Uma questão de gratidão
Lembro-me de que alguns jovens escritores que publiquei pela primeira vez no início deste século convidaram para o lançamento dos seus livros de estreia professores que, segundo eles, tinham sido essenciais na sua formação. Alguns destes professores haviam sido docentes do ensino primário, estavam já distantes no tempo, mas, pela sua dedicação, nunca tinham sido esquecidos pelos seus ex-alunos. Sinto que isso acontece cada vez menos, não sei se por falta de gratidão dos escritores, se de facto pela falta de qualidade de muitos professores, alguns dos quais, sei-o por experiência própria, nem sequer gostam de ler. Encontrei, porém, no mural do Facebook de um poeta-professor, António Carlos Cortez, uma carta belíssima de Albert Camus que, depois de ser galardoado com o Nobel da Literatura, não esqueceu o mestre que acolheu aquele menino pobre que ele era e constituiu para ele um exemplo de peso. Acho que vale muito a pena lê-la e, por isso, transcrevo-a aqui no blogue.
Caro Monsieur Germain:
Deixei extinguir-se um pouco o ruído que me rodeou todos estes dias antes de vir falar-lhe com todo o coração. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que não procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da notícia, o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isto teria acontecido. Não imagino um mundo com essa espécie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda é para mim, assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser o seu grato estudante. Abraço-o com todas as minhas forças.
Albert Camus
Um dos meus filhos visitava com frequência a sua professora do ensino primário (designava-assim na altura) mas a memória mais forte que guardo é a de um professor que desferia reguadas violentas nas mãos dos alunos que respondiam erradamente às suas perguntas.
ResponderEliminarNo 1o ano do liceu fiquei muito ligado a uma professora, irmã de um colega meu, mas ninguém soube disso. É que fiquei perdidamente apaixonado por ela.
Gratidão, essa virtude tantas vezes esquecida nos dias que correm. Acompanha bem com humildade, também em desuso.
ResponderEliminarCom gratidão pela partilha de quão bela carta.
ResponderEliminarAM
Diria também eu, que a gratidão não existe na actualidade. Não sabem o que isso é...
ResponderEliminarTudo é "direito" tudo é "devido", logo não há lugar para se reconhecer a generosidade alheia, daqueles que a possuam e ajudam outros a fazer o seu caminho.
"É pago para isso", "é o trabalho dele", ouve-se a quem não possui essa qualidade de ser grato e também o que é a generosidade, quando se aflora o tema.
Professores generosos, se calhar também já são poucos... mal-pagos, mal entendidos e acusados dos mais variados males que se reflectem no seu trabalho e desmotivação.
Endim, é o que acho. Aliás hoje ainda haverá meninos pobres que precisam da mão amiga do professor? Ou apenas fedelhos pesporrentos a quem tudo é devido e lidam mal com as obrigações e as dificuldades?
Saudações cá da Cidade Morena, onde ainda há gratidão numas mãos postas que seguram uns pães ou um sacoo de arroz junto ao peito e nos chamam "pai". A muitos faria faltam virem para aqui, para a carência extrema e a miséria dos simples que vivem no mato e nas praias perdidas, para perceberem o que é humanidade, o que é ser pessoa.
Mais uma demonstração (e esta eu desconhecia) de que Albert Camus foi um homem de excelência, de grandes qualidades, artísticas e morais. Não é por acaso que um dos «20 livros da minha vida» é dele.
ResponderEliminarMuito lindo!!
ResponderEliminarQue carta tão bonita! Muito obrigada por no-la ter mostrado, Maria do Rosário.
ResponderEliminarTambém acho que é uma pena haver tantas pessoas que não leem um livro sequer. É algo que desde miúda não consigo entender.
Hoje em dia, quando descubro alguém que lê, fico tão contente que começo logo a tentar encontrar pontos em comum.
Mas, por outro lado, se houvesse muitas pessoas à minha volta a ler e a nutrirem-me a fome de conversar sobre livros, eu talvez não viesse aqui a este forum onde me sinto em casa.
Oh... que última frase tão linda.
ResponderEliminarÉ uma carta linda e como um líquido revelador da fotografia moral de Camus, escritor admirável. Desenha também o quilate daquele professor. Entre os dois não havia apenas a banal relação professor-aluno, parece salientar-se certa humanidade e mesmo bem querer.
ResponderEliminarMuitos são os alunos que passam por um bom professor, mas haverá sempre aqueles em que fica um rasto do mestre. Não sei efectivamente se algum dia serão gratos o suficiente para lho dizerem -vivemos uma era ingrata -, mas reconhecem-no, falam e pensam nele como modelo de alguma coisa.
É sorte nossa que o professor António Carlos Cortez tenha a carta no seu mural e a Rosário aqui a pespegue. Bem haja.