O país mais fechado do mundo
Tenho um amigo estrangeiro que desde jovem «coleccionava» países; ou, melhor, estava sempre a partir para lugares que não conhecia senão dos mapas, muitos deles com nomes e localizações estranhos. Foi nesse contexto que viajou para as ilhas Feroe ou Tonga, por exemplo, mas também para a Coreia do Norte, que é talvez o país mais fechado do mundo. Lá, contava ele, andava para todo o lado acompanhado por três homens: o seu intérprete (chinês-inglês); um tipo que percebia inglês e que estava ali para garantir que o intérprete não dizia mais do que devia; e um suposto guarda, que se assegurava de que os outros dois não perguntavam ao estrangeiro como poderiam ir-se embora dali... Mas, tanto quanto sei, este meu amigo nunca saiu da capital, onde viu todos os museus dedicados ao «Dear Leader» e ao «Big Chief», nos quais havia presentes oficiais de todas as latitudes, até, calculem, um galo de Barcelos. Há, porém, quem na Coreia do Norte tenha conseguido passar mais tempo e sobretudo em lugares aonde não ia um estrangeiro há sessenta anos... José Luís Peixoto escreveu sobre essa sua visita no livro Dentro do Segredo, que acaba de fazer dez anos de publicação. O aniversário é celebrado com nova edição, agora com capa dura e fotografias inéditas feitas pelo próprio autor.

Li este livro na altura em que saíu e da remota memória que guardo é que foi uma desilusão, talvez porque as expectativas seriam altas.
ResponderEliminarContudo, sabemos (quem é leitor) que os livros se nos varrem passado um certo tempo, salvo se realmente gostarmos muito (esses conservam-se para a vida). Talvez volte a relê-lo.
Por exemplo agora estou a reler STONER de John William, um livro de que tinha gostado imenso em 2017 e estou novamente fascinado (mas já não me lembrava praticamente de nada).
Li "Dentro do Segredo" há uns anos e adorei! Ao contrário do Extraordinário Seve, a leitura deste livro superou as minhas melhores expectativas! Fiquei, até, muito agradecida ao José Luís Peixoto, porque senti que tinha viajado pela Coreia do Norte, embora, claro, com os sensores e os olhos dele, mas ainda assim.
ResponderEliminarHá muitas histórias, umas contadas em livros, outras não, a propósito destes países “fechados” e peripécias relacionadas com o pretendido controle sobre o cidadão. Lembro de uma, ocorrida talvez ali por 1976 na Bulgária, no tempo da “Cortina de Ferro” e antes da queda do muro de Berlim.
ResponderEliminarFoi num campeonato Europeu de Pesca Submarina, a cada equipa dos países participantes foi imposto um “guia turístico” que era obviamente um controleiro que seguia as conversas das selecções, sobretudo entre elas e com os búlgaros, além dum intérprete.
Sempre criativos e algo relapsos a “contróis”, nós os portugueses, tínhamos na nossa selecção dois atletas bem castiços e engraçados, o meu velho e grande companheiro João António Boavida, aliás o JB, e, o já falecido e de boa memória, pescador profissional sesimbrense, Custódio “Maluco” mais conhecido entre nós pelo “Parafuso”, pela sua invulgar técnica que consistia em mergulhar rodopiando, que ele justificava porque ao descer assim ia vendo tudo em 360º.
Estes dois cromos, começaram a falar entre eles de uma forma completamente inventada, mas que soava a algo de eslavo, com muitos ek e ok no final das palavras, perfeitamente disparatadas. Chamaram áquele idioma “australovaco”. De tal modo que chegou o JB a pegar numa viola e cantar em “australovaco” “As pombinhek da Catrinovak”, com refrão, rima e tudo! Um sucesso!
Porém, e como objectivo conseguido, ficaram o “guia” e o intérprete de tal modo confusos, que os mudaram por 3 vezes, pois ninguém (creio que nem os próprios) entendiam o que aqueles dois malucos conversavam animadamente! Os outros portugueses só se riam, menos o chefe da delegação que muito estimávamos, mas na época era “vermelho” como convinha, e não por ser benfiquista…
Ficou famosa a coisa, até porque muitas das outras selecções se aperceberam da partida e seguiam atentamente o desespero de quem tentava controlar os dois falantes de australovaco!
Saudações austrais, cá da Cidadek Mornenak!
Mas que bela história! Obrigada pela partilha.
ResponderEliminarConfesso que nunca me interessei por literatura de viagens, mas tenho consciência que é uma "falha" na minha jornada literária. Considero José Luis Peixoto um escritor talentoso, principalmente na construção de narrativa em prosa poética e tenho alguma curiosidade em perceber como se materializa esse construção num livro que aborda uma viagem à Coreia do Norte.
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