Ler em Cracóvia
A Unesco nomeou a belíssima Cracóvia «Cidade Literária», depois de o ter feito com Norwich e Edimburgo; e, junto à imponente praça do Mercado, foram colocadas as letras da expressão Cracóvia, Cidade da Literatura (em polaco, claro) para que os passantes pudessem divertir-se a com elas construir muitas outras palavras (e parece que algumas foram imediatamente desfeitas por não serem propriamente bonitas). Embora não associemos logo Cracóvia aos livros, a verdade é que ali decorrem anualmente dois festivais literários internacionais (o Festival Milosz e o Festival Conrad), uma feira do livro de grande dimensão e mais uma série de acontecimentos envolvendo escritores de todo o mundo, como Orhan Pamuk, Zadie Smith ou o poeta sírio Adonis, que foram visitas recentes. É também nesta cidade, e não na capital, que fica o Instituto do Livro da Polónia e dezenas de outros locais – igrejas, sinagogas, teatros, museus e cafés – que, durante todo o ano, albergam tertúlias, encontros de poetas, leituras e performances relacionadas com a literatura. Viveram ali os dois prémios Nobel que a Polónia recebeu, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tendo esta última residido na que é hoje a Casa do Escritor, que foi inicialmente um refúgio para autores desalojados na sequência da destruição de Varsóvia pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Se Cracóvia já devia ser visitada antes, agora ainda apetece mais lá ir. E quem sabe um dia a Unesco não se lembra também de premiar uma cidade portuguesa com esta distinção.
Da Szimborska ainda conheço alguns poemas, agora o Milosz é-me completamente desconhecido.
ResponderEliminarSeria bom ir a Cracóvia conhecê-los melhor... talvez numa outra vida.
É que nesta, nem consigo verba para «ir à terra», ou seja, a Lisboa!
Vou ficando aqui no Portugal Profundo (como dizia o outro)
a ler desalmadamente e talvez a comer bolo-rei (eheh).
:-)
Antonieta
Mas que bocadinho bonito "Cidade de Literatura" em polaco!
ResponderEliminarBem vos contudo saibam que o Brasil tem está tradição de nomes Apolonio, Apolinário e Poliana entre outros.
Bem vos contudo saibam que o Brasil tem esta tradição de conversa de ervanária...entre outras
EliminarA Rosário apenas refere dois dos quatro prémios Nobel. Há também aqueles recebidos por Henryk Sienkiewicz, em 1905, Władysław Reymont, em 1924. Talvez que estes dois não tenham vivido em Cracóvia (não sei), mas falando-se de dois prémios apenas fica-se com a ideia que os polacos só obtiveram dois galardões para outros tantos escritores.
ResponderEliminarA propósito, tenho uma admiração ímpar por Henrik Sienkiewicz. Enquanto estudante do liceu, chorei na leitura de um dos seus livros.
Já agora, aproveito a adenda para referir que foi a leitura do Quo Vadis, das edições Romano Torres, que me emocionou.
EliminarSei que o livro era para ter outro final - andava a ser publicado em folhetins num jornal - mas os leitores, temendo que o final do folhetim fosse ainda mais trágico, reagiram e o autor alterou o desfecho.
Interessante vosso antigo modo sensível a bem dizer vos presente quiçá futuro.
EliminarSim, Cláudia, concordo. A sensibilidade desses verdes anos, que em parte fui perdendo, acho que a vou reconquistando à medida que o tempo passa.
EliminarOs livros ajudam-nos muito - embora haja quem diga que não - na conquista das boas sensações e, no âmago do sensível, a despertar o nosso karma.
Acredto que o ambiente vivido em Cracóvia, neste particular, faria bem a qualquer de nós. No entanto, por razões profissionais, acredito que só a nossa anfitriã Rosário, poderá usufruir ( e bem merece) dessa plenitude, para nos deixar aqui o seu registo sempre apetecível.
Eu também li esse, Fernando.
EliminarE vi o filme há muitas luas atrás.
Penso que foi nesse filme que o Nuno Salvação Barreto fez as pegas ao touro para salvar a bela Lígia, não foi?
Boas leituras e, já agora, boas vendas!!!
:-)
Antonieta
Exacto, Antonieta. Verifico, com agrado, que a Extraordinária companheira de comentários, para além de uma grande leitora, também é cinéfila.
EliminarDeborah Kerr (no papel de Lygia) é salva por Ursos ( Buddy Baer, que devia enfrentar e matar o touro), papel efectivamente desempenhado pelo nosso forcado.
Esta cena, que o ilustrador da Romano Torres levou à capa, só foi possível, como disse no meu comentário, porque o autor se viu compelido a alterar o seu propósito de deixar perecer Lygia na arena.
Os folhetins, na época, impressos em jornais, tinham, como hoje as novelas, o condão de prender o público e, por consequência, permitir que esse mesmo público (leitor/telespectador), se manifestasse nos epílogos.
Regresso à minha resposta anterior porque deixei passar um agradecimento à Antonieta, no que toca ao desejo maniifestado quanto às boas vendas do meu livro.
EliminarHoje mesmo recebi a notícia, por via formal, sobre o desejo de este meu livro, precisamente no dia de lançamento, ser oferecido através da sua associação representativa e não oficial, junto com as prendas de Natal, aos funcionários dos impostos do distrito da Guarda, uma vez que a personagem principal (detective?), ter essa profissão.
;)
Hoje não me apetece ler em Cracóvia mas escrever em Lisboa que é um lugar de poetas, escritores e outros artistas.
ResponderEliminarNesta coisa de autores, escritores e egos há-os para todos os gostos. Os tímidos, os presumidos, os reflectidos, os que se elevam ao olimpo ; e aqueles que percebem que a única diferença os separando do comum dos mortais é serem tão mortais e comuns como o mais vulgar dos homens.
A diletância e o autoconvencimento é um aparvalhamento do ser e uma tentativa tão pueril como triste de querer possuir só para si um olimpo que afinal não é mais do que a extensão de uma terra habitual.
Escrever não é relevância, mas paixão, e uma paixão que deve fazer perceber que colocar-se num pedestal não faz de nós mais do que comuns jarras de qualidade tão comum como a louça de que nos servimos todos os dias ao jantar.
Vem isto a propósito de alguma coisa para além de uma pequena menção à cidade da literatura e ao desamigamento de quem se considera especial? Vêm. Vem isto a propósito de uma sociedade feudal, exclusiva, petulante, sem dimensão humana. Uma sociedade que por aí pulula sem gratidão nos lábios e com ilusão nos rostos. Uma espécie de sociedade de Corte que se alimenta em pequenos círculos, excluindo e incluindo pelo seguidismo, pelo interesse e pela urgência em ser diferente e querer ser único.
Hoje, de facto, tive a prova de não passarmos mais do que gente comum.
«Vem!»
EliminarBem visto, Extraordinário Pedro Sande!
EliminarSempre tenho ouvido referir Lisboa como sendo uma cidade que convida à escrita e à pintura, à fotografia... se bem que deduza não será a única!
Creio que a luz sobretudo, e as colinas, lhe darão essa mística, entre outros factores.
E de facto Lisboa foi e é cidade de criadores!
Afinal Lisboa não é uma porta para o Mundo?
Um abraço kaluanda
Hum... vão perdoar-me o devaneio, mas creio que posso contar com a Vossa complacência e quiçá, cumplicidade!
ResponderEliminarJá percorri um bom par de léguas por esse Mundo nos vários continentes. Senti nalguns lugares, que gostaria de escrever um livro, ali!
Nunca Vos sucedeu?
Se os meus amigos Blazej e Marek ouvissem dizer que não associamos logo Cracóvia aos livros diriam que a Biblioteca Jagiellonian tem quase cinco milhões de volumes, nasceu em 1364 e é uma Biblioteca Nacional, Universitária e Pública…
ResponderEliminarA Polónia tem uma boa rede de bibliotecas e ainda nós participávamos timidamente em encontros internacionais já eles davam cartas. As duas últimas décadas foram de aproximação destas estruturas com a população incluindo-as como factores determinantes na educação e no ensino. Foram os bibliotecários que lideraram a apresentação de propostas para a construção da sociedade digital polaca, adaptando antigas estruturas a exigentes e modernos utilizadores. Vários bibliotecários são líderes de opinião, sendo convidados pelas mais diversas instituições para dar palestras, na Europa, EUA, América do Sul, etc.
Cracóvia tem ainda Bibliotecas que atraem investigadores de todos os cantos do planeta, únicas no mundo face à documentação sobre o Holocausto.
Vai-se à biblioteca como quem vai ao supermercado e um dos voluntariados mais importantes é precisamente nas bibliotecas.
Conheço razoavelmente bem a cidade e, a par da música, pratica-se muito a leitura. Talvez a escolha da cidade como anfitriã do evento, não tenha sido por acaso.
ALP, sim, Cracóvia é um lugar excelente para se escrever!
Tenho que me esforçar e chegar mais cedo a este blogue, acertando o passo pelos seus Extraordinários frequentadores.
ResponderEliminarMolosz é polaco, mas nasceu lituano. Dele só li "A Tomada do Poder". Não tive vontade de mais porque o tomei como um Nobel da Guerra Fria.
Conrad é inglês, mas nasceu polaco. A sua "universidade literária" foi a vida dura que levou embarcado em navios de longo curso. Gostei de vários dos seus livros, o "Coração das Trevas" acima de todos. Mas não sei se não gostei ainda mais da "versão" cinematográfica de Copolla ("Apocalipse Now ") - magnífica.
Numa perspetiva , Penafiel ou Póvoa de Varzim mereciam ser sede de uma iniciativa deste tipo. Noutra perspetiva , mais de tipo patrimonial, assentava bem no Porto, em Coimbra ou em Évora.