O que ando a ler

Infelizmente, este último mês foi de muito trabalho burocrático, de planos e orçamentos, e não li tanta coisa como planeava, especialmente fora da editora, que é quando ler não é obrigação. Mas quero chamar a atenção para um romance de um ainda jovem autor, Bruno Vieira Amaral, que estou a terminar por estes dias. Chama-se As Primeiras Coisas e tem a particularidade de construir um universo bastante original, o Bairro Amélia, conglomerado de habitações precárias na margem sul onde vivem (não tão harmoniosamente como seria desejável) ciganos, retornados, traficantes de droga, abortadeiras, aspirantes a grandes craques de futebol, assassinos, velhinhas, testemunhas de Jeová e muita outra gente. O narrador (cujo nome sabemos a páginas tantas, quando uma personagem o interpela, ser Bruno, como o autor) regressa ao Bairro Amélia ao fim de uns quantos anos de afastamento, por causa do divórcio e da perda do emprego, e instala-se em casa da mãe. E, embora não pareça reconhecer nesses primeiros dias muito do seu passado, arranjará maneira de, com a ajuda de um dos seus contemporâneos que nunca dali saiu, recuperar um catálogo de figuras mortas e vivas que fizeram a história do Bairro Amélia ao longo de anos. Mas, se ao princípio tememos ter apenas uma lista de personagens pela frente – descritas cada uma por sua vez em ficha individual –, a verdade é que o autor sabe cruzar as suas vidas como ninguém, e às vezes apenas através de pormenores aparentemente insignificantes, oferecendo-nos uma panóplia inteligente de vítimas e bandidos, todos sem excepção amaldiçoados pelo «enguiço» de lhes ter calhado morar no Bairro Amélia. O narrador e a sua família não são, de resto, excepção – e muito haveria a dizer sobre esta matéria, mas é preciso ler o livro. De salientar, é também a capacidade de Bruno Vieira Amaral para descrever ambientes e repescar marcas e objectos que, não sendo do seu tempo, integra com enorme sabedoria nos seus cenários.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de dezembro de 2013 às 02:31

    Bolas e re-bolas! Irra, apre, caramba!
    Com mil raios!

    Não consigo actualmente ler coisíssima nenhuma!
    É triste, é duro e frustrante... violento!

    Não tenho tempo nem condições e nem vontade!
    Tirando manuais e livros técnicos a que recorro constantemente, tenho "Madrugada suja" na mesa de cabeceira e nem sequer li ainda uma só linha!

    Em compensação tenho uma lista de livros para comprar, em aí indo, que enche um carrinho de supermercado!

    Saudações desoladas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. João Paulo Borges Coelho, RAINHAS DA NOITE (Caminho)

      Eliminar
    2. Indo ao arrepio do blog e do post, pode consolar-se com as palavras de Agostinho da Silva que quando foi convidado para qualquer coisa relacionada com uma campanha de alfabetização confessou a Lobo Antunes, "meu filho estou muito atrapalhado, é que as pessoas mais cultas que conheço até são analfabetas."

      Além disso, ler sem disponibilidade mental para, é uma ofensa ao livro. Não vamos ofendê-los que não merecem. Há-de haver um tempo de poder e querer.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco2 de dezembro de 2013 às 05:04

      Sábias palavras Extraordinária Beatriz!
      Obrigado pelo seu conforto.

      Fico-lhe grato.

      Eliminar
    4. É que é mesmo isso que sinto, quero tanto, mas ainda não cheguei ao poder.
      Fui mãe há 3 meses, e ando realmente sem disponibilidade mental e não quero ofender nenhum livro.
      Vou aguardar mais um pouco, mas sinto que o meu querer está quase quase a transpor o poder.

      Suzana

      Eliminar
    5. Então, Suzana...atire-se a um livro com alma, mal a criança adormeça. Mesmo que leia só umas páginas, sendo com garra, mata a saudade e vale por um inúmero. Ou a criança é das que nos endoidam e não dormem nem de noite nem de dia? Também há disso:) e aí é só a saudade de um tempo livre e descansado.

      Não dura para sempre, é o único que posso garantir:) hummmm...e vale a pena.

      Eliminar
    6. Claudiada Silva Tomazi2 de dezembro de 2013 às 11:48

      Gosto de lista.

      Eliminar
    7. Retirando os adjectivos fica mais limpo:) e verdadeiro. Pode crer.

      Eliminar
    8. É que tenho mais uma de 3 anos, e por vezes é mesmo essa que me acorda de noite. Tem sonhos com lobos assustadores.
      Será que ler-lhe histórias antes de adormecer conta como leitura para nós?

      Suzana

      Eliminar
    9. E o que é que a Susana pensa acerca de? a resposta parece-me individual:)

      Eliminar
    10. :)
      Acho que depende muito das leituras. Ainda não lhe conseguimos ler histórias muito longas porque ela quer sempre 2, e geralmente quer virar a página. Mas notamos que desde que lhe começamos a ler, (anteriormente eram as histórias que nos viessem à cabeça)o vocabulário dela melhorou e aumentou substancialmente.

      Eliminar
    11. a mente infantil é uma senhora esponja:)

      Eliminar
  2. Um forte viva aos novos escritores portugueses, e a quem os edita, por não desistirem de criar e publicar numa época em que ser escritor é quase uma atividade exótica e de pouco futuro, pelo menos financeiro!
    Deixo aqui os meus votos para que o Bruno Vieira Amaral se revele um talento tão interessante como o David Machado ou a Cristina Drios que me deslumbraram em meses recentes !

    ResponderEliminar
  3. Bom dia,

    Queixo-me do mesmo, muito trabalho e, além disso, dois "monstrinhos" em casa que não dão tréguas...

    Isto para concluir que a minha resposta é igual à do mês passado, a diferença é que estava no início e agora estou mesmo a acabar: Afonso Cruz - "Para onde vão os guardar chuvas". Recomendo vivamente.

    Também li os 3 primeiros capítulos de "O complexo de Portnoy" de Philip Roth, que deverá ser o cliente seguinte.

    Boa semana a todos,

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  4. acabei de ler, "Onde Andará Dulce Veiga?", de Caio Fernando Abreu.

    gostei da sua escrita, com um ritmo muito "sul-américa".

    também li "Cardos em Flor", um livro de contos de um autor almadense que não conhecia, João Mangualde Boquinhas, publicado em 1962.

    ainda existem por ali resquícios do neorealismo. também gostei de ler.

    ResponderEliminar
  5. De há uns meses para cá avolumam-se as notícias inquietantes sobre Moçambique.

    Imaginando a perturbação em que andará Mia Couto, por solidariedade recuperei o “Pensageiro Frequente”, que agora viaja sempre comigo no carro, para o que der e vier nas salas de espera de que sou cliente frequente.

    O livrinho é uma colecção de crónicas que ele foi publicando na revista de bordo das Linhas Aéreas de Moçambique.

    Segundo Mia, “a revista de bordo é uma hospedeira em página impressa, um porteiro de nações”. Com estas suas crónicas ele pretendia “fazer com que o (seu) país voasse pelos dedos do viajante, numa visita às múltiplas identidades que coexistem numa única nação.”

    De facto, ao longo destes saborosos textos ele oferece-nos os seus pensamentos sobre as enormes potencialidades do imenso território, a sua riqueza em diversidades, a sua identidade multi-étnica, os seus tesouros históricos, culturais, naturais...

    O pior é que, ao que vamos sabendo pelas inquietantes notícias, a gestão desses recursos tem deixado muito a desejar – a tal ponto que Moçambique é, afinal de contas, um dos países mais pobres e com maiores índices de desigualdades no mundo.

    Ao que vamos sabendo, vive-se lá uma situação cada vez mais instável e caótica, caracterizada por desilusão, desesperos, assaltos, raptos, corrupção, perseguições políticas, conflitos armados...
    Ou seja: conflitos armados, perseguições políticas, corrupção, raptos, assaltos, desesperos, desilusão...

    É neste cenário de crescente instabilidade que, em virtude de ter conquistado o Prémio Camões 2013, Mia Couto foi há cerca de um mês distinguido com o galardão de “O Melhor de Moçambique”.

    Porque, como muitas outras, a sua família tem sido alvo de ameaças de morte visando a extorsão de dinheiro, Mia esteve vai-não-vai para não ir à cerimónia de consagração.

    Mas acabou por ir.
    E lá, no palco, fez o que lhe competia na sua condição de “O Melhor”: – disse o que se impunha que alguém dissesse em voz audível «para além das luzes e das mediáticas aparências».

    Recomendo que, além do “Pensageiro Frequente”, procurem ler o discurso que ele proferiu nessa gala do dia 25/10/2013, do qual transcrevo:

    « (...) a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio»

    « (...) esta celebração só terá sentido se ela for um marco na luta pela afirmação de valores morais e princípios colectivos. Para que a nossa vida seja nossa e não do medo, para que as nossas cidades sejam nossas e não dos ladrões, para que no nosso campo se cultive comida e não a guerra, para que a riqueza do país sirva o país inteiro.»

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Engraçado, também acabei um livro de crónicas de Mia Couto meu autor de eleição e pessoa que me parece inteira. Penso que se chama "cronicando". Achei as histórias tão ao modo de Mia que vou voltar a lê-las um dia destes. Seguramente.

      Eliminar
  6. Logo que a minha mulher termine a leitura, vou começar a ler "A Irmã" de Sándor Márai. Parece ser um bom livro.
    Neste momento não estou ler coisa alguma. Estou preocupado em lançar o meu próximo livro, no sábado.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco2 de dezembro de 2013 às 05:58

      Hómessa... conte lá!
      Qual o título?

      Eliminar
    2. "A Mulher que Sabia Tudo". É o meu primeiro livro policial. É o meu 56º livro - um deles na LeYa, de outro âmbito - e o primeiro na já conhecida "Chiado".
      Se a Rosário não se importa com o atrevimento na exposição do "link", o António Luiz pode ler mais em
      http://romances-policiais.blogspot.pt/

      Eliminar
    3. Estou atónito! 56 livros! Invejo a sua capacidade de trabalho. Desejo sucesso, tanto para o livro que aí vem como para os irmãos mais velhos.
      Estou a ler Ana Karenine. Um dos raros de Tolstoi que, por desencontros, ainda não li. Vai dar para muitos serões desta época invernal.

      Eliminar
    4. Agradeço-lhe as suas palavras, José-Catarino.
      De facto, são livros que editei por mim (18, esgotados, apenas disponível ao público um que está a findar a 4ª edição) e o resto através de diversas editoras, inclusive a Impala, onde foram reunidos 22 (de duas centenas) dos meus trabalhos para uma das revistas do grupo.
      É claro que não são livros apenas de ficção romanceada: há história, etnografia, monografias, banda desenhada (álbuns completos), biografias e conto.

      Eliminar
    5. António Luiz Pacheco3 de dezembro de 2013 às 06:44

      Etnografia e monografias?
      Sobre que regiões Caro e Extraordinário Fernando, é que me interesso muito por etnografia.

      Um abraço

      Eliminar
    6. Caro António Luiz

      Da região interior beirã. Tenho alguns livros publicados sobre crendices e superstições, linguagem popular, costumes.
      Quantos às monografias: duas de dois concelhos e outra de uma freguesia.
      Uma das monografias, com 540 páginas e cartonada, foi a primeira do concelho (citarei o nome, se necessário), tendo efectivamente a minha pesquisa na Torre do Tombo e nos arquivos municipais, feito com que fosse alterado o feriado municipal.
      Reservo sempre alguns (poucos) exemplares. Se me indicar para onde, envio-lhe um livro dos que publiquei sobre estudos e investigações etnográficas. Alguns dos assuntos, foram levados ao Independente e à respectiva revista, bem como à Notícias Magazine, onde colaborei.
      Um aparte: dediquei-me à caricatura e fui, durante cinco anos, o cartunista de um semanário.

      Um abraço

      Eliminar
    7. António Luiz Pacheco3 de dezembro de 2013 às 09:55

      Interessantíssima essa região... das Terras do Demo? A Beira interior é agreste e dura.
      De gente boa mas muito dura, como dura é a terra, a cheirar a salteadores e contrabandistas, lobos e vendavais!
      Tenho algumas obras sobre a região e sobre os temas, das crendices e tradições.
      Era terreno de caça de Mestre Aquilino, e muito escreveu sobre a região também Brito Camacho.
      Suponho que os Brandões e o Ferreiro da Várzea ainda por aí assombrem...
      A minha gente estabeleceu-se posteriormente no Douro, mas foram senhores de Ferreira de Aves e de Celorico da Beira, talvez por isso haja em mim uma qualquer nostalgia, quem sabe...

      A minha morada - Quinta de Stº António do Graínho, 14, Rua de Santo António 2005-020 Santarém.
      Melhor mandar para minha mulher... posso não estar e ela assim levanta-o nos CTT, Maria Fernanda Pacheco, curiosamente ela é de Ferreira de Aves - Sátão!

      Um abraço!

      PS - Alargo-me na conversa porque os nossos Extraordinários já por aqui não devem passar, eheheh! Não os quero maçar...

      Eliminar
    8. Vai seguir a encomenda.
      Ferreira de Aves, Linhares e Trancoso participaram numa das mais interessantes batalhas da guerra da sucessão (crise 1383-1385), trabalho que eu já realizei e foi publicado. O nome e apelido do alcaide de Ferreira de Aves, que foi decisivo na organização e no entendimento que conduziu à vitória de São Marcos, precedente de Aljubarrota, era, então - João Fernandes PACHECO. E esta, António Luiz?
      Sendo assim, também lhe posso dizer que a monografia citada foi para o concelho vizinho do Sátão - Aguiar da Beira.

      Em Santarém, que foi sede da ATAM, participei como um dos oradores no 1º Encontro Nacional dos Boletins Municipais. Ora, qual havia de ser o tema? Pesquisas etnográficas e o seu contributo para as publicações regionais. Era então secretário da Câmara Vieira Dias e o presidente qualquer coisa Botas.
      Foi publicado um livro sobre as intervenções, mormente a minha, que foi longa. Mas esse não conta no meu "palmarés".

      Tomámos o blog da Rosaário de assalto. Espero que ela não se incomode, paesar de ser muito tolerante...

      Abraço

      Eliminar
    9. António Luiz Pacheco3 de dezembro de 2013 às 14:26

      Sim... mas como é um post já atrasado acho que nem ela se importa e nem ninguém dará por isso... salvo o Severino que tem o hábito de vir espreitar os atrasados, eheheh!

      Pacheco é uma família muito antiga, que veio da Galiza para a reconquista Cristã. Aliás Pacheco significa "que veio de Espanha". Fixaram-se sobretudo no Douro, onde até à geração do meu avô ainda havia vários ramos e ainda subsistem quintas que foram da família, mas já não são... as últimas foram o Pego e a do Espinheiro das Arreigadas, do meu avô que hoje é de meu primo direito (de apelido Lobato de Faria) e as do Panascal, Corte e Casa Cimeira que eram de um primo de meu avô, António Pacheco, padrinho de minha irmã mais velha e que ,orreu sem descendência. A Casa Cimeira é um ex-libris da região e um exemplo arquitectónico da época. Os Pacheco estenderam-se pelas Beiras e até Zafra, onde havia um ramo espanhol.

      O presidente da Câmara de que fala era Ladislau Teles Botas, um ilustre scalabitano. Talvez conheça o "José Varzeano", outro ilustre scalabitano que vive reformado no Algarve e se tem dedicado ao estudo da etnografia, com diversas monografias sobre o Ribatejo e Algarve, publicadas?

      Particularmente interessante acho a saga dos serranos que vinham trabalhar para o Ribatejo! Dedico-lhes uma passagem no meu romancezeco, de cariz rural e passado no séc. XIX. Ainda convivi com muitos ranchos desta "malta" e sempre tive um especial fascínio e carinho por eles-
      Se tiver tempo e paciência vou passá-la aqui !

      Um abraço

      Eliminar
    10. António Luiz Pacheco3 de dezembro de 2013 às 14:29

      Era o tempo das ceifas e ele encontrou o campo no seu pleno com os ranchos de ratinhos e serranos, jornaleiros vindos das terras pobres da Região Centro e Beiras para fazer campanhas inteiras no Ribatejo enquanto durasse a época dos trabalhos de monda e das colheitas, para as ceifas e o trabalho das eiras: - Ceifar, juntar e atar molhos, carrear para a eira nos carros de bois, onde eram amontoados com saber na cagula, uma espécie de pirâmide imensa e alta. Depois havia a debulha, feita com trilhos puxados por animais ou malhando a braços, havia que limpar o cereal na tarara e joeirando com pás de madeira (em dias de vento) ou nas joeiras, grandes crivos com duas pegas manejados por dois homens; o grão ensacado para venda ou guardado nas tulhas para ser posteriormente semeado ou para consumo da casa, e, finalmente arrecadar a palha. Fazia-se a colheita do milho, de tudo o mais esperado pois todas as noites após a ceia se reunia o pessoal dos ranchos e os da terra em animadas sessões, as descamisadas que eram afinal grandes reuniões sociais e pretexto para cantares, desgarradas, ditos e histórias, graçolas e brejeirices a favorecer namoricos, uma autêntica festa. Os tocadores marcavam presença e eram pagos pelos donos da seara que se descamisava, que forneciam também a “pinga” que se bebia. Dançavam-se modas e bailes, fossem das Beiras ou do Ribatejo por improvisados tocadores dos mais espantosos instrumentos, da cana à bilha, passando por violas e concertinas que tinham lugar importante nos ranchos e apesar da dureza do trabalho sempre tinham à mão os seus instrumentos! O fandango impunha-se, dança onde dois galos de luta se enfrentavam num jogo de pés e pernas, a par de outras bálhações que eram a única oportunidade de os pares de namorados se encararem e tocarem com decência, se bem que depois pelas medas de feno e nas bordas das ribeiras sob a cortina dos salgueiros chorões, ninguém soubesse e muita coisa acontecesse nas noites cálidas do Verão, procriador e generoso… As maçarocas eram arrecadadas nas tulhas para se irem descarolando e usando à medida das precisões.
      Os ranchos que normalmente regressavam todos os anos aos mesmos patrões, em grupo que viajava a pé, eram contratados de palavra, ajustada a soldada no que se chamava molhadura pois se fechava com uma boa pinga de vinho ou água-pé. Estes ranchos de homens e mulheres ficavam alojados nas casas da malta onde as havia, com cozinha ou lareira e até forno de pão, onde havia loiça, lenha e sal à disposição, mais os enxergões, colchões feitos de molhos de palha de bunho. Mas também ficavam em telheiros ou simples barracas de canas. Muitas vezes dormiam no campo, debaixo das árvores e ao lado da seara. Mourejavam de Sol a Sol ao som do búzio ou buzina tocado pelos capatazes, fazendo parte do contrato fornecer a comedoria, composta básicamente de azeite e legumes secos, numa dada quantidade por semana, sendo 1 ração para os homens e meia para as mulheres, podiam juntar-se a isto batatas, água-pé e toicinho salgado ou o que calhasse, que na quinta da Rebela eram bem tratados e nunca faltavam… já o Bola de Sebo via-se e desejava-se para arranjar quem trabalhasse e ficava sempre com os mais miseráveis, fracos e vadios. O galante Manel Maria, feitor, afagando os matacões das patilhas, avaliando a olho as cachopas que já conhecia ou as novas. Perguntava-se por fulano que não veio, “morreu de febres”, a resposta invariável, outras vezes por ter ido para a tropa. Fulana não viera, calhava estar velha ou doente e até para parir mas vinha uma filha, a irmã mais nova ou outra substituta, no que era uma espécie de aval. Algumas vinham grávidas e não poucas vezes davam à luz no campo! (continua)

      Eliminar
    11. António Luiz Pacheco3 de dezembro de 2013 às 14:30

      (continuação)
      Numa época pouco mais que medieva, o atraso e a pobreza eram grandes e esta prática era fundamental quer para a sobrevivência do povo quer para a agricultura, sendo a força de trabalho! Os ranchos eram compostos de gente que se conhecia, arregimentados naturalmente pelas aldeias, combinando-se entre si, fazendo esta migração sempre com os mesmos destinos, ano após ano e por gerações, substituindo-se entre eles internamente com o acordo e sob a ordem do mandador que era aceite por todos e quem os juntava, organizava e comandava a marcha. Havia quem o fizesse individualmente mas as grandes casas agrícolas preferiam os ranchos que eventualmente completavam com algum indivíduo isolado, todavia desconfiando destes. O trabalho mais duro era o do arroz, a sementeira e rebaixa, lá para as terras do campo. Ali no bairro faziam as ceifas dos cereais ou dos legumes secos e as debulhas, depois as vindimas, outras colheitas eventuais como maçãs, peras, cereja, figos, alperces e os marmelos, e finalmente a apanha da azeitona, regressando ás suas terras onde sobreviviam como podiam até ao ano seguinte. Eventualmente ficava um ou outro por ali, acertado para determinado trabalho em que se ajeitava, até por casamento, e as raparigas por vezes, sendo mais jeitosas para o trabalho de casa “a servir”, o que era a sorte grande!
      E foi assim até pelo menos meados do século XX, quebrada pela mecanização da agricultura, uma tradição que teve continuidade na emigração para a reconstrução da Europa destruída pela IIª Guerra e que foi reerguida pelos braços dos Portugueses, sempre pressionados a procurar trabalho fora das suas terras! Esforçada e heróica gente que nunca teve por si nem à sua altura os políticos que ainda hoje não merecem a capacidade de sacrifício de um povo que apenas tem o defeito de não se saber governar, o que tem como corolário a perpetuação dos maus governantes, que aliás nunca gostaram do seu povo… sempre apostados em copiar modelos das Franças da sua imaginação e dos países do Norte da Europa que têm tanto a ver connosco quanto o seu céu nublado com a limpidez do nosso!

      Eliminar
    12. É o verdadeiro retrato do tempo que não vai longe, das vivências e dos costumes, embebido num quadro de ficção.
      É isto a Literatura - o retrato escrito do que se vê, do que se viu ou até do que se antevê. E é esta Literatura que presta um serviço de registo para o futuro - um registo histórico e um registo etnográfico.
      Muito bem escrito, é uma gesta de humanidade e de trabalho, sacrifício e valor humano.
      Não fazia mal aos companheiros Extraordinários regressarem até este post e lerem; ou, para corresponderem ao seu manifestado desejo de boa Literatura, adquirirem esta sua obra.

      Muito obrigado António Luiz.

      Eliminar
    13. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2013 às 03:32

      Caro Amigo Extraordinário:

      O meu pretencioso romance, digo pretencioso pelo atrevimento em o escrever e publicar, é ainda presumido por mim como "de fundo histórico" pois se apoia e baseia na nossa história do século XIX, pelo qual tenho grande fascínio: foi o nosso passado recente e há muitas memórias vivas como ainda conheci testemunhos. Além disso foi um século de grandes realizações, na aventura das descobertas, com a colonização dos territórios da África e Américas, outro tema que muito me apaixona. Sinto que nasci com 100 anos de atraso.
      Mas sobretudo, através dele pretendo prestar uma homenagem à nossa gente, anónima e generosa que se espalhou pelas partidas do Mundo e que são ignorados (parece que só houve a época quinhentista...) sistemáticamente, a despeito de terem escrito páginas da história Mundial. Ignora-se por exemplo o imenso contributo dado pelos portugueses na América, onde existem nomes na epopeia do Oeste!
      Foi essa a minha pretensão e por ela, durante mais de 30 anos, juntei dados e armazenei informação, para depois me dedicar um ano inteiro só à sua reunião e à escrita do tal romance...
      Entre outros aspectos, tem muitos dados etnográficos, quer sobre a região do Ribatejo, Alentejo, Beiras e Trás-os-Montes, mas também da Índia (Goa) de África (Cuvales, San, Ambó e Ganguelas) e dos USA, tanto na Califórnia como no Wyoming, com recurso à história da colonização, das guerras índias, do imaginário do Oeste, das caravanas, e em particular da presença e acção dos portugueses!
      Pretendo que fiquem reunidas essas práticas, atividades e factos. Pena nunca ter conseguido atrair a atenção de uma editora a sério que pudesse ajudar à sua divulgação, pois creio que teria leitores. Muitos conhecidos meus, pessoas da área da história, história militar, etnografia, foram que melhor o recebeu, exatamente pelo que reúno de dados históricos e etnográficos que consegui relacionar e interligar.

      SE, me der o seu contacto terei o maior gosto em retribuir a sua gentil oferta, e assim faremos uma troca... o meu mail particular é: alpacheco.quinta@iol.pt

      Um abraço!

      Eliminar
  7. Lendo e relendo Inferno e Paraíso de Jón Stefán (?) Ha ... son , devaneio islandês cruzado com o Paraíso Perdido de Milton que descobri aqui no blogue. Do melhor.

    ResponderEliminar
  8. Bom, até me sinto mal, pois eu fartei-me de ler em Novembro.
    Comecei por ler «La ridícula ideia de no volver a verte» da Rosa Montero e continuei com o último do Julian Barnes, curiosamente são dois livros sobre a perda do/a companheiro/a.
    Depois passei para o José Tolentino Mendonça, que só conhecia das crónicas do expresso, e li «A papoila e o monge», um maravilhoso livro de haikus ou a forma de dizer muito em poucas palavras; continuei com «O Hipopótamo de Deus», do mesmo autor.
    Terminei com um livro do Álvaro Magalhães «O Senhor Pina», dedicado ao saudoso Manuel António Pina. É um livro para crianças e/ou para adultos. Adorei!
    Boas Leituras!
    Antonieta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Antonieta, também eu li de uma penada "O Senhor Pina". O Álvaro Magalhães teve a brilhante ideia de imaginar o Pina a dialogar com o ursinho Pooh e nós ficamos convencidos da veracidade desses diálogos porque a linguagem de "O Senhor Pina" é a do poeta e sabemos que ele falava frequentemente neste personagem do clássico da literatura infantil, livro que ele adorava. E depois o livro do Álvaro Magalhães vai recordando algumas frases que o Pina repetia e também hábitos que ele tinha na sua relação com os seus amigos. É preciso ter sido muito amado pelos seus amigos para que um deles escreva um livro tão enternecedor !

      Eliminar
    2. Olá Artur,

      É realmente um livro comovente e que transpira amizade por todos os poros.
      O MAP teria gostado imenso de o ler...
      Quanto ao Bruno Vieira Amaral, tenho um livro dele deveras interessante, que penso já foi falado aqui no Horas: Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa.
      :-)
      Antonieta

      Eliminar
    3. Cara Antonieta,
      Obrigado pelas suas palavras e pela sugestão do livro do Bruno Vieira Amaral. Com esta sua recomendação, somada ao que já aqui ficou dito pela Maria do Rosário Pedreira, só me resta assentar o nome do escritor para não perder a escrita desse novo um romancista que eu desconhecia. Abraço !|

      Eliminar
  9. Li Le désert de l\' amour, de François Mauriac, um escritor um pouco esquecido em Portugal, mas de que gosto muito. Tenho lido mais ensaios ou biografias. Por exemplo, leio a de Caravaggio. Li também uma longa entrevista em forma de autobiografia de Elia Kazan. Não li, mas ouvi deliciado o texto Agatha de Marguerite Duras há dias no teatro. Nada de novidades, infelizmente.

    ResponderEliminar
  10. "JOSÉ E PILAR" - de Miguel Gonçalves Mendes - Depoimentos sinceros e comoventes sobre trabalho, arte, morte e, é claro, o amor de um pelo outro. Só não me agradou que os depoimentos de Pilar del Rio estejam em castelhano (não gostei porque não domino totalmente a língiua e poderá falhar-me muita coisa);é que isto não são conversas da treta.

    ResponderEliminar
  11. Claudiada Silva Tomazi2 de dezembro de 2013 às 11:51

    E das prioridades em questão um dia de Álvaro Pereira da Geração Editorial entitulado Depois de FHC.

    ResponderEliminar
  12. Ao deparar, em outubro , com Elias Canetti no "Danúbio", fui ouvir as "Vozes de Marrakesh ". Curto mas intenso.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório