A fome e a vontade de comer

Aprendi em variadíssimos livros que fui lendo ao longo da vida – entre outros, para não ser exaustiva, A Música da Fome, de Le Clézio, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, ou o que ando agora a ler e de que amanhã falarei – que situações de fome ou extrema carência tornam as pessoas agressivas, insensíveis, capazes de actos de maldade que não cometeriam se se encontrassem confortáveis e bem alimentadas. (No livro de Herta Müller que citei, a forma como os «normais» roubam descaradamente o pão de uma deficiente no campo de trabalho onde estão internados é um bom exemplo deste horror.) E falo do assunto porque tenho observado recentemente um crescendo de ódio, insultos, ataques e garras afiadas nos jornais e nas redes sociais, sendo normalmente as vítimas dessa agressividade os que têm conseguido sobressair da massa anónima e, em suma, obter algum sucesso. Já me disseram muitas vezes que a inveja é uma característica dos Portugueses, mas pergunto-me se não será também a extrema carência em que vivem hoje tantos nossos compatriotas, com trabalho precário ou sem ele, com uma ausência completa de estímulos e de dinheiro, que os leva a fazer publicamente afirmações tão incrivelmente despudoradas como uma que li no Facebook há tempos, em que um crítico que dizia bem de certo livro era acusado de estar a tentar ter sexo com o autor da obra. Um amigo com quem comentei a situação disse-me que há por aí muita gente que deixou de poder pagar as sessões de psicoterapia – e que a automedicação nunca dá grandes resultados. Gostaria de acreditar que, se quem manda neste país tratasse melhor as suas pessoas, não haveria tanta maldade disseminada por aí. Mas também já estive mais longe de perder a fé nas pessoas que juntam à fome a vontade de comer.

Comentários

  1. Sobre a fome, o mal absoluto, a desumanização extrema, a culpa, há um livro que não mais esquecerei. Não é obra de um escritor, antes um testemunho recolhido por uma jornalista (Beatrice Prasquier) de um "sonderkommando", ou seja de um daqueles judeus que era escolhido pelos nazis para conduzir e limpar os restos dos seus semelhantes assassinados nas câmaras de gás.
    Trata-se de "Sonderkomamando" de Shlomo Venezia, um descendente de judeus portugueses que fugiram no século XVI para Salónica. Está publicado pela "Esfera de Livros".
    Absolutamente incrível ao que nós humanos podemos chegar e aceitar em situação limite. Com detalhes muito mais concretos e arrepiantes do que no também inesquecível livro do Primo Levi. É um relato menos meditado, mas tão vívido que se torna frequentemente de insuportável leitura. Fui obrigado a parar a sua leitura várias vezes.
    Em momentos difíceis tem-me servido para me interrogar: o que é este meu problema de hoje comparado com a vida diária do Shlomo em Auschwitz-Birkeneu?

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  2. Em relação às caixas de comentários em jornais, elas assemelham-se muitas das vezes a um esgoto a céu aberto que apeteceria tapar se não se escondesse assim uma realidade que não devamos talvez ignorar. No entanto, o meu otimismo leva-me a acreditar que muita daquela gente dissipa ali, sob a capa de anonimato, muita da agressividade ou do fascismo que haverá dissimulado em cada um (de nós). Será assim uma forma de autoterapia, e como resultado global haverá mais violência visível em palavras mas talvez menos violência física. Até ver.

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  3. Claudia da Silva Tomazi31 de outubro de 2013 às 04:59

    Por quê: fome e vontade de comer estão(á) a mesmo patamar?!

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  4. De facto estas crises que se abatem no seio de muitas famílias pode provocar determinado tipo de comportamento. A fome não é uma coisa com a qual se lide de ânimo leve ou um problema que se resolve depois, tem a ver com uma necessidade imediata, urgente, essa pressa de se afastar o suficiente da morte e isso, inevitavelmente, pode revelar, muitas vezes, a revolta da incapacidade, a raiva e outros tantos sentimentos que se resguardam se tudo vai bem. A forma gratuita que muitos ofendem e agridem o outro pode muito bem estar relacionada com essa vertente de miséria humana que vimos a crescer de dia para dia, mas não só. Com as crises cresce sempre o degredo humano, liberta-se o instinto de sobrevivência e na consequência o de ataque: puros predadores em fúria. Isto de sermos gente tem muito que se lhe diga.
    Abraço.

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  5. De facto estas crises que se abatem no seio de muitas famílias pode provocar determinado tipo de comportamento. A fome não é uma coisa com a qual se lide de ânimo leve ou um problema que se resolve depois, tem a ver com uma necessidade imediata, urgente, essa pressa de se afastar o suficiente da morte e isso, inevitavelmente, pode revelar, muitas vezes, a revolta da incapacidade, a raiva e outros tantos sentimentos que se resguardam se tudo vai bem. A forma gratuita que muitos ofendem e agridem o outro pode muito bem estar relacionada com essa vertente de miséria humana que vimos a crescer de dia para dia, mas não só. Com as crises cresce sempre o degredo humano, liberta-se o instinto de sobrevivência e na consequência o de ataque: puros predadores em fúria. Isto de sermos gente tem muito que se lhe diga.
    Abraço.

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  6. De facto estas crises que se abatem no seio de muitas famílias pode provocar determinado tipo de comportamento. A fome não é uma coisa com a qual se lide de ânimo leve ou um problema que se resolve depois, tem a ver com uma necessidade imediata, urgente, essa pressa de se afastar o suficiente da morte e isso, inevitavelmente, pode revelar, muitas vezes, a revolta da incapacidade, a raiva e outros tantos sentimentos que se resguardam se tudo vai bem. A forma gratuita que muitos ofendem e agridem o outro pode muito bem estar relacionada com essa vertente de miséria humana que vimos a crescer de dia para dia, mas não só. Com as crises cresce sempre o degredo humano, liberta-se o instinto de sobrevivência e na consequência o de ataque: puros predadores em fúria. Isto de sermos gente tem muito que se lhe diga.
    Abraço.

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  7. Opah, vocês desculpem este meu comentário a triplicar, a sério que não foi propositado, mas escrever do telemóvel é o que dá... Está/Não está. Nunca sei e depois sai assim à pazada...

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  8. São realmente incompreensíveis o ódio injustificado e o ataque gratuito. Se numa situação extrema, como a da fome, estes comportamentos poderão ainda estribar-se numa certa animalização do ser humano...noutras circustâncias são puramente indesculpáveis. Busquemos o nosso caminho pelo mérito e não pela tentativa da descredibilização alheia.

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    1. Claudia da Silva Tomazi31 de outubro de 2013 às 08:24

      Animalização e ser humano significa o mesmo Sandra Neves?!

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    2. Claro que não, Cláudia. Quis eu dizer que, em certas situações limite, o ser humano pode reverter para o estádio anterior, animal...

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  9. como diz uma criança que conheço, fé é acreditar em coisas que não existem.

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  10. Mas pode falar-se de fome relativamente a alguém que deixou de poder pagar as sessões de psicoterapia???

    A fome, a verdadeira fome, está em Charles Dickens, em Raúl Brandão, em João Grave, em Fialho de Almeida, em Victor Hugo....

    Desculpem-me a ousadia mas esta "fome" de ervanária (do séc.XXI) não tem nada a ver com a vontade de comer.

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    1. Sim, convém manter algum relativismo. Fome não será isto que atravessamos e se houver será residual e potenciada por situações específicas, drogas, etc. Haverá fome, sim, de expectativas, de rumo.

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  11. Penso ao contrário que é uma certa falta de outra "fome" que dá azo a maledicências e raivinhas pequenas que no entanto fazem muito dano. Moem. Se as mentes continuam minúsculas e são ensinadas - tanta vez também pelos media - a só adivinhar nos outros a perfídia, a olhá-los de certa forma como inimigos, o que esperamos? Pode que haja fundos melhores e piores de si mesmos, a hereditariedade tem muita força. Mas mais me parece que este tipo de mentalidade se vai ganhando por contacto, experiência. Deseducação.

    Porém, é certo que em tempos difíceis nos mostramos mais como somos. Sem nada a perder, o lado lunar irrompe. "Se isto é um homem" é um livro de excepção na qualidade e nas situações limite que retrata. Não é similar a nós. Talvez se aproxime na desesperança que provoca. Mas não é tão funda, felizmente.

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  12. Também me apavora. Uma coisa é não gostarmos de um autor e justificar isso na nossa perspectiva, outra é arrasá-lo, considerando com desprezo os que gostam. Curiosamente os próprios blogues não têm escapado a esta agressividade que por aí reina, como se não dizer mal equivalesse ser palerma.
    ~CC~

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  13. Quando se deixa de poder pagar as sessões de psicoterapia, a 80 euros por 50 minutos, realmente, é o fim. Só restam mesmo os Prozacs . Que desgraça! Este país não tem remédio. Raios!

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  14. Interessante, este "post" (não há já palavra portuguesa para isto? talvez "entrada", ou "mensagem"?). E também interessante alguns dos comentários ao mesmo. Já agora, "meta-posts", talvez? :).

    Sobre a natureza humana em crise. Sou dos que vão mais pela expressão da também natureza humana,em vez da animalização. Ser humano (ou animal, tanto me faz, por isso fazer parte de todos nós), ser humano dizia eu, na sua forma mais completa e interessante implica o exercício da flexibilidade. Podemos ser delicodoces ou abrutalhados, podemos ser lógicos ou psico-lógicos, podemos ser simpáticos ou antipáticos, em função das circunstâncias. O que me pareceria pouco adaptativo seria que em tempos de crise (ou de fome, como queiram) nos conservássemos amigos de todos os amigos (sendo que alguns serão menos do que outros). Se faltar o pão a um dos meus filhos, espero ser suficientemente adaptativo para pensar em roubar (ou mesmo fazê-lo) a quem o tiver (e espero poder escolher quem o tiver a mais...). Não será o vosso caso, meus amigos?

    Da mesma forma, se me agredirem, não vou com certeza ser assertivo e dizer-vos qualquer coisa como "eu não gosto que me batam"... convenhamos que há alturas para tudo.

    Sobre o pagamento da psicoterapia ou ausência da mesma. Parece-me muito redutor pensar (ou deixar-se convencer) que deixar de fazer psicoterapia significa "libertar o animal". [Importa aqui expressar o meu conflito de interesses (sou psicólogo clínico)].

    Quem faz psicoterapia digna sabe que o processo envolve, quando bem feito, mudança de significados, ou seja, da forma como entendemos a vida, as nossas relações, o nosso passado, etc. Ora, os significados adquiridos não mudam porque interrompemos as consultas. O que realmente muda, meus caros, é o mundo e os desafios lançados pelo mesmo.

    Procurando agora juntar as peças: será que quem comenta de forma desmesurada não o faz porque sente que a crise dificulta de facto a emergência de novos talentos, nomeadamente na escrita, por promover ainda mais conluios e protecção entre amigos? (reparem que estou a evitar palavras como 'corrupção' ou 'esquemas paralelos'...). Mais uma vez, em tempo de recursos escassos, faz-me sentido que as relações entre quem tem poder (para lançar talentos ou para criticar) e quem quer poder se tornem ainda mais intrincadas e promíscuas. Do que em situações de abundância, pelo menos...

    Por fim, deixem-me confessar-vos o meu lado menos politicamente correcto (espero que não tanto assim animal...): ao ler muitos dos comentários neste blog (e recordo-me de uma controvérsia recente a propósito de comentários menos positivos sobre a qualidade de escrita da autora do blog), fico com a ideia de que não se pode criticar pela negativa; apenas pela positiva. Acredito mesmo no poder da crítica como forma de melhoria, no pressuposto da capacidade de resiliência do visado. Sermos sempre 'bonzinhos' e "floristas" faz sentido em regimes em que a crítica negativa é abafada. Sejamos, também aqui, flexíveis. Haja espaço como comentários menos simpáticos, com ou sem psicoterapia à mistura.

    Osvaldo Santos.

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