas", revela uma coragem que está longe de possuir...

    Já li ou ouvi nos media, declarações, críticas, análises ou respostas, que não são actos de coragem e sim da deselegância arrogante de quem está convencido de uma superioridade intelectual...
    Coisa que uns sopapos atempada e oportunamente propiciados poderiam evitar!
    Para o bem de todos, acrescente-se.

    Saudações kaluandas!

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    1. Não vou muito fora da sua solução para quem comete tais "deselegâncias arrogantes". Ainda que prefira as luvas brancas. São mais higiénicas, elegantes e cansa-se a gente menos.

      Mas umas arrochadas com brio, são, por vezes, uma tentação:).

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  2. Tempos estranhos estes!

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    1. António Luiz Pacheco2 de dezembro de 2013 às 02:33

      Pode crer!
      Umas bengaladasitas, às vezes, seriam aplaudidas!

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  3. Quem julga
    Que as palavras
    Não têm o desenho
    Da beleza,
    Engana-se.
    Como se engana
    Quem pensa que
    O desenho
    Não tem o registo
    Da palavra.
    Elas são nobres
    Companheiras
    Para a vida
    Num encontro
    Que não se julgue
    Fortuito.
    Porque foram paridas
    Como irmãs
    De armas,
    E irmãs,
    De artes,
    Que é o refúgio
    Onde as podemos encontrar,
    De mãos dadas
    A coscuvilhar
    O mundo,
    Ou em cascatas,
    Que não são meros degraus
    Ou meras imagens,
    Mas montanhas desenhadas
    A cuspirem graciosas,
    para o mundo
    Que as espera...
    Bom uso
    Às doces palavras...
    PAS

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  4. E o JMS deu-lhe quatro estrelas, nem imagino o que o Luís Quintais o teria mandado fazer se tivesse levado apenas uma!
    Isto não é nada poético, convenhamos!!!

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  5. Claudia da Silva Tomazi3 de dezembro de 2013 às 10:22

    É facto!

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