Figuras públicas

Uma vez, estava eu em Serralves a visitar uma exposição de Julião Sarmento, veio ter comigo uma senhora com uma filha ainda pequena e perguntou-me, enfim, se eu era eu. Respondi-lhe que sim – e então, coisa mesmo inesperada, ela falou-me em voz muito baixa (estávamos num museu) da minha poesia e de como ela a teria ajudado a ultrapassar um terrível período da sua vida, confessando-me que, depois disso, era finalmente capaz de a ler sem chorar. Fiquei surpreendida: os escritores raramente são figuras públicas; e, apesar de eu ter ido a um programa de TV pouco antes daquele encontro, achei realmente estranho que alguém me reconhecesse e abordasse, sobretudo num local fora do meu contexto, um lugar que nada tinha que ver com livros. Na verdade, se virmos bem as coisas, um actor ou um cantor (mesmo que não tenha um sucesso por aí além) está mais do que habituado a sorrisos na rua e pedidos de autógrafos e certamente não se espanta de ser assim interpelado. Mas o escritor – excepto para um reduzido número de pessoas – é um nome na capa dos livros e pouco mais, e muita gente acha até que é assim que faz sentido, como se fosse crime sair da torre de marfim e aparecer às massas (mas, de facto, os raros que se tornam populares são logo criticados). Curiosa sobre aquela invulgar abordagem, não tardei, porém, a descobrir que não tinham sido os media a fazer nada pela minha fama: afinal, a senhora tinha feito parte de uma comunidade de leitores da Livraria Almedina, em Gaia, onde eu estivera para trocar impressões sobre os meus poemas…

Comentários

  1. acho que os escritores não são bem figuras públicas, pelo menos daquelas dos "festins do croquete" .

    há tantas diferenças.

    quando gostamos da obra de um autor, é comum lermos também as notícias e entrevistas sobre ele (na imprensa especializada claro), ao ponto de pensarmos que o conhecemos, para lá da sua fisionomia.

    por isso é que normalmente as abordagens são diferentes (até mais chatas...), não queremos apenas um autógrafo, queremos "descodificar" os livros e as suas personagens.

    ao ponto de alguns escritores ficarem com a sensação que o leitor sabe mais do livro que o próprio autor. :)

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    1. Concordo em absoluto consigo Luís. da parte do leitor, fica sempre a curiosidade, a intriga com determinado livro e assim que, nem que seja por coincidência, encontre o autor é impulsivo nas perguntas. No fundo, parece-me uma forma de partilhar pontos de vista da história que tanto gostamos e para isso nada melhor que escolher a pessoa que a escreveu.
      A mim também já me aconteceu isso, uma data de vezes, enquanto leitora, só não tenho muita sorte a encontrar os escritores... E talvez também, devido à minha distracção, se tenha dado o caso de ter passado por eles e não os ter reconhecido. Vá-se lá saber... Mas que tenho perguntas e dúvidas a esclarecer, isso tenho!

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    2. Claudia da Silva Tomazi21 de novembro de 2013 às 03:37

      Mas que interessante conclusão.

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  2. Julgo que se há coisa que nos enche de prazer e conforta, é alguém gostar daquilo que escrevemos, seja qual for o motivo...

    Afinal não se escreve para partilhar algo?

    E quando se lê algo que nos toca, não é igualmente sublime? Ou porque é que lemos?

    Curiosamente, não sendo embora leitor de poesia, está escrito em poesia aquilo que mais me tocou.

    Por isso compreendo tanto a NEA quanto a senhora que assim lhe expressou o seu reconhecimento.
    Como gostaria de poder expressar o meu a Camões, Pessoa, Gedeão...

    Saudações kaluandas!

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  3. Claudia da Silva Tomazi21 de novembro de 2013 às 02:58

    Frase vulgar: sorria você esta sendo filmado.



    Sorriso a espontaneidade d'alma!

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    1. Agora, a Cláudia fez-me lembrar algo:

      O sítio mais intrigante onde encontrei essa frase vulgar, foi no portão de uma casa, dirigida aos donos dos cães. O cão começava a fazer as suas necessidades e o dono dava com a frase: «sorria, está sendo filmado» (em alemão, foi na Alemanha). E via lá, de facto, uma pequena câmara.
      A minha cadela, por acaso, limitou-se a farejar o local. E eu, apesar de não saber se a câmara realmente funcionava, sorri na sua direção e mostrei um dos saquinhos de plástico, que levo sempre no bolso e que uso para recolher os testemunhos da passagem da minha cadela (se ela se resolve a deixá-los), que deito no caixote de lixo mais próximo ;)

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    2. Claudia da Silva Tomazi21 de novembro de 2013 às 05:26

      Continue está sendo interessante uma escritora previnida eis de vossa prevenção "responsabilidade" a boa lembrança.

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  4. Fui-me habituando a tê-la como vizinha no trabalho (e a partilhar os mesmos espaços), mas confesso que no início estranhei ver um poeta (poetiza, neste caso) tão de carne e osso, a comer o mesmo que eu e até (desculpem-me) a usar a mesma sanita! E deve ter notado o meu nervosismo quando lhe fui pedir autógrafos. Afinal, revelou-se uma das pessoas mais simpáticas com quem me cruzo por aqui, que sempre me cumprimenta com um sorriso.
    Autores há que preferia não ter conhecido. Outros ainda que preferia nunca ter sabido nada deles e que não tenho vontade de conhecer.
    A obra é a obra, o autor é o autor, mas têm muito em comum.
    Quanto a serem figuras públicas, os escritores, há alguns que começam precisamente por aí...

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  5. Que história bonita a do encontro da leitora com a MRP ! Dá-nos esperança de que nem tudo tem que passar pelos "mass media". Ainda sobrevive um mundo profundamente humano que vem de encontros pessoais e de ocasião entre almas sensíveis. Que falta que me fazem os encontros públicos com o Saramago !

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  6. Tem havido ultimamente e de forma crescente uma relação inversa: primeiro são figuras públicas, depois são "escritores"...

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  7. "... um lugar que nada tinha que ver com livros."
    Isto existe? Onde?

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