Escrever e pensar

Tenho a clara suspeita de que me transformarei um dia destes em Velha do Restelo, se já não o sou; olho para certas decisões modernas e cada vez gosto mais de modos de ver antigos, ainda que, para falar com toda a franqueza, entenda algumas vantagens em termos práticos que as minhas opções difcilmente trariam. Contudo, lembro-me de copiar à mão parágrafos inteiros e listas de nomes de reis e rios para os meter na cabeça, e resultava, bem como de estudar muitas disciplinas tomando notas (para isso, sobretudo, serviam os cadernos, e não para copiar o sumário do quadro). A minha letra, de tanto que escrevi, foi-se ela própria parecendo mais comigo. Quando anoto o original de um autor, a minha caligrafia reflecte a minha zanga ou a minha alegria com o que leio, às vezes tanto como as próprias anotações... Há estudos que mostram que o papel é um suporte melhor do que o monitor porque facilita a localização e a memorização. Mas, sei lá porquê, a moda agora é a «desmaterialização» e, por isso, os alunos que este ano fizerem provas de aferição (dos 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade) fá-las-ão exclusivamente no computador; os exames do secundário do próximo ano serão também feitos longe do querido papel. Percebo evidentemente o argumento ecológico (e o papel está caríssimo), o de quem corrige não ter de decifrar letras difíceis e o da correcção e atribuição de pontuação nas respostas ter muito provavelmente a ajuda preciosa da máquina, mas... Então a letra já não é importante? E escrever com a nossa mãozinha não ajuda a pensar? E o computador não se substituirá aos alunos na correcção de erros ortográficos e no completar de frases e palavras? Nem sei o que pensar.

Comentários

  1. Sou questionado, com alguma regularidade, porque é que leio tanto (tanto, dizem eles porque nem é assim tanto)-mas que é que ganhas com isso-? E tenho grande dificuldade em explicar a estes "empreendores", cujo único interesse na vida é o dinheiro, mesmo grande dificuldade, porque naquelas mentes ler não serve para nada e o papel deveria acabar pois não faz sentido...nem sei o que diga, sinceramente.

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  2. Compreendo perfeitamente o que diz, Maria do Rosário.
    Mas talvez esta juventude aprenda melhor nos ecrãs tal como nós aprendemos melhor nos cadernos de papel, tão só pela força do hábito.
    No entanto, os ecrãs, porque são invadidos por notificações, publicidade e outras porcarias que desviam a atenção, tendem a fomentar o consumo de informação lúdica e superficial o que, quanto a mim, é impeditivo de uma aprendizagem consistente das matérias. E isto é que acho preocupante.
    Eu, por mim, continuo a usar agendas em papel porque com elas tenho uma visão mais ampla da semana e do mês e sempre descanso os olhos dos ecrãs. Agendas, cadernos de notas e livros, pois claro.

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  3. Eu também cresci a copiar textos para o caderno para treinar e caligrafia e o vocabulário. Agora é tudo muito mais intuitivo, se dás erros no Word ele corrige logo de seguida quase automaticamente. Claro que todos os alunos passam de ano e quando lhes pedimos para escrever algo, é com cada erro ortográfico que eu fico espantado!

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  4. Só tontos, irresponsáveis e ignorantes é que determinarão, ou sequer pensarão, no fim do papel!
    O argumento ecológico é falso! Tão falso quanto a substituição por aparelhos tem um impacto muito pior em termos ecológicos - quem não queira entender ou tem interesses no sector ou é desinformado.
    Quando tudo falha, e falha muitas vezes, se não há apontamentos no papel, ficamos completamente desprovidos de meios!
    No meu trabalho, lido muito e sobretudo com tecnologia e informação, anoto tudo nos meus caderninhos (e muitos colegas, de bom senso e porque sabem, o fazem!). Os apagões ou o desaparecimento dos apontamentos e informação digitalizada, a falta de rede, não haver energia, etc. tudo isso pode impedir o recurso exclusivo aos referidos aparatos e meios, pelo que quem não use e não saiba usar o caderninho ou bloco de notas, fica inútil!
    Aí num projecto em que trabalho, compraram-se 40 T de polvo, 12 de choco e 7 de peixe diverso.
    Sempre que houve entregas, eu apontei no meu caderno, pesagem a pesagem.
    O responsável pela operação apontou tudo no seu não-sei-quê (ipad ou coisa que o valha).
    Entretanto por uma razão que não entendi mas tem a ver com o uso, perdeu toda a informação, pura e simplesmente!
    Aflição e desespero... não, eu tinha tudo apontado, o que se comprou em cada dia e a quem!
    Digam lá que o papel é para obliterar!!!!

    Nem nada!
    Saudações papeleiras cá da Cidade Moderna.

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  5. Assunto este muito, muito interessante e que daria 'pano para mangas'.
    E penso que uma conversa em 'carne e osso' - desde que seja bife do lombo e ossos com tutano - pode ser muito bom!
    Na minha opinião, estamos numa ocasião de mudança, de irreversível mudança, como já existiram outras.
    Já sou "antiga", eu sei. Contudo, aquela situação de antigamente, de escrever 100 vezes num caderno a mesma palavra para corrigir o erro que demos, ou escrever 10 linhas, sempre iguais, para memorizar qualquer coisa, tenho as minhas dúvidas...
    De uma coisa tenho a certeza: para quem começa agora a aprender - uma criança - a imagem é, infinitamente, mais atractiva do que uma página branca com linhas pretas. Qualquer aprendizagem através da imagem é mais rápida e conserva-se com muito mais nitidez nos veios, nas volutas e espirais da nossa memória. Está comprovado.

    Agora de uma coisa eu também tenho a certeza: os meios de aprendizagem começam a ser diferentes e muito mais eficazes para se chegar à leitura. Aquela leitura "antiga" da tal página branca com linhas pretas e sinais que se chamam letras ou algarismos. A compreensão também se desenvolve com mais rapidez através da imagem e a busca de algo mais completo (a tal leitura) vai aparecer.

    E não podemos omitir: a tal mudança, com as suas vantagens e despropósitos, está aí ! Até à próxima mudança, daqui a 1 000 anos, coisa que não podemos prever qual será, mas será. Tal como tem vindo a dizer Matt Ridley em seus maravilhosos livros científicos.

    ALEA JACTA EST ...

    Cristina Carvalho

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  6. Sou um mau exemplo, usei a escrita manual durante tanto ano. Mas quando o computador me levou por seus caminhos, quase a abandonei. Hoje, a escrita digital é-me mais fácil e funcional, corrijo-a melhor. Mas há ainda lugares da mão, sobretudo não morrem os que o afecto prefere. Lembro-me por vezes de uma passagem em "Tanta Gente, Mariana" onde a personagem afirma, numa espécie de monólogo interior, acerca de postais que recebia em branco e de vários lugares, que ao menos durante dois minutos (os de escrever o endereço), alguém tinha pensado nela enquanto desenhava as letras. É muito bonito que alguém desenhe arabescos para nós querendo dizer.
    Os garotos dão mais erros, é certo. Mas os adultos também. Mais que culpar a tecnologia, parece haver certo laxismo e falta de brio na escrita. Ter-se-á tornado coisa de pouca monta, não sei. Preocupa-me mais a falta de reflexão e o imediatismo que cultivam e em que vivem imersos. Mas este não é o nosso tempo (os velhos do Restelo também têm o seu peso e importância, mas noutros sectores). E, de algum modo outro, hão de resolver-se.

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  7. Somos animais de hábitos e quantos mais anos arrastamos os nossos hábitos, mais difícil é largá-los. E para boa parte de nós, são muitos anos de papel e caligrafia.
    No entanto, escrever no computador tem várias vantagens, desde logo a rapidez e melhor qualidade na transmissão da mensagem, de que já se falou. Mas há também outras vantagens para quem escreve, relacionadas com a maior rapidez e a melhor nitidez na revisão do que escreve. Em vez de fazermos vários rascunhos cheios de rasuras, e por vezes até recopiarmos textos inteiros, a facilidade que temos de apagar e substituir texto permite avançar muito mais rapidamente e melhor, até no raciocínio - porque o texto está sempre limpo, e não perdemos o fio à meada (ou podemos usar track changes, e manter várias versões em simultâneo).
    Eu uso imenso a escrita para me ajudar a pensar e escrevo diários desde que me conheço, em parte para me pensar e conhecer melhor. E penso muito melhor a escrever ao computador 😊.
    As mudanças são inevitáveis, é natural procurarmos ferramentas para nos facilitar a vida. Mas sou uma optimista: acredito que apenas sobreviverão aquelas que nos trouxerem mais benefícios do que nos causarem prejuízo, pelo menos a longo termo. E a vida de cada um de nós, não é suficiente longo termo para aferirmos completamente o que advirá desta desmaterialização. Tenhamos esperança nos mais novos e nas suas experimentações com o que é diferente dos nossos hábitos.
    Filipa

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  8. Os meus professores iniciais só mandavam escrever n vezes uma palavra ou uma frase nos casos em que tínhamos cometido um erro. Servia simultaneamente de correção e de punição.
    Agora que escrevo quase tudo no teclado ando a tirar uma conclusão estranha. Quando a mão produzia as letras e as palavras era como se ela própria estivesse a "pensar", eu cometia poucos erros e quase não precisava de paragens. Na máquina cometo erros que tenho que corrigir e vejo-me forçado a alterar frases, o que não ocorria quando escrevia à mão. Talvez seja consequência da velocidade de execução e do conforto em saber que posso corrigir com facilidade.
    O que mais me impressionou até hoje nos jovens que fazem tudo em computador foi solicitar a transposição de uma inovação para uma forma escrita e o meu colaborador não ser capaz de o fazer.

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  9. O que mais me impressiona nos jovens que fazem tudo no computador... é a facilidade com que ficam sem a informação que julgam garantida...
    Pois!
    Não nego as facilidades e o que o computador tem de bom, pelo contrário, ou como poderia estar aqui a comentar em tempo real?
    Mas, pensar que o papel/escrita manual se torna inútil, repito: é insensato!
    Todos os dias o constato.

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  10. O queria perguntar era se
    track changes - será uma palavra em mirandês?

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  11. Talvez o pensamento se torne obsoleto porque todos os novos algoritmos pensarão por nós?

    Carpe diem!
    Russell Boncey, Fontainebleau

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  12. Estamos em fase de mudança. Longe vão os tempos em que a escrita era consolidada pela execução de cópias, pela repetição de textos e esse parece ser o melhor método de automatização. O cérebro e a mão ligados num processo demorado mas essencial para a aprendizagem da escrita. Não existindo, adeus escrita manual. A simples assinatura começa a ser diferente à medida que o tempo passa e a esferográfica incómoda não obedece aos nossos gestos, e traça uma representação ligeiramente diferente . São os efeitos dos novos tempos. Pois se até já existe a assinatura digital! Nós, os que somos de um tempo mais antigo continuamos a escrever, notas, lembranças, textos, à mão. O papel com o qual se imprimem os nossos amados livros, é-nos indispensável e os alunos nas escolas ainda o usam e nele escrevem, em folhas A4 arquivadas numa pasta com as suas letras mais ou menos perfeitas.
    Dos traços pré-históricos, até hoje, a História ficou registada pelo uso da mão de seres humanos. E se hoje as novas tecnologias nos facilitam a escrita e a leitura, também nos deixam sem material de apoio se um qualquer acidente acontece.
    Sou pela escrita à mão, mas isso sou eu que pertenço a outra época. O nosso rasto ficará visível por muito tempo, nas paredes das cavernas, nos livros escritos por monges, nos nossos escritos. Já o rasto digital, além de ser igual para todos, é tão frágil e tão confuso, tão indistinto, tão pouco seguro, que certamente a escrita manual existirá sempre, defendida por um conjunto de bravos resistentes.

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  13. Que conversa estranha estamos tendo neste blog digital hoje!
    Talvez todos os 'escritores de resistência manual' devam partir para viver juntos no tipo de ilha de Ford que Huxley descreveu?
    Receio que isso não seja mais possível em nossa era do satélite digital, no entanto, ou apenas no tipo de estado de sonho que se pode encontrar em uma manhã submersa?

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  14. Estou a lembrar-me das notas escritas à margem do texto de um livro, que muitos de nós fazemos, e das assinaturas de "posse". A este pormenor, possuo alguns livros de Marcello Caetano (Direito Administrativo), assinados por ele, com dedicatórias, e é um prazer imenso sentir, passadas tantas décadas, a "rugosidade" da letra, aposta com caneta de tinta permanente, tão permanente que ainda lá está... por vezes, interrogo-me, quando eu partir, para onde "voarão" essas obras...

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  15. Tenho noção de que desenvolvi e aperfeiçoei a minha escrita (não a caligrafia, que essa está cada vez pior!), a escrever longas cartas às minhas primas que moravam em Lisboa e que só via uma vez por ano, a copiar letras das canções e poemas para cadernos, a transcrever, para um caderno novo, as receitas de bolos e de sobremesas e a escrever páginas e páginas de diário, para organizar sentimentos e pensamentos, um hábito que ainda conservo. Escrever, como referiu Juan José Millás no seu livro O Mundo, a escrita, como um bisturi eléctrico, "abre feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo".
    Quando escrevemos, verbalizamos a matéria emocional, tornamo-la palpável e clara, iniciando um processo de auto-análise, ao mesmo tempo doloroso e libertador. Assim nos vamos também conhecendo.

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  16. Defeito de profissão, confesso que não sei como se diz em português, e uso-o tão naturalmente em inglês que até me esqueço que estou a misturar línguas. O que faço imenso, by the way…

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  17. De qualquer obrigado pela sua simpática resposta.

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