Portugueses incultos

De tanto em tanto tempo, a União Europeia faz um inquérito sobre os hábitos culturais dos cidadãos europeus, e o mais recente Eurobarómetro conclui que os Portugueses estão, com os Romenos e os Búlgaros, entre os que têm menos práticas culturais. Não frequentam bibliotecas públicas, não vão ao teatro nem a museus e, mesmo que de vez em quando não resistam a um concerto da sua banda favorita, muitos nunca assistiram a um espectáculo de dança ou ópera na vida. O cinema, que ainda era a área em que os Portugueses escapavam nos inquéritos anteriores, deixou também de ser frequentado pela maioria dos cidadãos nacionais (em dez meses, houve menos 1,2 milhões de espectadores nas salas), que agora preferem ver filmes na televisão. A televisão, aliás, parece ser o que ocupa 70 e tal por cento da população, enquanto apenas 40 por cento confessam ter lido um livro no último ano. As conclusões do relatório apontam para o facto de a crise obrigar a um decréscimo do consumo de produtos culturais – e é óbvio que, entre alimentar os filhos e ir ao teatro ou ver uma exposição, o português (ou outro qualquer) opta pela subsistência da família; mesmo assim, sabe-se que a culpa está em grande parte numa educação muito deficitária em termos de formação artística e na subsequente apatia nacional pelos valores culturais. Claro que o inquérito não distingue cidade e campo, litoral e interior – e os resultados podiam ser bastante diferentes se o fizesse. É pelo menos uma boa notícia que sejam os mais velhos quem menos lê e mais TV consome, pois assim sempre podemos ter alguma esperança no amanhã. De todo o modo, quando olhamos para os números dos países nórdicos (na Suécia, 90 por cento das pessoas leram pelo menos um livro em 2012), ficamos tristes. Nunca conseguiremos lá chegar.

Comentários

  1. E não havia um item a perguntar quantos livros leram na vida os primeiros-ministros dos respectivos países!... Há sem dúvida uma fortíssima correlação entre o rendimento e o usufruto dos bens culturais. Num país de subsistência e de enormes desigualdades que as médias conseguem distorcer ainda mais, o que esperar? Emigrar é cada vez o melhor remédio!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pedro, não queria ter de ter dar razão nessa tua última frase, mas infelizmente tenho de o fazer. Não que renegue o meu País, não que o abomine, confesso apenas que, neste momento, o desacredito totalmente. Não me nasce qualquer esperança quanto ao futuro dos portugueses e digo-o simplesmente porque depois de emigrar verifico outras realidades tão distantes dessa que se vive e viveu que sinceramente me falta a vontade de um dia voltar... E no País onde vivo, por acaso, um dos fossos que percebo mais acentuados, entre outros que dariam matéria para eterna discussão, é de facto a mentalidade cultural. Só para te dar um exemplo, nunca em Portugal me lembro dos meus filhos me terem falado de poesia, ou da escola lhes ter referido, em algum momento, algo semelhante a não ser rimas, pois aqui em França a poesia ensina-se desde o Jardim de Infância. E se te digo ensinar, digo que não se limitam a dar nomes de poetas aos miúdos para que os decorem, não se limitam a ler a poesia na aula e esquecer o assunto, incentivam-nos, ensinam-nos, ajudam-nos, motivam-nos, "obrigam-nos" a conhecer a poesia de cor para além de a saberem magistralmente clamar em publico. Todas as semanas o meu filho mais novo trás uma poesia francesa para decorar e depois, com toda a pompa e circunstância, ler diante da professora e colegas. Assim dito, assumo que todas as sextas feitas tenho um clamador de poesia que sob ao sofá, sob a forte e determinada apresentação do irmão, para brindar os pais com este espectáculo e conhecendo, ou achando que sim, o meu filho de nove anos, tímido e reprimido no que toca a sentimentos, ter um A nesta matéria: clamar poesia em Francês como eu nunca esperei ou sonhei ouvi-lo tão pouco em Português.

      Abraço.

      Eliminar
    2. A rectificação da última frase * e conhecendo, ou achando que sim, o meu filho de nove anos, tímido e reprimido no que toca a sentimentos, ousei pensar que pudesse ter um A nesta matéria:*

      Eliminar
    3. Apesar das saudades, também não está nas minhas prioridades regressar a Portugal. A vida pode ser tão mais fácil... Acho que aí se complica muito (além da crise, claro). Diz-se que os portugueses são mais comunicativos e familiares, mas, na verdade, penso que nunca fui tão respeitada, como mulher, mas também, como pessoa, como na Alemanha! Claro que em todo o lado passámos a ser números, nesta sociedade capitalista. Porém, é aquilo mesmo que sinto. Em Portugal, elogia-se a modéstia, o silêncio, a obediência, a humildade. Na Alemanha, a consciência do nosso valor, o dar a nossa opinião, mesmo que seja para contestar, e o não nos conformarmos com coisas que julgamos injustas, não é tão censurado. Normalmente, é respeitado e bem-vindo. É claro que isso implica que saibamos aguentar melhor sinceridades que, em Portugal, não se dizem, julga-se, "por educação".

      Quanto à leitura, não há dúvida de que se lê mais, por aqui. Mas também é verdade que as pessoas têm mais dinheiro à disposição. E muita gente fica-se por best-sellers, como Dan Brown. Mas sou de opinião de que é melhor ler algo, seja o que for, do que não ler.

      Eliminar
    4. É verdade, Carla. E neste momento aos portugueses só se colocam duas alternativas.
      Ou lutar internamente por um país melhor, mais solidário, mais verdadeiro, mais humano... ou abandoná-lo... mesmo sempre suspirando e espreitando-o de fora.
      A Troika e a crise financeira só veio colocar a nu as nossas fragilidades... de há muito.
      Uma enorme falta de "modus" colectivo, de valores, de cultura... até de responsabilidade... acomodação e exigência de cidadania. Tudo já bem diagnosticado por Sérgio, Antero, Eça e tantos, tantos outros...
      Nestas alturas vêm-me sempre à memória um trecho da História Trágico Marítima — se bem me lembro relativa ao naufrágio do Sepúlveda.
      Em que, e perante a falta de escaleres, eram os remos a solidariedade dos "acomodados", "ajustados" na cabeça dos náufragos — seus compatriotas —, deixados ao sabor das ondas neste jogo eterno das sempre insuficientes cadeiras. Em falta não por não as sabermos contar, mas por sempre haver alguns que querem acomodar as pernas na sua mas sentar o rabo na de outros. E isto não é socialismo, é decência e sentido dos limites.
      Portugal é amá-lo e sofrer por dentro, ou deixá-lo e sofrer por fora.

      Eliminar
    5. Pareço uma mãe que veio de outro lado, mas o certo é que estou plantada no interior do país. E se os meus filhos não declamavam em dias certos da semana, pediam-me para ler com eles os textos poéticos e os poemas. Talvez porque os não entendessem.

      Mas é um facto que não temos o hábito de pôr os garotos a declamar os grandes poetas. E, no entanto há poemas tão bonitos. E para todas as idades.

      A mentalidade portuguesa precisava uma boa limpeza. E talvez depois o importante viesse à tona. Perdemos tanto tempo em coisas que não valem.

      Eliminar
  2. este défice cultural é normal, principalmente em tempo de crise.

    se no "tempo dos sonhos" não se consumiam livros, teatro e música mais erudita em abundância, menos se consumirão agora, quando em tantos lares já não há dinheiro sequer para a alimentação...

    e nem vale a pena falar do investimento que se faz na cultura (cada vez menor), porque esta gente que nos governa além de ser inculta, tem medo de que gosta de pensar pela sua própria cabeça.

    ResponderEliminar
  3. Claudia da Silva Tomazi5 de dezembro de 2013 às 02:41

    A humanidade e boa notícia há feita notáveis a qualidade.

    ResponderEliminar
  4. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2013 às 04:25

    Pois não sei se os portugueses são ou não são cultos, mas creio que não o são mais nem menos que os restantes povos.
    Lemos menos? Talvez... eu próprio sou disso o exemplo e já aqui o lamentei! Por impossibilidade!

    Vemos muita TV? Bom, mas há hoje uma imensidão de canais culturais, desde música a artes, história, ciências ... gastronomia, caça, toiradas, e muito bons por sinal!
    E sai mais barato, como é mais cómodo... verdade seja dita!

    Parece-me a mim que há aqui alguma confusão,
    pois há estratos em todas as sociedades.
    Estratos sociais, económicos e claro: culturais!

    Não creio que eu, enquanto consultor ou diretor de empresas seja menos culto que os meus congéneres de outras nacionalidades! Não mesmo!

    Evidentemente que sou menos culto do que por exemplo um académico ou um investigador do meu nível e do meu tempo... ou um erudito, até do que um artista.
    Há aqui inúmeros Extraordinários tão mais cultos que nem os refiro. Mas é porque aqui se reúne gente de um certo estrato que se interessa por cultura! Há os que não se interessam, ou se interessam por outras formas de cultura.

    Sou também mais culto do que um mecânico ou electricista... é um facto, e não os considero assim tão incultos, é uma questão de "estrato" e não o digo com um sentimento elitista mas sim de que eu tive oportunidades que eles não tiveram...
    E claro é uma questão de interesses!
    Ontem no nosso jantar da Confraria da Camama, foi a nossa vez de fazer o jantar: Na nossa casa vivem um diretor financeiro, um jovem diretor de obra engenheiro mecânico e eu. Fizémos um vol-au-vent de peixe... Se foi do agrado geral dos habituais 12 comensais (paparam-no todo e mais houvesse!) houve um jovem pendura na qualidade de ajudante de um dos do núcleo duro da confraria gastronómica, que não gostou... eu percebi e disse-lhe: "Marco, isto não é o teu género de comida, pois não?", ele ficou envergonhado mas confessou que não era... nunca tinha comido, peixe com alho francês, vinho e natas numa massa folhada!
    Para mim é claro que um moço de um bairro dos arredores do Porto, operário e filho de operário, não tenha essa "cultura", logo não goste de vol-au-vent. E tem alguma culpa ou isso deve ser-lhe reprovado? Claro que não! O mal dele foi estar num meio que não é o seu, e nós termos decidido comer uma coisa mais sofisticada.
    Digo o mesmo de um livro, obra musical, etc.

    Gostaria o Marco de ouvir Lizz Wright ou o concerto de Aranjuez? Não creio... como não acredito que se deleitasse a ver o canal História ou a ler um ensaio do Mestre Agostinho...
    Porque tal como a tripa dele não está formatada para aquela forma de comer peixe, também o seu intelecto não está formatado para outras que não o Toni Carreira e o FCP...
    É uma questão cultural, mesmo! Pura e dura!

    Será o Marco menos culto que um operário francês ou alemão? Hum... não me parece!
    São iguaizinhos, pelo que deles conheço... para não falar de ingleses e americanos...
    É a cultura deles... como a nossa é outra!

    Diferenças noto-as entre operários do ex-bloco soviético, onde a cultura era obrigatória, dirigida e menos livre mas que existia e os fazia conhecerem escritores ou ópera e bailado!
    Na tentativa de construcção do homem-novo, segundo o modelo soviético, limitado e dirijido.
    Porém faliu! Falhou o sonho e a empreitada...
    Porquê? Hum... talvez porque cada homem ou mulher tenham de ser o que serão e isso não seja possível de "construir", embora acredite que possa ser influenciado... aliás foram dados exemplos como o do garoto que lê poesia... na nossa escola também, só que se calhar o professor impinge-a em vez de aliciar para ela!

    Tema muito interessante este, mas será assim tão verdade?
    Os portugueses leram menos? Um bom livro nunca custa menos de 25 euros!
    Quanto custa um bilhete de espectáculo? E que espectáculos há? Onde pára a revista à portuguesa? E o teatro com peças mesmo?
    Ou acham qu

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Pacheco gostei mesmo desse vol-au vent de peixe (confesso, mesmo a propósito nesta página de incultos, que fiquei a saber o mesmo).

      Anda Pacheco...

      Eliminar
  5. Será sol? O livro pede reclusão, manta nos joelhos e lareira. Porém, existe esperança, a nova idade do gelo.

    Os editores que se aguentarem vão ver atendidas as suas súplicas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2013 às 05:11

      Hum... bem visto!!!!
      O Sol... nunca me ocorreu, e na verdade a leitura pede aquilo que descreveu...
      Extraordinário!

      Saudações kaluandas - isto por aqui anda nublado e com pouco Sol, mas nem assim lá vou... também lareira com 30ºC não vai bem...

      Eliminar
  6. «Sabe-se que a culpa está em grande parte numa educação muito deficitária em termos de formação artística e na subsequente apatia nacional pelos valores culturais»; não, e percebe-se porque não o saiba.

    ResponderEliminar
  7. Claudia da Silva Tomazi5 de dezembro de 2013 às 07:25

    Minha avó contara melhor idade de vida dos noventa e seis bemvividos e meu pai a visita-lá achou a varanda o sai com esta -mãe eu sou seu filho ; ela quietude entregará-se e novamente ele - mãe eu sou seu filho mais velho o Jaime lembra-se?! esta impassível retruca - posto que meu filho reconheceria ao primeiro momento pediria benção.

    ResponderEliminar
  8. E a oferta? Pois é, perante o que vai aparecendo nos cinemas, nas bancas de jornais e revistas e nas papelarias e livrarias e até na maioria dos teatros, o melhor mesmo é fugir para o monte que monte é que se está bem!

    ResponderEliminar
  9. A nossa escola não permite a arte. Não a quer. Ainda não entenderam, nem os senhores que governam nem os governados que também governam nos seus galinheiros particulares, que a arte cria um espírito diferente em cada homem, tira algumas vendas, dilata as opiniões, chama pelo que há de melhor no ser humano, é aguda consciência de pertença ao mundo.

    Não se pode gostar do que se desconhece.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2013 às 09:33

      Eu diria que a arte é o que sublima a humana condição!
      Hoje a tendência é trazer o animal para o nível humano, torná-lo igual... o que tem como resultado bestificar o ser humano, sem dignificar ou ajudar o animal a evoluir.
      Sem dúvida é o que se passa e procura: a total bestialização... seres acéfalos, desprovidos de sentimentos humanos como são os artísticos, os do diletantismo e puro prazer.
      É aquilo que o liberalismo, que é profundamente economicista, pretende! Que não haja gosto nem sensibilidade ou identidade, e por isso a bestialização. Assim as pessoas são mais fácilmente manipuladas e conduzidas.

      A arte é algo de demasiado humano para os dias de hoje, já não tem lugar... a menos que sirva para os fins de alienação, e olhe-se às muitas porcarias que se produzem, como arte! A idéia é matá-la por dentro, destruindo sensibilidade e bom gosto artístico.

      Saudações kaluandas!

      Eliminar
    2. Claudia da Silva Tomazi5 de dezembro de 2013 às 09:59

      Roda: intenção bem humorada
      alivia em princípio a estrada
      estrado estreado ! Conceito.

      Eliminar
    3. não acredito que a ideia seja matar a arte.É certo, existe arte que também eu não entendo, mas cada um procura a que mais o move. Julgo. Não arrisco chamar-lhe não arte. Desconheço tal fronteira.

      É preocupante que esse amorfismo artístico seja deliberadamente proposto e desejado. falta amor ao país se assim se trata.

      Eliminar
    4. estrada, estreado, estrado, há conceitos para tudo não achas ó Tomazi? lá, lagoa, aguareala. Conceitos!

      Eliminar
  10. Nada que realmente surpreenda. Os livros são associados a momentos de quietude e recolhimento que a maioria de pessoas qualifica de chatos (a sério, ler durante 1 hora quando podes ir passear o cão, fazer zapping ou jogar no facebook?!), preferindo horas "activas" a ver programas de tv muito pouco estimulantes, filmes repetidos ou passeatas na net!

    Felizmente, desde muito nova que adquiri o hábito de leitura e foram milhares de horas de deleite e também algum tédio, quando me forçava a acabar livros que não me estavam a "prender" (hoje já não o faço, felizmente); são momentos que não trocava por nada. Não há nada melhor que não conseguirmos largar um livro.

    Entre amigos, sou bicho raro, não tenho com quem falar de livros, mas prefiro ser assim. Tenho pena que as pessoas não procurem a leitura, repito tantas vezes que há géneros e autores para todos os gostos, basta haver interesse e procurar. Acho que essa é a maior falha: as pessoas não consideram o acto de leitura interessante e não procuram livros.

    http://a-minha-estante.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Três parágrafos bem interessantes, barroca!
      Inteiramente de acordo consigo, até parece que me estou a ver ao espelho...
      Boas leituras!
      :-)
      Antonieta

      Eliminar
  11. Há cá também, além de tudo o que se disse, um desporto nacional que suplanta a bola, e que consiste no autoapoucamento . Tem 10 milhões e tal de praticantes, daí a intensidade com que se pratica: um dia somos os mais burros, no outro os mais gordos, no outro ainda os mais feios ou incultos. O que espanta é que ainda assim existamos. Para esta leitura já dei.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Do dicionário da bola:

      -é preciso é levantar a cabeça-.

      Quaresma no FCPorto vem ganhar metade (€ 150.000/mês) do que ganhava mensalmente no Dubai e também costuma levantar a cabeça...quando perde...é o mundoem que vivemos

      Eliminar
    2. Sim, levantar a cabeça.

      Eliminar
    3. Claudia da Silva Tomazi9 de dezembro de 2013 às 01:38

      Seu Osmarino, Chiquito e Joquinha deamizade inseparável.

      Eliminar
  12. Sandra Maria Ferreira6 de dezembro de 2013 às 02:00

    Li com, extrema, atenção o texto publicado. E discordo que a "crise" seja o principal motivo para esta dissociação cultural, em Portugal.
    Gosto, particularmente, de adquirir primeiras edições; gosto de frequentar alfarrabistas e sentir o cheiro dos livros. Tenho, felizmente, uma boa biblioteca que vou construindo: um casaco ou um saco ou uns sapatos conferem uma imagem da Pessoa mas aparente. A verdadeira essência está na dita "elasticidade cerebral" que, apenas, a prática quotidiana da Escrita e da Leitura conferem. A Pessoa define-se pelo Saber e o Saber vem dos Livros, da Arte, da Cultura. Na Suíça (sou filha de emigrantes) o nível cultural é imprescindível para Comunicar: um suíço está sempre atento ao mundo que o rodeia, às Artes e múltiplos conhecimentos. É uma honra quando, os mais idosos, Suíços, (com laços de Amizade com a minha família), "deixam" sob o marco do correio, da residência, dos meus pais, livros para mim: assim fui conhecendo Jung e tanto mais... Também é muito comum "tropeçar" em livros que, alguns "deitam" ao lixo (tenho centenas, dos anos vinte e outros, com dedicatórias - guardo com especial carinho, um livro de Poesia de Robert Frost...); gasto dinheiro com o transporte desses livros para Portugal: sinto-me afortunada. Preferirei, sempre, a aquisição de livros do que uns ténis... Quanto a Portugal: existem Bibliotecas com inúmeras Atividades Culturais e sim aí constato a "crise" (humana) pois os auditórios encontram-se vazios ou com pouca gente, sobretudo quando a entrada é gratuita! Recentemente, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, o Nuno Camarneiro, deslocou-se para um público tão pouco! Fico desolada. Mas se formos a um bar ou outras saídas noturnas (não é hábito meu!) pode constatar-se que a "crise" não existe e que até parece nem ser Portugal, o local desses que enveredam pela Cultura não sei do quê! Portugal e os portugueses carecem de Cultura, de Identidade literária profícua, como meio de evolução. É triste: muito. Para onde caminha o Homem? "Sei lá", pelo menos M.R. Pinto acertou no título como resposta a esta boa pergunta. Mas mesmo assim, prefiro perguntas com respostas que me obrigam, indelevelmente, a Ler mais; saber: sempre o Saber.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco6 de dezembro de 2013 às 03:34

      O bar não serve, em minha opinião, para avaliar o nível de cultura... muita gente que vê nos bares, vai ali depois de ter ido a um espectáculo cultural.
      E sendo uma elite, também não servem para avaliar a crise...
      A crise anda por outras paragens, faixas e classes.

      A crise também tem bolsas... no campo e na província se calhar sente-se menos, pois se faz vida mais económica e as pessoas se defendem melhor, sempre assim foi!

      O nível de cultura, quanto a mim mede-se nas reuniões mais populares, porque não são os Extraordinários quem faz a média da cultura e sim os populares, aqueles de quem toda a gente fala e em nome deles, ou avalia, mas de que ninguém faz parte.

      Fala na Suíça... pois, mas de quais suíços? Dos de nível médio ou dos operários (se os houver...)? Atenção a esse detalhe...

      Na minha hoje já aldeia, no Graínho, e geminado com as Fontainhas, existe um Centro Desportivo, Recreativo e Cultural que é também a sede da Associação de Caçadores.
      Faz-se ali cultura: Existe o Rancho do Bairro Ribatejano que lá ensaia e leva a cabo espectáculos de folclore e até um pequeno festival.
      Também ao longo do ano faz a recriação de cenas tradicionais, e feiras, vendas... também fazem pequenos espectáculos como peças de teatro amador, quadros de revistas, declamação ou leitura de poesia, exposições etnográficas, e claro as festas habituais com tasquinhas, concertos de artistas locais ou regionais e até algum "DJ", mais quermesses, tiro aos pratos, vacadas ou garraiadas, o tradicional jogo solteiros x casados..., chinquilho, torneios de sueca, etc.
      As receitas destinam-se ao rancho e às atividades recreativas e culturais.
      Tem crescido e sido construído aos poucos, mas com grande dinamismo e o apoio dos habitantes - eu por exemplo colaboro com a doação de varolas de eucalipto para as barraquinhas e tronqueiras, com areão para o campo de jogos ou chão... já me aconteceu conseguir "cravar" um porco a alguém ou umas caixas de sardinha, graças aos meus contactos...
      Tudo isto em duas aldeias geminadas (Graínho e Fontainhas) que reunirão umas 500 almas...

      Talvez não leiam muito, não... mas alguém duvida de que se faz e existe cultura?
      Só que é a nossa, a dos barrões... e não aquela que se decide noutros lugares como "cultura" e que alguns ainda não perceberam que não é a cultura do povo e sim de uma elite...

      É que não estamos na Suíça... e eu lamento mais a falta de cultura portuguesa que se exibe do que a falta de leitura de Jung.

      Não estou a ver o João, neto do Rui do Japão e da Ermelinda, a ler outra coisa que o Correio do Ribatejo para se cultivar no intervalo do seu curso profissional para soldador e entre as suas idas à pesca a Peniche, mas em compensação dança o fandango lá no rancho onde já tem namorada e tudo... cultura? Tem, a dele... e ainda bem pois assim teremos identidade, não a dos que nos querem fazer suíços, mas aquela que nos manteve como povo e nação nos últimos 900 anos.

      Saudações kaluandas

      Eliminar
    2. Sandra Maria Ferreira6 de dezembro de 2013 às 10:41

      Boa tarde, Sr. António Pacheco. Muitíssimo grata pelo feedback.

      Desde já os melhores cumprimentos.

      Menciono a Suíça, a título de exemplo: somente! E, talvez porque é a realidade com a qual convivo, com maior afinidade. Aludi ao Suíço (cidadão comum) e já agora a Jung, como poderia ter citado outro.

      Não poderei ver alguém nos bares, pois como referi não é meu hábito! Pretendi referir que enquanto uma entrada num bar tem um custo, não é gratuita, na sua maioria; a entrada num auditório de uma Biblioteca Municipal ou simples Polo de Biblioteca ou outro, possui um mapa de, particular, interesse e tem entrada livre. E, mesmo assim, a adesão a estes espaços de cultura é reduzida: é triste ver um auditório com tantas cadeiras, com temas, pertinentes e pessoas ilustres que fazem quilómetros para a partilha de um Bem Cultural e, apenas, meia-dúzia de cidadãos ávidos de Leitura e de Saber estejam presentes! Fico desolada!

      Quanto a Cultura de "aldeia": é muito gratificante e daqui a aplaudo, de coração ímpar pela audácia de fazer mais e melhor.

      Não pretendi fazer de Portugal, uma Suíça! Será impensável: talvez a estrutura do organigrama "República Democrática; estado federal e comunal" tenha algo pertinente. E, aqui, entrámos na política... Não pretendo ir por aí.

      É contudo um exemplo saudável de Cidadania Ativa; convido-o, se me permite, a consultar "via net, online" determinados sítios relacionados com a Cultura Suíça; por exemplo: no Cantão de Vaud: as associações culturais, do género: "AJAR"; "La nuit de la Lecture", entre outras...
      Dizem que o exemplo vem de cima. De cima ou de baixo, não importa. Muito menos o "dizem"; céptica, por natureza, apologista de uma boa dúvida, de uma questão pertinente e impertinente; do Saber (em geral), o importante é fazer mais e melhor. Adquirir ou frequentar espaços de cultura, que Portugal possui.

      Lutemos, por isso e para isso.
      Pela Cultura, pelo Afeto aos Livros, pela Arte em geral. Pelo enriquecimento Cultural e Pessoal.

      Bem-haja, Sr. A. Pacheco.

      Eliminar
    3. OAntónio Luiz Pacheco7 de dezembro de 2013 às 03:40

      Olá Sandra!
      É um prazer falar consigo, como aliás com a maior parte deste Grupo Extraordinário porque se trata de gente com opiniões esclarecidas, com um bom e alargado naipe de experiências e de origens, o que ajuda a que nos cultivemos mútuamente nesta troca de opiniões!

      No fundo, a questão é esta: será a cultura mensurável? Só se falarmos de cultura livresca, musical, tauromáquica, científica etc. Teremos de a localizar, parametrizar e especificar: de definir que forma de cultura estamos a avaliar!

      A cultura-em-geral, essa creio que não... pois há muitíssimas fontes de informação e formas de a ela aceder, que não os livros!

      Daí me parecer errada quer a forma de avaliar a cultura dos portugueses, quer a conclusão.

      E vou mais longe, uma avaliação destas para ser conclusiva, teria de ser feita por estratos e até por meio, como seja rural, urbano, das profissões, etc.

      O Manuel Prates, técnico de frio, tem uma enorme cultura no que toca ao seu trabalho, e está sempre informado e faz formações contínuas... ao longo de 40 anos de empresa é o que se chama um poço de saber e de competência!
      Mas será culto no outro conceito do termo? Bem, pelo menos é informado, lê jornais e assiste aos noticiários, gosta muito canal Travel e do NG ...
      Pode conversar-se com ele sobre muitas coisas, e até aprender com a sua experiência de trabalhador expatriado em diversos países... creio que tirando manuais não lê outros livros... e isso faz dele então inculto?

      Esta a questão de facto, será? Tal como chapéus, também culturas há muitas, diria eu!

      Saudações kaluandas e votos de bom fim-de- semana! .

      Eliminar
  13. Sandra Maria Ferreira7 de dezembro de 2013 às 04:02

    Bom dia!

    Caro A. Pacheco muito há a salientar. Como o fim-de-semana chegou fico-me por poucas linhas:

    A) Um bom livro custa menos do que 25 euros! Comprovo.

    B) A Leitura de um bom livro pode nada custar (valor pecuniário!) se via consulta/ empréstimo, nas ditas Bibliotecas Públicas!

    C) Precisámos de mais Cultura e sim, resta-nos "a esperança" de um futuro melhor a este nível.

    D) Não menciono, tão-somente, os Livros (valorizo-os e estimo-os) mas a Arte em geral: adoro Pintura, por exemplo...

    E) Portugal apresenta, infelizmente, um déficit Cultural muito grande.

    Em suma: compete a cada cidadão consciência cultural; o estímulo da criatividade; o aguçar do espírito crítico - na fuga ao " ser-se mais um na fila de formigas". A elasticidade cultural permite avanço e evolução. Um bom Livro permite uma maior elasticidade cerebral, maior aquisição ao nível da sabedoria e do conhecimento. Gosto de Livros que dizer?

    Ainda é longo o caminho a percorrer, em Portugal, para massificar a Cultura e gostar dela como água para beber, quando se tem sede. É um Bem essencial.

    Bem-haja, Sr. A. Pacheco.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório