As cidades escritas

Já aqui falei ao de leve neste livro quando ele saiu, mas só nas férias pude lê-lo de fio a pavio e observar, com a devida atenção, as fotografias e ilustrações que o compõem. Chama-se Contos Capitais e, como o título indica, inclui contos que tomam como ponto de partida cidades capitais de todo o mundo. Mas, se nuns casos, poucos, a capital serve apenas de cenário a uma história que podia quiçá passar-se noutro lado, a verdade é que noutros a cidade é quase a protagonista da história (como, por exemplo, Sarajevo, de Valério Romão, ou Roma, do nosso querido Urbano Tavares Rodrigues, que nos traz um caso de amor em que a mulher só podia ser italiana). Interessante também é que a própria colectânea sirva de tema ao autor do conto sobre Buenos Aires, Miguel Real, que começa justamente a sua narrativa pelo convite do editor para que escrevesse sobre uma capital. O leque de estilos e abordagens, de gente com idades e olhares muito diferentes, torna este volume muito atraente e equilibrado. Para quem gosta de contos, esta é uma obra a não perder.

Comentários

  1. Quando o encontrar na biblioteca requisito-o.

    Nem 120 anos de vida me bastariam para ler o que gostaria. Pergunto a mim próprio como é possível viver sem ler?

    A propósito de quem não lê - já viram A CASA DOS SEGREDOS? que tristeza, que penúria, que gente, mas serão estes os jovens desta geração? Como é possível uma entidade com responsabilidades na educação de uma grande maioria da nossa população -TVI- "passar" isto? se calhar é esta gente que interessa aos actuais governantes -gente com nada, mas nada na cabeça-, vi na 5ª. feira e fiquei atónito, absolutamente atónito, uma autêntica casa de putas e atrasados mentais; desculpem-me o desabafo mas pergunto: para aonde caminha Portugal com gente (jovem) deste jaez?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há muito jovem que pagaria para não entrar nessa casa. Que nunca vê o programa. Que, enfim, vive de outras coisas. Felizmente.

      Depois...bem, também há os que se lamentam por não ter conseguido entrar, que só comentam o que ali se passa...

      Mas quero acreditar que esses são os barulhentos. Mas não a maior quantidade. O barulho não é nada.

      Quanto às televisões...estão em regra vendidas ao poder e às audiências. Nenhum dos dois augura qualidade.

      Eliminar
    2. E, sim, é possível viver sem ler. Ou viver lendo só os jornais. E por vezes só os desportivos. Os portugueses ainda não tornaram quotidiano o culto da leitura. Considerando a totalidade, ela é necessidade de muito poucos. Os livros não existem dentro da maioria das casas. Ou existem fora da função, enfeitam e desinteressa o conteúdo. Poderiam ser, como no cenário dos teatros, só capas, livros a fingir.

      Mas este ano, na praia, encontrei alguns leitores portugueses :) também não é muito vulgar

      Eliminar
    3. Para aonde caminha Portugal? A única resposta plausível parece ser: não caminha...por isso é que marca passo!

      Confesso que vejo a casa dos segredos. Não A CASA DOS SEGREDOS mencionada pelo Severino - que essa consta não ser uma casa mas uma ruína, um degredo, uma casa de espelhos angulosos, um regresso ao hedonismo da busca egoísta dos prazeres momentâneos que se confunde quase sempre com a decadência, o vazio de vidas e de sentidos -, mas a verdadeira casa dos segredos… que dá pelo nome de livro.
      E como foi bom ler «O prazer da Leitura de Proust ».
      Nele, sim, estão contidos muitos segredos. Ler “O prazer da leitura” de Proust , esse prefácio para a tradução de “Sésamo e Lírios” de John Ruskin (escritor romântico inglês, poeta, desenhista e crítico literário e social) é ingressar num lugar brilhante onde a realidade é suplantada por esse domínio de capricho do pensamento. Em todos os lugares há frases que de tão intensas não podem estar guardadas a sete chaves… em Proust esse lugar parece um canteiro cheio de rosas bravas feitas crescer pela mão do homem. Uma dessas chaves é «estar no domínio do flutuante do capricho onde o gosto de uma única pessoa não pode fixar a verdade».
      Uma frase a que, nos tempos que correm, devíamos prover mais reflexão e debate: é que o gosto mais do que uma fixidez de olhar é uma flutuação do mesmo… a que Proust chama capricho… e quão caprichosos nos tornámos, quão donos de nós e dos nosso pequenos “hedonismos”.
      A outra frase já não é de Proust … mas trazida de Descartes: «A leitura de todos os livros bons é como uma conversa com as pessoas mais sérias dos séculos passados que deles foram autores».
      E é essa conversa que agora Proust , aludindo a Ruskin , acrescenta: «A leitura é exactamente uma conversa com homens muito mais sensatos e interessantes do que os que podemos ter ocasião de conhecer à nossa volta»… e rebate:
      «É no momento em que nos disseram tudo quanto nos podiam dizer que fazem nascer em nós o sentimento de que ainda não nos disseram coisa alguma»; a verdade «temos de criá-la nós próprios»… e é no «termo da sensatez dos outros que surge o começo da nossa.»
      Para aonde caminha Portugal?
      Para um velho degredo que se confunde com as sempre renovadas saudades do futuro!

      Eliminar
    4. Por acaso, no outro dia acho que passei por esse canal por uns minutos: moças anafadas de rabiosque e maminhas, todas envergando cueca, sutiã e avental de cozinha e, num outro lado, boisarões tipo jogadores de bola ou porteiros de night clube, muito atléticos a fazerem as camas. Também fiquei assustado com aquilo, mas nada tem a ver com o que nos traz aqui: já li um ou outro Conto Capital e merecem realmente atenção.

      Eliminar
  2. Claro que sei que é possível viver sem ler e feliz; é um exagero da minha parte e um exagero de quem é fanático pela leitura. Sei que há mais mundos, mas dói-me ver a mente de certas pessoas.

    Como é que o Mr ED (o cavalo que fala) -Teresa Guilherme-, consegue ser tão vilã e manter um programa destes com esta gente balofa, oca, triste, infeliz e o pior é que não sabem que o são!

    ResponderEliminar
  3. claudia da silva tomazi7 de outubro de 2013 às 04:12

    Cidades ?! Descreve-se.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Descreve-se...
      E canta-se, também – procurando ver a lua.
      Por exemplo, assim:

      “Tão azul tua cidade e nua
      que canta meus olhos
      de noite escura
      de desejo e pura
      Saudade
      de ter
      de ter
      e ver
      nos teus olhos a lua.
      (…)”

      (C. S. T. – “Do belo”)


      Ou – se me é permitido o ousado cotejo – assim:


      “Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
      (…)
      E eu estou em ti fechada e apenas vejo
      Os muros e as paredes, e não vejo
      Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
      (…)”

      (Sophia – “Cidade” )

      Eliminar
  4. Espanto: agora discute-se aqui lixo televisivo ??!!
    (quando há, por exemplo, a oportunidade de conversar com a autora de uma particular visão da cidade de Paris, como a que foi recentemente narrada por uma excelente contista)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o sou eu é qASeverino8 de outubro de 2013 às 00:23

      Ó Artur, o único culpado de trazer aqui o lixo televisivo sou eu, é que às vezes tenho estes Amok's...

      A propósito, lembras-te do AMOK do Stefan Zweig?

      Eliminar
    2. Claro, meu caro Severino !
      É um livro inesquecível do Zweig mas com um título enganador. Trata-se do relato de uma paixão ultra romântica, obsessiva de um jovem médico alemão, desterrado na Malásia, por uma holandesa que o visita para que ele lhe faça um aborto às escondidas do enganado marido. Tudo corre mal: o médico apaixona-se perdidamente pela sua paciente [não via mulher branca há anos, diz o Sweig], mas estranhamente recusa-lhe o aborto, e a mulher acaba por morrer nos seus braços após aborto feito por curandeiro local. Depois é a CULPA no seu máximo esplendor. Uma culpa que não mais o larga e que se cristaliza no pedido feito pela mulher para que oculte do marido a razão da sua morte. A cena final do suicídio é inolvidável. Agora o título não me parece fazer jus ao enredo mas é uma palavra feliz porque foi adicionada ao imaginário cultural do ocidente. De facto, amok é palavra indonésia que denomina um comportamento súbito, inesperado e homicida de alguém há longo tempo atormentado por depressão profunda [nada que não se veja com frequência nos USA]. Ora o amok que deu ao médico alemão foi a paixão súbita, avassaladora e inexplicável pela holandesa que o levou não a um impulso homicida cego mas sim a um suicídio a longa distância e altruísta para proteger in extremis a honra da sua defunta amada para que a sua infidelidade não viesse a ser conhecida.
      Na nossa geração (dos mais velhos) o termo amok fazia parte da linguagem comum, o que reflete a popularidade do livro de Sweig . A geração mais nova já não usa o termo, nem saberá o que ele significa.

      Eliminar
  5. É um livro que me despertou o interesse, até porque tem dois ou três autores de que gosto muito. Mas nos próximos tempos vou andar a revisitar o António Ramos Rosa, para mim o nosso maior poeta contemporâneo.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário