O mal banal
Assisti há duas semanas a um daqueles filmes que não se esquecem. Por mais que o cinema americano tenha monopolizado os espectadores do mundo inteiro, a verdade é que o cinema europeu ainda dá cartas – e muitos trunfos. Falo dessa maravilha de argumento, realização e interpretação que é Hannah Arendt e que não só me encheu as medidas como me ensinou muita coisa que – ainda bem – desconhecia (sobretudo que Heidegger tinha falta de jeito para as coisas mais pragmáticas da vida). Este filme, que é também sobre o julgamento de Eichmann que Arendt cobriu para a revista New Yorker quando o nazi foi raptado e levado para Israel, e a terá levado a escrever (e com que consequências) sobre a «banalidade do mal», recordou-me certas partes de Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, e de A Caixa Negra, de Amos Oz, romances escritos muitos anos mais tarde e em contextos distintos, mas nos quais existe também uma maldade que é fruto, no limite, da estupidez de certos pobres de espírito que, quase sem disso se aperceberem, têm o poder de mudar a vida de milhões (para mal). Aconselho, por isso, a leitura destes dois livros admiráveis e, claro, se ainda o conseguirem ver, o filme de Margarethe von Trotta.
Admiro pelicula(s) bem lá montada e bem dirigida e há quem bem diga a sétima arte.
ResponderEliminarInteressante para mim no filme foi também ter sido nele aflorada uma das grandes feridas que dilacerou no pós-guerra os judeus do leste europeu, de Israel e da América. Ou seja a resposta à pergunta: será que o modo disciplinado como as comunidades hebraicas se organizam e respondem aos seus líderes (conjugado com a submissão destes aos nazis) não foi um contributo decisivo para a eficácia do genocídio? Outra questão dolorosa foi o facto revelado por Eichmann no seu julgamento de que no final da guerra, quando a Alemanha nazi tinha desesperada necessidade de liquidez, ele ter proposto “vender” por uns milhões uns milhares de judeus, que estavam em campos de concentração, à agencia judaica que financiava a emigração para a Palestina britânica. Essa agência tinha esses milhões mas decidiu que os poderia utilizar com mais proveito (custo por emigrante) para promover a viagem de judeus que viviam noutras regiões do mundo. Do julgamento de Eichmann ninguém saiu com as mãos limpas. Tenho que ler o Amos Oz de quem nunca li nada. “A Caixa Negra” fica anotada.
ResponderEliminarLi há muitos anos (e gostei imenso) o "Jerusalém" do GMT. Ando também há muitos anos com o nome Amos Oz na lista de escritores a descobrir. Fica devidamente anotada "A caixa negra".
ResponderEliminarConcordo consigo quanto ao cinema europeu. Já agora, deixo aqui uma viva recomendação a um filme extraordinário que vi há uns 3 anos, Argentino, e que é baseado num romance: O segredo dos seus olhos. Talvez o último filme a encher-me verdadeiramente as medidas. Grandes diálogos, enorme sentido de humor, personagens inesqueciveis e também não falta uma (boa) história de amor pelo meio.
Um fim-de-semana extraordinário a todos,
Rui Miguel Almeida
Também adorei!
EliminarAbsolutamente !
EliminarA suprema vingança !
Filme fantástico, um dos meus favoritos! :)
Eliminarhttp://buedefitas.blogspot.pt
http://a-minha-estante.blogspot.pt
Gostoa são gostos, mas considero Jerusalém o melhor romance de Gonçalo M. Tavares e um dos melhores escritos entre nós. Nota curiosa: só aí a meio consegui perceber a razão de ser do título.
ResponderEliminarGosto tanto de Jerusalém que não consigo evitar o confronto entre essa obra e a produção posterior do escritor. Isto acontece-me sempre que tenho a sorte de começar a leitura de um escritor por aquela que considero ser a sua obra-prima...
A maldade é sempre fruto da estupidez de certos pobres de espírito. Não acredito na maldade como "entidade" autónoma, que ataca alguns porque sim. Ninguém nasce mau (pela mesma razão que ninguém nasce bom). A ignorância, a pobreza de espírito, os complexos de inferioridade, etc. é que criam a maldade.
ResponderEliminarTambém gostei de «Jerusalém», embora não concorde com a imagem que lá é criada dos psiquiatras e psicólogos.
E mais um, Cristina: a injustiça e a humilhação que faz do cordeiro, lobo!
EliminarNem mais a propósito a banalidade do mal que atormenta os espíritos mais sensíveis, uma sorte de pensamento social-democrata contra as psicopatias, a falta de respeito pelas consciências e um enorme, como banal, desprezo pelo sumo da democracia.
ResponderEliminarBanalidade do mal que JPP arrasa com frases como: «Estranhos companheiros de campo»; «Ninguém se mobiliza por uma lei, mas por aquilo que ela defende»; «Atacar a impunidade, o cinismo, o desprezo...»; «Contínua falsidade e mentira...o vício de querer viver melhor... o ajustamento, não o desemprego».
Vivemos, de facto, estranhos tempos de desperdício, mas também de desligamento e alheamento. E é neste propósito de banalidade que (perdoe-me a nossa “hospedeira” a explícita informação, neste lugar de informação e partilha), se encontra este meu parto «Obsessivo», que é ele também um grito de alerta para tempos onde se cruzam tantas e tão perigosas ficcionadas ilusões.
https://www.facebook.com/pages/Obsess%C3%A3o/1434399896779856?ref=hl
A propósito de Hannah Arendt e da banalização do mal – e sem desprimor para o filme e os livros indicados por Maria do Rosário – recomendo um texto de Luís Januário, intitulado “Um Vazio em Redor”, publicado no Jornal i a 9 Novembro 2013, e que podem encontrar no blogue “Natureza do Mal”. (*)
ResponderEliminarPalpita-me que, por prudência, devemos ir reflectindo séria e cuidadosamente sobre esta questão da banalidade do mal, que Hannah Arendt sintetiza assim:
«Nos tempos de transformação rápida do mundo, os amigos desaparecem, sugados pelo brilho do vencedor e fica um grande vazio à volta dos que resistem, ou foram marcados com a estrela infamante.»
A prudência consiste em - como, por enquanto, parece óbvio - não nos deixarmos deslumbrar com o primeiro iluminado que, na confusão generalizada que resulta da superabundância de informação e opinião, nos apareça a estalar os dedos revelando-nos a "solução óbvia" para a trapalhada em que o nosso país, a Europa, o Mundo, estão metidos.
Cuidadinho, pois, que - como nos ensina a História - ela (a História) por vezes repete-se, disfarçada com diferentes e deslumbrantes metamorfoses.
E, se formos poucos para evitar que, desta vez, ela se repita, restará um imenso vazio em redor daqueles de nós que, prudentes, seguiram estes avisados ensinamentos que nos dá a própria História.
Se formos poucos, o dramático vazio repetir-se-á. E só mais tarde, quando já ao vazio tivermos sucumbido, talvez a História - entretanto preparando os disfarces para uma nova repetição - por desfastio nos dê razão.
É da História: - quando, mais adiante, se reconhece que ela (a História) correu mal, a razão que tinha quem tentou-e-não-conseguiu evitar esse curso aparece sempre tarde demais.
Portanto, diz-me a intuição que devemos redobrar a prudência.
Isto é: devemos reflectir - não apenas intuir.
(*) Já agora, no blogue leiam também “Wohin in Paris”, que tem muito a ver.
Bom, talvez fizesse sentido ler o livro que dá origem aos factos relatados no filme, não?
ResponderEliminar"JERUSALÉM" do Gonçalo M. Tavares é realmente um livro tormentoso dum escritor absolutamente desconcertante; e quando se fala de maldade ela está bem retratada no médico de "APRENDER A REZAR NA ERA DA TÉCNICA" também do Gonçalo M.Tavares (em pequenino disseram-me que os nomes das pessoas nunca se abreviam e, curioso, nunca mais me esqueci...é que, tal como Goethe confessou um dia que se lhe tirassem tudo quanto pertencia aos outros ficava com muito pouco ou nada, do mesmo modo poderei confessar que TUDO O QUE SEI APRENDI COM OS OUTROS).
ResponderEliminarNunca li nada do AMOS OZ mas "A CAIXA NEGRA" já cá está na lista.
E deixem-me ainda relembrar, já que falamos de maldade, o já aqui falado anteriormente "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" do DANIEL GARCIA ORTEGA-muito bom-!
Se nunca mais se esqueceu, porquê o ASeverino?
EliminarOu será que se chama mesmo A?
ahahah!
Por acaso, o García Ortega é Adolfo, e não Daniel, mas eu percebo que um homem que denuncia o Holocausto num romancee maravilhoso não possa ser confundido com o outro Adolfo, claro!
EliminarÓ caríssimo amigo apanhaste-me bem, realmente cala-te ou diz qualquer coisa melhor que o silêncio.
ResponderEliminarRealmente aquele que não quer fazer figura d'urso deve começar pela sua boca.
Um abraço
Saudações Leoninas e bom fim de semana para todos os meus amigos extraordinários (e amigas, claro).
Ó Pacheco onde éque te meteste? anda Pacheco
O Pacheco, se não anda a caçar búfalos em África, anda a ler qualquer coisa relacionada. Entre aquela "largueza" de capim, o nosso amigo não se perde.Daí o seu silêncio...
EliminarUm abraço para ele.
Gosto de escrever com a sala das Horas Extraordinárias vazia. O silêncio ouve-se ao ritmo do matraquear suave e abafado das teclas. Hoje, por acaso, estou a escrever ao som de Grenade (Bruno Mars), pelo que o silêncio se dilui no ritmo e na voz desta canção de preferência.
Também gosto de fechar a porta dos comentários, quando os comentadores (aparentemente) desistem de exporem as suas ideias, razões, escolhas ou sentimentos.
Enfim, sou uma ave nocturna, insone,por vezes inconveniente - como no caso, em resposta ao Severino, que já deve estar no seu segundo sono, a esta hora - determinado a ser como sou.
O cinema europeu tem actores menos glamorosos e uma luz menos dourada; pretende mostrar gente normal, sem a necessidade de mundos perfeitos. E é, em geral, mais bonito, mais triste, mais próximo de ser verdade. E tão diferente do americano que mesmo quando se dedica a conflitos e tristezas parece saudável, lembra-me um produto biológico.
ResponderEliminarFã convicta de Hannah Arendt, terei sido a única pessoa que desapontou com o filme e prefere qualquer pedaço da sua obra, um capítulo que seja, à ficção a que assisti. Ainda que concorde com as duas questões afloradas por Artur Águas e com o que a Rosário aponta sobre o filme, que é afinal sobre a personalidade desta mulher ímpar e as vicissitudes de quem procura a sempre incómoda verdade. Hannah descobriu tanto da alma humana que não parece falar-nos de tempos de guerra que são passado. Poderia ter dito/escrito hoje, agora. Para o bem e para o mal, somos os mesmos, a banalização do mal continua. Ainda que os holocaustos menos hediondos.