Mudança de agulha
Este foi um ano diferente para a literatura. Quando o Man Booker International Prize, atribuído a escritores de língua inglesa de dois em dois anos, foi entregue à norte-americana Lydia Davis, isso foi o sinal de que alguma coisa tinha mudado. Lydia Davis, de quem ouvi falar pela primeira vez no fim do século passado pela boca de um jovem autor que então publicava e que fizera uma residência literária em Nova Iorque, na qual tomara contacto com a obra desta autora, escreve contos: contos que estão agora coligidos num grosso volume traduzido em português pela Relógio d’Água e que, frequentemente, não ultrapassam as duas páginas, podendo, aliás, ter apenas meia dúzia de linhas. Uma decisão assim corajosa abriu naturalmente caminho à suspeita de que o Nobel deste ano pudesse contemplar um ou uma contista; e, nas apostas feitas no Facebook em vários murais, o jornalista do Expresso José Mário Silva pôs todas as suas fichas no nome de Alice Munro e ganhou a jogada: a canadiana arrecadaria efectivamente, já depois dos 80 anos, o maior e mais prestigiado galardão literário de todos os tempos. Assim, com tão boas notícias para a história curta (estou, obviamente, a traduzir apressadamente short story), vamos lá ver se também aqui em Portugal começamos a abrir as portas aos livros de contos, que têm sido tratados ao longo do tempo, ou pelo menos desde Borges e Carver, como coisa de menor importância.
Eu não podia estar mais feliz!
ResponderEliminarDesde sempre gostei de alternar romances com contos.
Desde a Daphne du Maurier à Virginia Woolf, da Alice Munro à Patricia Highsmith (estas duas descobertas recentemente), do Borges, Wilde, Rulfo ou Lispector, passando por Roald Dahl com os Tales of the Unexpected (que deu uma série fabulosa que passava na 2 era eu jovem), e tantos outros...
Por mim, venham maus contos!
:-) Antonieta
MAIS, não maus.
EliminarAntonieta,
EliminarJá viu a diferença que pode fazer uma letra trocada? :) Neste caso, fez-me sorrir.
Um beijinho para si,
Rui Miguel Almeida
Olá Rui,
EliminarEu também me ri, tanto que emendei logo a seguir.
Nem me vou desculpar (ou vou?) mas é que escrevo num tablet de 7" e já estou um bocado «pitosgas».
Beijinho,
Antonieta
Quando anunciaram o nome que este ano venceria o Nobel, por acaso, escrevi no meu blog um post onde referia precisamente isso: volta a vontade e curiosidade dos contos e, falando de forma mais \"objectiva\" não esquecendo de que tudo é também negócio, se há procura tem de haver oferta... não é assim que se fala no mercado? Pois bem, pode ser que este novo entusiasmo suscite às editoras a vontade de apostar de novo neste gênero de literatura. Assim se espera...
ResponderEliminarAbraço.
Interessante o que diz sobre o conto e a sua valorização. Será uma tendência atual; o novo Programa de Português também valoriza este género, ao colocar o seu estudo no 12º ano (Mário de Sá-Carneiro ou Maria Judite de Carvalho).
ResponderEliminarCara Maria do Rosário e restantes extraordinários,
ResponderEliminarNa minha modesta opinião de quem não percebe nada da poda, mas adora ler, temos em Portugal uma maravilhosa contista, ainda muito jovem: Marlene Ferraz.
Um livro que reunisse todos os seus contos até à data seria uma pequena maravilha.
Cumprimentos a todos,
Rui Miguel Almeida
Não conhecia a Lydia Davies (obrigado Rosário!). Fui à net e encontrei vários pequenos contos dela de acesso aberto pela sua editora. Traduzi um deles. Aqui vai: COMPORTAMENTO ESTRANHO: Vê-se que as circunstâncias é que têm culpa. Eu não me sinto verdadeiramente uma pessoa estranha se enfiar cada vez maior número de kleenexes rasgados nos meus ouvidos e amarrar um cachecol à volta da minha cabeça: quando vivia só tinha todo o silêncio de que necessitava.”
ResponderEliminarNão é espetacular !!?
Acabaram-se as desculpas para aqueles de nós que dizem que não escrevem porque não têm tempo.
O que nos falta não é tempo, é talento.
temos outra autora de contos muito acima da média, que é a teresa veiga. se nunca leram nada dela tentem, vale a pena.
ResponderEliminare o valério romão tem um conto notável no nº1 da granta.
O meu estilo favorito. Tanto com tão pouco (palavras)!
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