Os livros dos outros

Todos os autores, ou quase todos, gostam de celebrar a publicação dos seus livros num lançamento público, geralmente numa livraria, com a presença de alguém conhecido que fala da obra. Mas nestas coisas não há modelos e nunca se sabe o que pode sair da cartola dos oradores convidados. Já vi de tudo – e o pior foi quando a pessoa que apresentava o livro disse mal dele com o autor ali mesmo ao lado: honesto, talvez, mas não era precisa tanta sinceridade. Também já assisti a lançamentos em que o orador era um escritor muito conhecido e só falou da própria obra – um pouco egocêntrico, diria eu, sobretudo porque parecia mesmo que não tinha lido o romance que vinha apresentar. Quando o apresentador é pessoa famosa, muita gente não vai ao lançamento senão por causa disso, mas, em alguns casos, o escritor sozinho faria melhor. Uma vez, por exemplo, convidei um publicitário muito badalado para apresentar o romance de um autor escocês cuja acção decorria no mundo da publicidade e deve ter sido a apresentação mais rápida da história: o publicitário limitou-se a dizer qualquer coisa como: «Então aqui está x, que escreveu o romance y, a quem vou já passar a palavra.» Pensou que «apresentar» era «fazer as apresentações»… Até tive de ler um excerto para ocupar o tempo. E, por falar em ler excertos, agora já se vai substituindo a apresentação clássica por uma leitura, às vezes feita por um actor, parecendo que assim o livro se apresenta melhor a si próprio. É de certeza mais interessante do que contar a história toda e estragar o prazer aos leitores que assistem à sessão (também já me aconteceu). Enfim, tenho um autor que odeia lançamentos porque diz que não gosta que falem dele. Está, pelo menos, mais protegido destes amargos de boca.

Comentários

  1. Ups, convidar o orador para apresentar o livro e depois, vá-se lá saber a intenção de tão sincera alma, aguentá-lo a dizer mal da obra que, à partida, estaria ali para promover, deve ser desconcertante. Ora fica mais que provado que um escritor tem de ser dotado de uma dose, fora do normal, de paciência, é que caso contrário a coisa pode mesmo correr mal e, neste em concreto, valha-me Deus. Agora imaginemos a plateia: os convidados, os amigos dos convidados, a família do escritor, etc. sentados, ansiosos para conhecer o livro e depois serem brindados com uma destas? É de roer as unhas e controlar a garganta para não se soltarem uns impropérios, ainda que respeitosamente, a mandar calar o homem...

    Cara MRP compreendo perfeitamente esse seu autor e sim, pelo menos, resguarda-se de tamanhas incredulidades.

    Um abraço.

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  2. Quase sem querer, garantidamente sem nunca o ter imaginado antes, tive um livro publicado e a respectiva apresentação ao público. Estava uma sala cheia de familiares, amigos, outros autores, que entenderam ser interessante a solidariedade para com um novato nestas andanças e algumas pessoas ligadas ao meio literário, convidadas pela LeYa. O livro foi apresentado por uma figura ligada ao humor, Luis Filipe Borges, seguido pelas palavras da Maria do Rosário. Um e outro transformaram aqueles momentos em algo de valer a pena. Abordaram o livro e dirigiram-me palavras de incentivo.
    Parece pois que terei tido sorte.
    Os principiantes costumam tê-la!

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  3. Nos Estados Unidos é frequente os escritores, mais do que estarem presentes em apresentações dos seus livros, fazerem eles próprios digressões nacionais por livrarias, universidades, centros culturais, etc, em que fazem leituras dos seus livros e se dispõem a dialogar com os seus leitores ou com quem apareça, para além de obviamente se disponibilizarem a autografar livros. O escritor é nesses eventos"one-man show", em vez de um pouco passivamente assistir ao que um apresentador diz do seu novo livro. Em Portugal, faz-se pouco o encontro do escritor com os seus leitores, independentemente do lançamento de um novo livro. Saramago fazia-o de modo exímio.

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    1. Claudia da Silva Tomazi13 de novembro de 2013 às 07:01

      Inclusive outra: Big one!

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    2. Já que tanto se copia neste país, por que não copiar os bons exemplos?!

      Compreendo o autor que detesta lançamentos, tb não aprecio apresentações de autores e de livros. Apresento-me a ambos muito sossegadinha em minha casa. Eles nunca disseram que não gostavam.

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  4. Não será a apresentação de livros qualquer coisa do tipo da tontice/idiotice da despedida de solteiros?

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    1. Claudia da Silva Tomazi13 de novembro de 2013 às 13:15

      Estilo "Champagne Semi-séc?!"

      Até mais Severrin.

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    2. Et voilá, Artur Águas et Severrin!
      Em vossa honra, temos hoje a nossa Cláudia poliglota, a puxar pela vossa internacionalização nas (e das…) Horas Extraordinárias.
      Ele é para o Artur “O Escritor The-Big-One-Man-Show”, ele é para Severrin “A Idiota Despedida de Solteiro Estilo Champagne Semi-Sec”…
      Sim senhor! Aqui, em poucas palavras, três das línguas mais faladas no mundo!
      E ainda dizem que a Cláudia não sei quê, e tal…
      Pois eu, aqui de Amarante – e para aproveitar a boleia da internacionalização… – brindo com um Vinho Verde em vossa honra e de Cláudia.
      Por ordem de entrada: Cheers! to Artur / Salut! a Severrin / À Nossa! para Cláudia.
      Sai outra rodada para as “Horas Extraordinárias”!
      Tchim-tchim!
      (Ahh! Que bela pinga! E ainda dizem que o Vinho Verde não sei quê, e tal…)

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    3. Esta Cláudia dá-me volta à cabeça...

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    4. Obrigado pela saudação ! De Amarante (onde já vivi; mais exatamente, no Freixo de Baixo) até ao Porto, onde vivo, é um pulinho... Este blog de facto dá-nos um cheirinho da diversidade do português europeu e americano.

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  5. Caro Artur Águas
    Sem querer (porque não conheço) pôr em causa a dedicação que os escritores americanos põe na divulgação do seu trabalho, posso dizer-lhe com toda a confiança (porque sou casada com um escritor português) que por este país também os nossos escritores fazem um enorme esforço e têm uma enorme dedicação na divulgação do seu trabalho e da Cultura em geral. O que implica um grande sacrifício familiar, posso garantir-lhe.

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    1. Cara Senhora, fico-lhe muito grato pelo testemunho que nos oferece de vida vivida com um escritor e confesso a minha mágoa pelo facto de que a divulgação de eventos em que os nossos escritores se empenham por comunicar com os leitores tenham, na generalidade da comunicação social, pouca divulgação. Nós, leitores anónimos, ficamos com a (provavelmente falsa) ideia de que os escritores quase só participam no lançamento de novos livros, visitas a Escolas Secundárias e em benditos colóquios sobre Literatura, como as "Correntes de Escrita" ou "Escritarias", mas que não há por cá muito o hábito do encontro informal com leitores anónimos ( e, se calhar, até não resultaria em Portugal como na América, que sei eu...).
      Apresento-lhes as minhas homenagens pelos sacrifícios que sei serem os seus, os do quem partilha a vida com um escritor desta terrinha que pouco preza a Cultura e a Criação Literária.

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  6. E acrescentaria o meu nome (que foi anónimo sem querer) e faço um copy/paste deste excerto do seu texto porque assenta que nem uma luva no meu:
    “(…) é frequente os escritores, mais do que estarem presentes em apresentações dos seus livros, fazerem eles próprios digressões nacionais por livrarias, universidades, centros culturais, etc, em que fazem leituras dos seus livros e se dispõem a dialogar com os seus leitores ou com quem apareça, para além de obviamente se disponibilizarem a autografar livros”
    Maria João Lima

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  7. Ah, ah, ah! É capaz de andar lá perto, Severino. Muito bom este texto da Rosário que preenche mais um vazio nesta coisa da experiência do convívio com os livros.
    Reconheçamos que entre estar a escrever um livro e a sumariar o livro, a primeira opção, leia-se invenção, é a que mais me agrada. O autor que odeia lançamentos lá terá as suas boas razões e possivelmente algumas bem substantivas que por certo partilharia.
    No actual momento do país uma tal tribuna seria, para quem me quisesse ler, um verdadeiro tormento. Pois não lhes daria nem com o sumo, nem com um guardanapinho de papel (afinal os leitores se compram livros tem o direito, inalienável, de os poderem ler no recato do lar… sem serem defenestrados por autores que quase sempre são maus actores ou bichos de secretária).
    Claro que usar verdadeiros animadores, ou mesmo passar por uma loja de máscaras e aparecer vestido de Zorro, Obélix, Lucky Luke ou de incrível Hulk , isso agradava-me. Ou mesmo, já que hoje em dia a diferença entre humanos e animais é nenhuma, sei lá, à Jolly Jumper , já que podia entrar sempre aos relinchos quando a voz me faltasse. Bem como satisfazia-me um chazinho e umas bolachinhas, daquelas de canela ou de areia tão ao gosto das ceias da avozinha dos meus tempos de infância, que as tinha diariamente em saquinhos, da padaria da esquina ao Salitre, seguido de um chá dançante e daquelas danças Cossacas tipo Kasatchok . E a fingir que ainda tinha os meus treze anos, ganhando coragem para convidar para dançar a mais loura do baile (e se naquele tempo as louras não eram mesmo louras, e os homens não eram mesmo morenos até morrer!), ao arcaico mas estimulante som do je t’aime … moi non plus ».
    No meio disto, no entanto, sinto-me um raio de privilegiado. Nunca tive de passar por tal tortura, embora a altura se aproxime e já tenha preparado uma diatribe (ou um agradecimento) para quem fez de mim um exemplo de oportunidade a tempo inteiro… e siga a música: Ras , Dwa , Tri / C'est l'hiver qui frappe à notre porte / Mes amis , allumons un bon feu / C'est l'hiver , que le diable .

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    1. É bom ler no seu post que "a altura se aproxime". Espero que nos diga a todos, com tempo, o quando e o onde desse feliz evento ! Estou certo que eu, como outros "Extraordinários", gostariam de estar presentes para lhe agradecer pessoalmente os belíssimos textos com que nos vem brindando.

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    2. Artur: obrigado pelas suas gentis e motivantes palavras. Um grande abraço.

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  8. Dizer mal de um livro que se deve apresentar e falar da própria obra, quando se deve apresentar outra, revelam grande falta de educação (noutros meios diz-se falta de chá). No primeiro caso, mais valia recusar o convite, alegando não apreciar a obra do/a autor/a em causa. Isso sim, era honesto! No segundo... Bem, abstenho-me de comentar.

    Lamento um pouco a leveza com que a Maria do Rosário critica estas atitudes, quando, noutras situações, é bem mordaz e severa (foi-o, por exemplo, com a alegada leitora do «El dinosaurio»). Limita-se a dizer que será "honesto", ou "um pouco egocêntrico" ("um pouco" - brada aos céus; quando se trata de falar no ego de candidatos a autores não se costuma poupar em "piropos", por aqui). E ainda com o acrescento "diria eu".

    Dois pesos e duas medidas. Às estrelas desculpa-se tudo, não é? Faz-se em muito lado. Mas não deixa de ser discriminação... diria eu.

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  9. tal como o publicitário, há muita gente que não percebe qual é o sentido da apresentação de um livro.

    e por vezes os autores também não, preferem convidar alguém que os coloque no Olimpo, mesmo que se esqueça de falar da obra...

    já assisti aos dois exemplos: o apresentador a dizer mal da obra e o apresentador a falar de si e da sua obra, esquecendo-se de que estava ali para outra coisa.

    além de ridiculo, mostra também o "jogo de espelhos" que faz parte do dia a dia desses "idolos de mãos de barro".

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  10. Não sei se já aqui falei nisto, mas escrevi o meu primeiro livro policial, o qual vou colocar agora à deriva no mar onde já anda tanta navegação - algumas de grande calado - e sujeita aos ventos e marés do costume.
    Digo isto, anuncio isto, porque vem a propósito de lançamentos e convidados. O lançamento do meu vai ser num sébado, em Dezembro, e o convidado apresentador já me conhece. Sei que ele está à vontade para zupar forte e feio no autor ou na obra mas, tratando-se de amizade, se tal lhe ocorresse, declinaria o convite.
    Recusar o convite para se apresentar uma obra fraca, incapaz de navegar à bolina, meter água, adernar e ir ao fundo (hoje dá-me para linguagens náuticas), não é descortesia, é misericórdia; fazer o elogio, a apologia ou a louvaminha a contragosto e contra si próprio, é colocar o apresentador de bem com os outros e a mal consigo (Zeca Afonso), o que é hipocrisia.

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  11. Não gosto de apresentações. Espero que a obra seja maior do que o autor, que nela pôs, ou devia ter posto, tudo o que tinha para dizer, nada havendo a acrescentar. E os leitores não precisarão de dicas de leitura, nem de intermediário entre eles e a obra. Por outro lado, fala e escrita são linguagens diferentes: estou sempre a citar (aqui faço-o de memória, com o risco de alguma imprecisão), um conto de Ray Bradbury em que a personagem, que se suspeita ser Hemingway, diz algo como "Você fala muito bem. Daria um péssimo escritor."
    Mas as apresentações são, infelizmente, das poucas possibilidades de venda de livros que restam àqueles que não têm peso mediático, pelo que as vejo como mal necessário.

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  12. Texto muito interessante da Dra. Maria do Rosário, embora eu desconfie que também já foi “cúmplice” em apresentações literárias dentro do formato que agora critica. Sem ofensa.
    Há aqui excertos, no texto e também nos comentários, que parecem futebol. Fala-se de nomes mas não se diz quem.

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