O escritor debaixo de olho

Com tudo o que se está a passar actualmente em Portugal – escutas telefónicas, apelo à queixinha, dispensa de jornalistas que falam do que as administrações não querem (normalmente por causa de assuntos que nada têm que ver com a qualidade da informação) – há já quem refira um regresso velado à censura e comece a ter cuidado com o que diz e a quem o diz. É também natural que alguns escritores, enquanto vão compondo a sua obra, sintam espreitar atrás deles o leitor, e isso influencie o que escrevem, embora outros garantam que não. Em todo o caso, esse leitor não é exactamente um espião e nada pode contra o texto. Há, porém, outro tipo de espionagem menos simpática – e um estudo realizado pelo PEN nos EUA revela que, por exemplo, cerca de 85 por cento dos escritores norte-americanos se sentem sob vigilância e acham que isso afecta a liberdade com que escrevem: evitam abordar determinados assuntos, fazer pesquisa na Net sobre outros e, pior do que isso, trocar ideias com colegas estrangeiros. Os que mais temem esta vigilância são os jornalistas e os autores de livros de não-ficção, que precisam de proteger as suas fontes, mas também já muitos romancistas se escusam a escrever sobre certos temas, como o terrorismo ou o fanatismo religioso, a criação do Estado palestino ou a bomba atómica e o Irão. O relatório apresenta números algo impressionantes, sobretudo que 28 por cento dos autores interrogados se recusam a participar em actividades mediáticas, 24 por cento não falam ao telefone sobre questões consideradas sensíveis e 16 por cento desistiram de escrever sobre um tópico específico. Bem, acho que aqui não chegámos a tanto, mas, como diz o povo, o futuro a Deus pertence.

Comentários

  1. há sempre condicionalismos.

    por vezes até psicológicos.

    a imprensa deverá estar a viver o seu pior momento desde o 25 de Abril de 1974.

    penso que essas pressões ainda não chegaram à literatura, embora o monopólio já lá tenha chegado. há dois grupos que dominam praticamente todo o mercado...

    em relação ao autor, se a escrita for encarada como evasão, não lhe dará qualquer prazer escrever sobre os dramas diários que nos entram pela casa através da televisão.

    até porque se tornou banal sermos governados por incompetentes e corruptos. gente sonsa e falsa, sem qualquer magia. e as personagens de ficção, devem sempre ter alguma coisa de "mágico", de diferente, que nos consiga colar às palavras impressas nos livros.

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  2. Mas não são estes períodos... extraordinários? Períodos que se opõem às águas mansas e podres, fazendo sobressair o melhor e o pior de nós!

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    1. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2013 às 04:27

      Sim... o Extraordinário Pedro Sande toca num ponto sensível, em que a criatividade pode ser estimulada por essas dificuldades... a despeito de ser por elas oprimida.

      Por outro lado, e a Idade do Ouro? Também produziu criadores e pensadores extraordinários...

      Hum... cá para mim, o Extraordinário Ser Humano, cria sempre!

      Sobre o regresso da censura, não tenho grandes dúvidas que se deixarem crescer e alimentarem a besta da intolerância, hoje patente em todos os sectores da sociedade e em crescimento, através de partidos, grupos de acção, movimentos de cariz sexista, homossexual, político, animalista, ecologista, futebolístico, religioso... até artístico, e vamos acabar mesmo por voltar a ter Inquisição, Censura e polícia do pensamento, dos credos e das idéias!

      Enquanto houver "não pensa como eu, logo não tem razão de existir!". "É diferente de mim, logo é mau!". "Não gosto, logo proíba-se!". "Não consigo perceber, então rejeito porque é mau!", não teremos hipótese de viver na diversidade!
      O pensamento único ainda vai ser uma realidade?

      Dêem-lhes a hipótese da indiferença ou de os tomar como excentricidade e verão onde acabamos...

      Saudações kaluandas!

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  3. Claudia da Silva Tomazi4 de dezembro de 2013 às 03:08

    Estudar !

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    1. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2013 às 04:29

      Praticar!

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    2. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2013 às 06:15

      Sonhar!

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    3. Faço minhas as vossas palavras – Estudar, inteirar-se, para Saber Praticar a Solidariedade como deve ser, isto é: Resistir Sonhando.

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    4. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2013 às 07:52

      E: escrever!

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    5. Sim, escrever.
      Mas também desenhar, pintar, cantar, dançar, fazer teatro, construir esculturas, filmes... Enfim: resistir à imobilidade, combater a resignação, concretizar os sonhos, comunicá-los, verificar que eles, por definição, ficam sempre incompletos, e que, portanto, é continuamente necessário sonhar, resistir, solidarizar, praticar, saber, estudar...

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  4. A liberdade individual depende da condição de espírito dos outros. Estado geral negativo, TUDO a piorar.

    Todavia, recordemos o ensinamento de um mestre (ensinamento que, da parte que me toca, vos deixarei livres para o seguirem ou não) :

    “É certamente admirável o homem que se opõe a todas as espécies de opressão, porque sente que só assim se conseguirá realizar a sua vida, só assim ela estará de acordo com o espírito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e borde a própria morte o pensamento de que os espíritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a razão e a justiça, com o bem; a existência passou a ser para ele o meio que um Deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde até aí apenas a treva se cerrara; é um esforço de indivíduo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmoreçam obstáculos ou o intimide a ameaça; afinal o poderíamos ver como a alma que busca, após uma luta de que a não interessam nem dificuldades nem extensão.”

    - Agostinho da Silva, “Considerações”

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