Ler em grupo
Dizem que a psicoterapia de grupo funciona muito bem porque os pacientes ficam aliviados ao perceberem que não são os únicos que enfrentam certo tipo de frustrações e problemas e isso acaba por levá-los a relativizá-los. Acredito, por isso, que as comunidades de leitores possam ter igual sucesso pela partilha e pelas afinidades entre leitores, além de que um orientador ajuda muito a esclarecer algumas questões que, por vezes, se nos colocam durante a leitura de um livro. Se lhe apetece «ler em grupo», estão abertas as inscrições para uma nova comunidade de leitores dinamizada por Luís Ricardo Duarte, um jovem jornalista do Jornal de Letras que acho muito sóbrio, culto e inteligente (e, ainda por cima, com um sorriso bem simpático). As sessões realizar-se-ão em duas livrarias – a Buchholz e a Barata – entre os dias 2 de Outubro e 18 de Dezembro, às 18h30, e incluirão livros que procurarão acompanhar a actualidade literária nacional. O preço de 30 Euros para seis sessões pode parecer muito dinheiro, mas a verdade é que os inscritos receberão um vale de 15 Euros para gastar em livros e, desse modo, serão compensados em 50% do investimento (se gostarem do livro que adquirirem, digo eu). Mais informações no link abaixo.
http://leyaemgrupo.blogspot.pt/
Ora... e não é o que vimos fazendo afinal aqui?
ResponderEliminarNo fundo, digamos que é um clube de leitura.
E sim, acredito que possa ser uma boa idéia, e
funcionar bem, pois nós seres humanos temos a tendência para nos agruparmos e é gratificante sentirmos que fazemos parte de algo, que há quem pense ou sinta como nós em relação a um mesmo interesse, neste caso os livros e a leitura.
Reparem que digo "livros e leitura", pois para mim sendo embora inseparáveis são coisas diferentes e duas paixões complementares.
Entrando agora e a propósito numa postura confessional, como já me gabei aqui, dispensei do exame do 5º ano. Tive férias algo premiadas em termos de disponibilidade e de ficar mais tempo em Oeiras onde vivíamos durante o ano escolar. Meus pais entenderam que seria benéfico tirar-nos do Graínho no período da adolescência que tão importante é na formação e alargar dos horizontes.
Mais tarde fiz-me camponês, e, foi uma escolha consciente porque experimentei outras realidades. Já as minhas irmãs, fizeram-se urbanas a 100%.
Bom, nessas férias de 1971 ou 72, além de descobrir os namoros descobri outras coisas pois fui convidado a fazer parte de um clube de jovens, malta do liceu, que curiosamente era uma iniciativa de um grupo de "marrões". Afinal eu tinha dispensado, o que me elevava em termos intelectuais. Faziam parte entre outros, o Saraiva (filho do prof. José Hermano Saraiva), o João Freitas (filho do dr. Pedro de Freitas Branco), o Miller (filho do então Procurador Geral da República). Jogava-se futebol, trocavam-se e analisavam-se livros ou discos. Para mim foi uma novidade, pois não era marrão... mas foi importante porque me socializei com malta "diferente". Não que estranhasse, pois na minha família havia gente ligada ás artes: minha mãe era violinista, a minha avó pintava e desenhava, meu avô Abreu tendo como amigos e visitas pessoas como o Mestre António Saúde, Maestros Bello Marques e Luiz Silveira cujos filhos eram músicos e pintavam, os Anjos Teixeira pai e filho, aliás o Pedro Agusto (o filho) começou a namorar e casando depois com a Maria Georgina Silveira lá na quinta, os Menano... Afonso Lopes Vieira... eu estava habituado desde muito pequeno a pessoas do Mundo das artes e do intelecto
Redescobri nesse clube o prazer de discutir leitura, recordando como primeiro livro um que foi novidade na época, e, me ficou gravado como especial por vários motivos mas por ser o primeiro alvo de uma análise feita com malta da minha idade: "Amar não é pecado", de Grace Metalious.
Eu falava muito de livros com a minha mãe que era uma boa leitora, e com muitas das pessoas que frequentavam a nossa casa, mas era diferente fazê-lo com os meus colegas do liceu! Foi nesse Verão que descobri também Erich Maria Remarque, Sartre, Jorge Amado e mais uns quantos que não me recordo agora... graças a esse clube de jovens.
Nesse Verão tínhamos refugiado lá em casa, o Miné, hoje antiquário em Lisboa, cujo pai fora colega do meu e morto em Moçambique, um ano mais novo mas excelente na bola, mais o meu primo Janeca (falecido num desastre de carro que tivémos em 1996) que teria chumbado pela 2ª ou 3ª vez, compúnhamos uma espécie de bando desocupado, passando tardes inteiras depois da praia sem fazermos nada a não ser enfiar-nos no tanque do quintal do Almirante Pires da Cunha, de cujos filhos era e ainda sou amigo (hoje o Fernando é por sua vez almirante e comandante naval dos Açores). Pois então nos dedicámos a escrever peças! Imagine-se... os Pires da Cunha, a São, o Nando e o Ru, tinham um enorme gravador de bobines, e, nós (bom... eu...) escrevíamos guiões para peças radiofónicas que depois interpretávamos ao estilo de radionovela, fazendo as diferentes vozes, que eram passadas para gáudio do resto da malta!
Perdoem-me este reviver daquele que foi talvez um dos melhores Verões da minha vida, e que marcou uma espécie de passagem... fosse pelo meu primeiro namoro fosse por estas outras coisas de que só tantos anos depois me dei conta, e que
agora a N
Recordatório interessante !
EliminarDe quem vem, perdoa-se o "name dropping"...
Abraço,
Artur Águas
Extraordinário Artur... preferia que me perdoasse a pontuação do texto! Eheheh!
EliminarFui reler e está péssima! As minhas desculpas a todos, mas por vezes edita-se sem ler aquilo que se vai escrevendo.
Mas agora a sério, os nomes que citei não foi senão para fundamentar e situar a minha narrativa, digamos que foi ainda recordar, e não foi de modo algum "pour épater les bourgeois". Continuo a ser uma mera traça e como podem perceber desde a mais tenra infância, atraída pela luz, mas não deslumbrada.
Um Extraordinário Abraço para si Artur, grato por me aturar e levar a sério!!!!
Caro António Luíz,
EliminarLi deliciado o seu texto !
As nossas gerações não devem ser muito diferentes: infelizmente, devemos estar mais perto do fim do que do princípio.
Além do mais são estas confissões autobiográficas, aqui e acolá, uma das razões porque este blog tem tão boa frequência e um tom tão doce, ameno, diria mesmo, um tom quase familiar.
Escreva sempre ! E por favor não se preocupe com os eventuais erros datilográficos (é que também nenhum de nós tem tempo para andar a rever textos que assumimos serem mais oralizações do que feitos de palavras definitivas).
Quem aqui vem, seguramente gosta de o ler.
Abraço,
Artur Águas
Deu-me tanto prazer ler o seu texto Luís Pacheco! Ainda bem que estas memórias perduram em si.
EliminarSaudações
Excelente iniciativa e excelente horário !
ResponderEliminarNão encontrará a Leya um(a) jornalista que se disponha na área do Porto a uma iniciativa semelhante ?
A hora (18.30) poderá ser mesmo uma mais valia desta iniciativa concreta. Isto desde que os participante se comprometam a encontrar-se por não mais do que 60 minutos de cada vez.
Aqui nesta cidade do Porto já se organizaram clubes de leituras liderados pelo Mário Cláudio e pelo Richard Zimler, mas sendo marcados para depois do jantar em noites de semana não me foram nada convenientes (e penso que não só para mim).
A opção das 18.30 (melhor ainda: 19) seria bem mais fácil de conciliar para quem trabalha.
Entretanto, terei todo o prazer em continuar a participar neste que é o melhor "Clube de Leitura Online" de Portugal !