Excerto da Quinzena
O Senhor não era um tirano. Ah, não! Era um Senhor delicado, sensível, bem parecido, que queria que tudo fosse perfeito e toda a gente feliz, Claro, devia ser ele a fonte dessa felicidade e perfeição.
Mas, a seu modo, era um poeta. Tratava os convidados com magnanimidade e os criados liberalmente. Contudo, era astuto e muito sensato. Nunca se apresentava ao pessoal como patrão. Tinha tudo debaixo de olho, como um jovem Hermes de olhos azuis e astutos. E os conhecimentos que possuía eram, realmente, admiráveis. Era admirável o que sabia de vacas de Jersey, de fabrico de queijo, de como cavar fossos e levantar vedações, de flores e jardinagem, de navios e navegação. Era uma fonte de sabedoria sobre tudo; e comunicava ao pessoal estes conhecimentos de uma forma estranha, semi-irónica e semi-solene, como se, realmente, pertencesse ao mundo superior e semi-real dos deuses.
D. H. Lawrence, «O Homem Que Amava Ilhas», in Amor no Feno e Outros Contos,tradução de Maria Teresa Guerreiro
Ao domingo (aquilo era muito antigo) os almoços prolongavam-se até às cinco da tarde; se Maria Rosa se esquecia que devia levantar-se primeiro, ninguém se mexia, e os jarrões da China, aos quatro cantos da sala, pereciam convivas empanturrados de dobrada com feijão branco ou carne assada para quem queria outra coisa. Eram almoços abundantes, com muito açúcar e bebidas fortes. Só mais tarde é que se serviu coca-cola, que tinha os seus adeptos porque "limpava os canos". As criadas já não acabavam o resto dos copos nem eram gulosas como dantes. Faziam dietas e sabiam muito de cremes faciais e de fibras, que comiam ao pequeno-almoço, em vez das tigelas de café com sopas de pão fresco. Às vezes, o duro era para os patrões, salpicado de água e metido no micro-ondas.
ResponderEliminarFoi um excerto de "A Ronda da Noite", de Agustina Bessa-Luís.
ResponderEliminarDo lapso na indicação, peço desculpa.
Ao meu antecessor
ResponderEliminarPode dar-nos uma pista do autor?Estou curiosa!
Eu fui educado à antiga, e nunca achei que um dia me ordenassem que matasse uma mulher. Nas mulheres não se toca, não se bate, não se causa dano físico e evitasse ao máximo o verbal _ elas não correspondem a esta última proibição. Além do mais devemos protegê-las e respeitá-las e dar-lhes passagem, defendê-las e ajudá-las se levarem uma criança na barriga ou nos braços ou num carrinho , oferecer-lhes um assento no autocarro e no metro, resguardá-las até ao andar na rua, afastando-as do trânsito ou do que noutros tempos se lançava das varandas, e, se um barco soçobra e ameaça ir a pique, os botes são para elas e para os seus pequenos rebentos (que lhes pertencem mais do que aos homens) , pelo menos nos primeiros lugares.
ResponderEliminarTOMÁS NEVINSON - Javier Marías - Tradução de Vasco Gato