Palavras feias

Os espanhóis usam e abusam do calão no dia-a-dia e tornaram-se bastante desbocados. Também os norte-americanos largam um «fuck» a propósito de tudo e de nada sem que isso escandalize já ninguém. Os jovens portugueses tem constantemente um «Fogo!» a arder na boca – e sabemos que é um eufemismo, que o que têm na cabeça é a tradução do fuck que se diz do lado de lá do Atlântico. E, mesmo assim, um dia destes, um crítico literário mostrava-se chocado com o número de palavrões que encontrou num romance e já há uns anos me contaram que um dos jurados de um prémio literário não conseguiu avançar na leitura de uma das obras finalistas por causa do calão do primeiro capítulo; presumo que seria jornalista, crítico, académico ou escritor (quem mais é jurado de um prémio literário?) – e, nessa medida, atrevo-me a dizer que Philip Roth e as suas muitas – perdoem-me – «punhetas» não lhe agradariam (o que é grave, porque não se deixa de ler um livro só por causa das palavras feias). Na minha adolescência, a minha mãe estava sempre a dizer que as raparigas não deviam dizer «gajo», que era uma palavra considerada então exclusivamente para uso masculino. E, no entanto, a verdade é que, quando penso nesta maltosa que nos governa, «homens» ou «tipos» me parecem palavras demasiado brandas. «Gajos» fica-lhes decididamente melhor. Há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.

Comentários

  1. sim.

    existem, não apenas para "colorir" a vulgaridade dos nossos dias, mas para exprimir estados de espírito.

    é muito difícil sentirmo-nos "fodidos" e não dizermos um palavrão, especialmente a sós.

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  2. Que engraçado! Aquando da apresentação do meu livro em Setúbal, dizia o Júlio Conrado só ter encontrado três palavrões na boca do meu protagonista. «É pouco para um Presidente de Câmara do Porto» - disse ele.

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  3. Claudia da Silva Tomazi30 de outubro de 2013 às 03:43

    O Plácido Domingos realizou uma apresentação em que esteve a ser naplaudido duas horas e consta no Guiness em sendo recorde.

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    1. Não percebi, Cláudia.

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    2. Compreendo. “Naplaudir” é uma atitude lamentável. Resulta, inevitavelmente, em palavras feias. E então ao domingo, durante duas longas horas... A pessoa naplaudida perde a placidez – e, naturalmente, desata a proferir impropérios.

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    3. Obrigado JJ

      Eu, repito eu, estou sempre a aprender, e digo eu porque se repararem neste blogue raramente alguém tem dúvidas, o que, se por um lado é óptimo (é tudo gente sabedora) por outro lado lamento, pois sempre poderíamos aprender mais qualquer coisa e, neste caso, só questionando poderemos aprender..

      ...bem perguntava Scolari - e o burro sou eu?

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  4. Gostei muito do seu post de hoje, Maria do Rosário. O calão, o vernáculo, existe na vida real, emprega-se no linguajar e nos diálogos quotidianos; logo, deve constar das obras literárias que têm a presunção de expôr esse quotidiano, mesmo na sua forma vulgar de comunicação e de interjeição.

    A determinada altura desta sua pequena peça literária - sim, porque todos os seus posts são peças literárias, pertinentes e determinantes para discussão e comentários - a Rosário aponta um naipe de pessoas com as suas actividades que podem ser jurados. E questiona - quem mais pode ser jurado?
    Ora, digo eu, apontando esta omissão,porque é quase "obrigatório" ver-se como membro de júri o presidente da câmara ou o presidente da instituição que promove, na eventualidade, algum prémio literário, com a possibilidade, que lhe dá a atribuição de presidente do júri, de ter voto qualificado, de desempate.

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  5. E eu que não consigo dizer um único palavrão...

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    1. O que me choca nos livros não são os palavrões, o que me choca são os maus livros mesmo sem palavrões.

      P.Roth nem reparo nos palavrões tal é o grau em que me encontro absorvido enquanto o leio; 575 - nem um palavrão mas à página 55 já o choque do "mais do mesmo" me invadiu totalmente...

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    2. Recomendaria mau livro a leitura?!

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    3. Ó Cláudia

      Recomendaria mau livro a leitura?!

      O que é que isto quer dizer? é que, sinceramente, não percebo?

      E o burro continuo a ser eu...

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  6. Philip Roth não será o melhor exemplo dados os temas dos seus livros, onde até nos surgem aceitáveis.

    Por princípio não concordo com o palavrão, soa-me mal. O que não significa deixar de usá-lo em algumas situações especialmente frustrantes. Nesses tempos, talvez funcionem como um escape de descompressão que não me deixam assim tão melhor. Se os não dissesse? não seria grande a diferença, a situação não desaparece nem depende da força de arremesso.

    Os escritores podem ser o máximo, ser mesmo daqueles que mais admiro, mas se o palavrão é - para mim, claro - espesso e não esporádico, a obra perde-me beleza. Felizmente estou ausente de júris.

    O palavrão banalizado cai-me na fraqueza. Faz-me mal. Não mo ensinaram e pouco o ouvi em casa e nunca em expressões mais acintosas. Também não o ensinei e sempre o repreendi. Não me escandaliza, entristece-me que para dizer uma frase simples nela se misturem dois ou três palavrões fortes, como se, neles, uma condição da existência de conversa. Entristece-me mesmo. Parece-me sempre um bofetada no português.

    Mas sou arcaica. Velha. Pré-histórica. Com gosto:)

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  7. Claudia da Silva Tomazi30 de outubro de 2013 às 04:42

    Que responsabilidade teria o editor...

    Adequar-se ou adequar!
    De quando a melhor palavra teria ou não qualidade a sustentar civilizadamente a nova geração?!

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  8. Eu, quando quero dizer uma palavra feia, digo "bidé"!

    Boas leituras

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    1. Pechiché, para mim, soa ainda pior.
      (não sei se é assim que se escreve)

      Quando era miúda, havia, em minha casa, muita repressão em relação a palavrões. Os meus pais não os diziam e, se nós nos saíssemos com algum, era logo estalada das fortes. Uma maneira muito infeliz de educar, diga-se de passagem, longe de ser eficaz. Na minha adolescência, consolei-me: fartei-me de dizer palavrões, já que eram aceites e bem vistos no meio juvenil (foi logo a seguir ao 25 de Abril). Passada essa fase de "explosão", deixei de os dizer. Mas não me chocam. Como ando sempre em pesquisas e leituras medievais, acabo por me habituar. Experimentem ler cantigas de escárnio e mal-dizer ;) Ou Gil Vicente (embora ele já não seja medieval).

      Quem diz que os arcaicos e os antigos não diziam palavrões, Beatriz? Muito mais que nós ;)

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    2. Tem toda a razão Cristina. Uma palavrão não muda o mundo, o que o muda pode ser a situação que está por de traz dele, seja ele agressão contra o outro, desespero, ou simples fuga à harmonia e normalidade.

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    3. Eu diria que, quando a intenção é agredir (gratuitamente), todas as palavras são feias.

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    4. Olha que engraçado! Um detrás feito de truz. Serão os primeiros indícios de alzheimer ou vista cansada?

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    5. Muito mais? não creio. Também li essas cantigas e garanto que são coisas que entendo. Pode ser só suspeita, mas até penso que se inventaram novos. Ou serão novas formas de dizer os antigos.

      Sou arcaica sim:)

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  9. A mim em nada me chocam as palavras "feias" nos livros, os palavrões que se empregam para caracterizar a realidade de um diálogo. Se bem utilizadas, dentro do contexto e no seguimento do que se pretende transmitir, não tenho nada contra, nem nunca deixei de ler um livro por mais calão que utilize, por mais impropérios que se soltem da boca das personagens, como igualmente as escrevo em alguns textos que assim o merecem ou exigem, no entanto, não as digo no meu dia a dia, mas conheço-as e por vezes até me fazem rir... Cada livro deverá, no meu entender, ter a sua própria personalidade, cenário, gente que se peida ou arrota, fode ou é fodido e se é neste enquadramento que o livro segue, porque não chamar as coisas pelo nome? Alguns textos pedem o emprego de palavras mais feias, duras, cruas, incultas na boca de alguns, mas concluo que é isso que lhe dá depois aquele toque de personalidade. Claro que tudo no seu lugar, se o enquadramento for devido, nada a apontar...

    E temos, felizmente, grandes romancistas que não se detêm na utilização das mesmas, pois assim também se fabrica Literatura, ou não?

    Abraço.

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  10. Claudia da Silva Tomazi30 de outubro de 2013 às 06:32

    Poderia dizer simplesmente que cada editor tem capacidade a ferramenta que permite infiltrar ou filtrar (extravasar ou nem) de conteúdo que apriimorem do conhecimento necessário a Fortaleza em si (self) através da condição de recolher-se ao sentido primevo de ser; digo da antropologia que aplicado argumento.
    A Língua Portuguesa admitiria palavrão?!

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    1. E eis que, em duas horas apenas, Cláudia confronta os editores com três questões cruciais:

      Às 11:42 – “De quando a melhor palavra teria ou não qualidade a sustentar civilizadamente a nova geração?!”
      Às 12:47 – “Recomendaria mau livro a leitura?!”
      Às 13:32 – “A Língua Portuguesa admitiria palavrão?!”

      Dito de outro modo com as mesmas palavras: – perante o palavrão deve o editor adequá-lo, ou adequar-se a ele? Deve o gajo infiltrá-lo, através do livro, na Língua Portuguesa?; ou meter o bedelho, filtrá-lo, substituí-lo por melhor palavra que talvez sustente civilizadamente a nova geração?

      Entendo a questão, Cláudia. Mas não dou tanta importância ao caso. A Língua Portuguesa acumulou um estatuto histórico que lhe permite sobreviver e renovar-se tranquilamente. Veja por exemplo algumas das palavras com que Gil Vicente, lá nos primórdios do séc. XVI, fundou o Teatro Português:

      « Entra Domingas e diz:

      Eramá, esses bastardos / nada querem da labuta. / Muita parra, pouca fruta, / pouca ervilha e muitos cardos. /
      Triste vida fideputa! /

      Antes irei de bom grado / ver se acaso estou doente: / sempre o físico consente / em me passar atestado / e então folga toda a gente. /

      Ó filhos de Belzebú, / acaso perdeis o siso? /
      Aos livros limpai o cu, / ou metei-os no baú, /que os lerdes não é preciso

      (vai-se bailando)»


      Como vê, são da História estas qualidades da Língua Portuguesa. E essas qualidades têm sustentado civilizadamente muitas gerações.

      Não se preocupe: «Há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.»
      (Li isto algures... Onde foi?... Ah! Já sei!)

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    2. Podem-se escrever aqui palavrões? Estes não são de minha autoria, são de Fernando Esquio, um trovador galego de fins do séc. XIII e que faz parte do nosso Cancioneiro Medieval (aviso: pode chocar pessoas mais sensíveis):

      A um frade dizem escaralhado
      e faz pecado quem lho vai dizer,
      ca, pois el sabe arreitar de foder,
      cuid'eu que gaj'é de piss'arreitado;
      e pois emprenha estas com que jaz
      e faze filhos e filhas assaz,
      ante lhe dig'eu bem encaralhado.

      Escaralhado nunca eu diria,
      mais que traje ante caralho arreite,
      ao que tantas molheres de leite
      tem, ca lhe parirom três em um dia,
      e outras muitas prenhadas que tem;
      e atal frade cuid'eu que mui bem
      encaralhado per esto seria.

      Escaralhado nom pode seer
      o que tantas filhas fez em Marinha
      e que tem ora outra pastorinha
      prenhe, que ora quer encaecer,
      e outras muitas molheres que fode;
      e atal frade bem cuid'eu que pode
      encaralhado per esto seer.

      Pequena explicação:
      "escaralhado" pode-se traduzir por "impotente". A cantiga fala de um frade que se diz impotente, mas que se farta de emprenhar donas!

      E assim se divertiam os nossos antepassados

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    3. Ui!! Agora é que a Cláudia vai ficar baralhada!
      E a Beatriz, se calhar, fica zangaralhada, não?

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    4. Admito que é forte e temos de considerar que a mentalidade, no século XIII, era bem diferente da nossa. Mas a nossa extraordinária anfitriã gosta de "estômagos de jeito"...

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    5. Bem, Cristina sou brasileira e cá no Brasil afrodisiaco em.l. desnecessário de mais a mais a editora Maria do Rosário Pedreira descreve o possível a pátria portuguesa.

      Comover seria a intenção de Joaquim Jordão e digo vos que será um feito sem igual.

      Ao Almeida Sande vai o recado que Depardeau era bonitinho de Sirano e que a descoberta do paraíso (filme) que este senhor vem sentado numa caravela ficou muito cafona - digo- do tamanho da afronta.
      AH! Severino burro eu gosto e aqui no Brasil é jegue.
      Estamos conversados.

      Meu nome é Cláudia da Silva Tomazi

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    6. Ó c’os diabos! O que eu fui arranjar!

      De repente, por culpa minha, lá no imenso “Brasil afrodisíaco sem.l. desnecessário” ficaram em causa a Cristina, o Almeida Sande, o Severino, e até a própria Maria do Rosário – que, no entanto, vá lá ao menos, “descreve o possível a pátria portuguesa”.

      Na verdade, a minha intenção era, apenas, comover sem igual. Isto é: de facto o que eu desejava era, à semelhança de Maria do Rosário, descrever o melhor possível a pátria portuguesa.

      Mas, pelos vistos, a minha intervenção terá estimulado de tal modo as de Cristina, de Almeida Sande e de Severino que, lá no Brasil afrodisíaco, elas foram recebidas como muito cafonas, jegue, do tamanho da afronta, etc – e “estamos conversados”.

      Querida Cláudia, imploro-lhe: não nos faça essa desfeita de, definitivamente, “estar conversada” com estes amigos com quem, sem nos conhecermos pessoalmente, todos temos convivido nestas horas afrodisíacas por enquanto ainda possíveis neste cada vez menos extraordinário Portugal
      Perdão: – nestas horas extraordinárias por enquanto ainda possíveis neste cada vez menos afrodisíaco Portugal.

      Por favor, tenha presente que, como disse Maria do Rosário, «há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.»

      Posso dizer umas palavritas feias?
      Cá vão:
      Não! Não estamos conversados.
      Os nossos nomes são Joaquim, Cristina, Pedro, Severino.
      Portugal afrodisíaco em.l. desnecessário.

      Boa noite.
      Durma sobre este assunto.
      Amanhã cá estaremos para o desafrontar, esclarecer, suavizar…

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    7. ???
      À semelhança do Severino, pouco percebo das palavras da nossa Claudia, o que também me fascina pois obriga-me a um enorme esforço de compreensão (até parecer o jogo dos enigmas). Por esse motivo, admiro muito o J.Jordão não só porque é educado, simpático e escreve muito bem como realmente parece desvendar os enigmas da Cláudia com muita facilidade. E assim é porque me parece que ele, tal como eu e muitos outros, aprecia de facto a Claúdia (quem não sentiu a sua falta quando nos abandonou por uns tempos?), então Claudinha o que se passou para a mensagem não ter chegado ao Brasil? Gostamos de si e não, não estamos conversados.
      Cumprimentos a todos.

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  11. O uso corrente do palavrão ou palavra de baixo calão é muito interessante e revela a genial evolução do Homem e o polimento actual da humanidade. Na literatura infantil e juvenil com o argumento de não chocar as crianças e adolescentes, substituiu-se o baixo calão por grafismo: ossos, raios, crânios e o diabo a sete ficam à imaginação do autor.
    Por um qualquer estranho motivo nos primeiros anos das nossas existências evitam-se os palavrões. «Muito bem!» pensei eu sempre. À medida, no entanto, que se entra num mundo mais evoluído e complexo os autores refinam-se. Tornam-se amigos de todos os diabos a sete, até aqui reprimidos, censurados.
    É verdade que a vida é feita daquela espécie de esparregado (a que aqui chamaremos por causa das horas, de trampa), de filhos da mãe, de filhos de outros bastardos e de todos os parentes. Mas não existirão Eles e Nós, já desde que soltamos o primeiro arroto no berço, umas vezes sendo Nós, os infantes, outras vezes Vós ou Eles? Mas, se assim é, então porque desenhar ossos, crânios e raios, se os pudemos substituir já à nascença por falos, pequenas cabras e tudo o que a imaginação nos permitir.
    E que estranha evolução é esta que nos faz sermos menos meigos à medida que nos crescem os ossos dos pés, os músculos do meio e as genitálias não diferenciadas? Dores de crescimento? Injustiças tamanhas? Caminhos a terminar em precipícios?
    Da leitura das palavras feias da Rosário nem foi “gajo” (com mil raios e coriscos diria Haddock), o que mais me impressionou. Porque “gajo” pouco mais é do que alguém cujo nome se desconhece ou quer omitir.
    Foi sim, “maltosa”, que é uma espécie de caterva ou súcia pouco recomendável, uma espécie de fungo ou bactéria que rapidamente pode alastrar às nossas doces, santas, angelicais crianças, cujo futuro não é tão risonho assim já que se antevê passarem em poucos anos a filhos de todas as mães e todos os pais.
    Como ainda sou uma criança ingénua que ainda acredita que verga não significa mais do que isso, deixo-vos aqui um excerto dos meus Pensamentos de Benjamin:
    «Do nome dado à nave sabia que Catrina podia ter várias asserções: um diminutivo de Catarina — do francês Catherine —, um seio de mulher e ainda mais adaptado à circunstância náutica, uma espécie de roldana… ou aquilo que uma grande enciclopédia do futuro definiria de forma pouco clara mas sugestiva como «moitão de ferro manilhado ao chicote duma ostaga singela, onde labora pelo seio um amante de corrente a cujos chicotes manilham os cadernais das betas da ostaga, podendo assim içar-se a vêrga por um ou outro bordo a-pesar-de a ostaga ser singela».

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  12. Acho que também vou começar a dizer bidé...já que outros não consigo dizer e às vezes até gostava, para não parecer demasiado bem comportada:)

    Cláudia Moreira

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  13. Já que estamos em maré de palavrões nos livros, leio, em determinado capítulo, no livro que estou a ler:

    na carta que Flaubert escrevia a Turgueniev lê-se a páginas tantas: Maupassant escreveu-me ultimamente que em tres dias tinha dado dezanove fodas...

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    1. Ó Severino, o maior palavrão está no número "dezanove", mesmo para uma máquina como Maupassant.
      Pudera lá ser?!...

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    2. É o que efectivamente se poderá ler na pág. 167 do livro "Literatura e Fantasma" do espanhol Javier Marías.

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  14. Discussão muito interessante. Eu entendo que na literatura o palavrão deve ser utilizado se é incontornável; se não é, o efeito pode ser desagradável, indiciando preguiça do escritor, ou vontade infantil de dar nas vistas. Ora o escritor estará interessado em prender a atenção do leitor a outras coisas que não ao palavrão.
    Vejo-o como os temperos na cozinha: os necessários, na dose certa, fazem o prato apetitoso, errados ou em dose excessiva estragam-no.
    Também me fascina o emprego do palavrão na literatura medieval e no teatro de Gil Vicente; recordo, no entanto, que no primeiro caso nunca ocorre nas cantigas de amigo nem nas de amor, apenas nas de escárnio e maldizer, certamente pela mesma razão que Gil Vicente o emprega -- para criar efeito cómico, ou para tornar mais verosímeis certos diálogos.
    Então como agora, o palavrão é indispensável em certas circunstâncias. Por exemplo, quando Fernão Lopes conta como o fronteiro de Portel, vencido, entregou o castelo e dele saiu com a mulher:
    "Andai por aqui, boa dona, e partiremos bailando, vós e eu, ao som destas trombas, vós, por má puta velha e eu por vilão fodudo no cu."

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    1. Sim, os palavrões seriam considerados necessários para esse efeito cómico de que fala, para a sátira (que era o objetivo principal das cantigas de escárnio e mal-dizer), na época medieval e nos anos que imediatamente se seguiram. Como referi, as mentalidades eram diferentes. Depois, houve como que um polimento da sociedade, a partir do Renascimento (que, de certo modo, já se fazia sentir na época de D. Dinis; lembre-se que o próprio D. Dinis compôs cantigas de escárnio e mal-dizer, contudo, sem usar muito palavrão). Mas demorou até que o palavrão se tornasse tabu, pelo menos, em certas circunstâncias. A Reforma também iniciou uma fase de puritanismo, que atingiu o seu auge nos séculos XVIII e XIX. Ora, como a memória da humanidade costuma ser curta (recua a três ou quatro gerações), temos tendência para dizer que, antigamente, as pessoas eram mais puritanas e educadas, acreditando-se que esse puritanismo e essa educação seriam maiores, quanto mais recuarmos no tempo, sendo a malcriadice um fenómeno dos nossos dias.

      Quis, com os meus comentários anteriores, mostrar que isso não é verdade.

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    2. Estou completamente de acordo. No meu último romance concluído, cuja acção decorre de 1383 a 1415, uma das personagens comenta assim costumes e linguagem:
      "E ocorreu-me, apesar de eufórico como os outros, que pensarão um dia de nós os nossos vindouros, lendo as cantigas dos trovadores? Que soezes fomos, na linguagem e nas acções? Acaso se lembrarão de que o tempo não havia ainda polido suficientemente as acções e esmerado as palavras da poesia como os calhaus esquinados são rolados pelas correntezas? Ocorrer-lhes-á que outros divertimentos não havíamos, que a vida de nós todos, fidalgos e vilãos, era sofrida, breve, bruta — e não farta, deleitosa, requintada, como a deles será, em Deus confio?"
      (Não se trata de publicidade, as editoras não se interessam por mim.)

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    3. Muito interessante, esta sua passagem, embora eu me pergunte se alguém que viveu nessa época se ocuparia de tais pensamentos. Enfim, não é impossível, é legítimo pensar que sim. Em todas as épocas terá havido pessoas que se perguntaram o que os vindouros pensariam delas e da sua maneira de viver. Já na pré-história seria assim, caso contrário, os habitantes da altura não se teriam preocupado em deixar as suas marcas.

      Sabemos muito pouco da mentalidade dessa gente, apesar dos escritos que sobreviveram. Mas já o Professor Mattoso nos avisou que a sua interpretação é complicada, podendo induzir em erro (como, aliás, saberá). Nesse caso, nada impede que recorramos à imaginação.

      E, quanto às editoras não se interessarem por si, estamos no mesmo barco, jose-catarino. Apesar de já ter publicado, vejo-me tão mal tratada pela minha editora, que tento mudar, sem sucesso.

      A única solução é contínuar a escrever ;)

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