Excerto da Quinzena

– Deixo-vos isto aqui porque o tempo atraiçoa


e atraiçoa de facto, as nuvens sempre a mudarem, o catavento da igreja indeciso


– E agora?


a minha mãe sentada, a olhar para ontem no banco quase sem pintura a que faltava uma tábua, sempre na companhia de uma dúzia de pombos de mãos atrás das costas, com um rebuçado escondido lá dentro, às vezes, mesmo crescida, tinha a certeza de ir encontrar o meu pai na rua, igualzinho ao que me lembrava dele mas o aspecto de quem se aproximava alterava-se de súbito, pumba, e nunca era ele, outras feições, outros gestos, outra roupa, nenhum aceno claro, nenhuma careta cúmplice, nenhum sorriso sequer, mirava-me surpreendido


– Aconteceu-te alguma coisa garota?


de modo que eu a virar logo a cabeça, envergonhada


– Desculpe


isto aos doze, treze, quinze anos, na volta da escola, isto quando comecei a trabalhar


– Dizem que o teu pai é rico


uma fábrica, duas fábricas, laboratórios, camionetas, dúzias e dúzias de empregados, a Dona Virgínia


(- Sou a Dona Virgínia, sou a Dona Virgínia)


para a minha mãe


– E deixou-as assim?


e depois eu o emprego numa loja, e depois eu o emprego numa creche, e depois eu o emprego num escritório, e depois um colega bom rapaz, e depois outro colega bom rapaz, por sinal ruivo (há sempre um ruivo em cada escritório, como há sempre um gordo) e depois não era aquilo, não era aquilo, não era aquilo, e depois eles, sem entenderem, tentando agarrar-me o braço


– Deixarmos de nos


(como há sempre um de óculos)


– Deixarmos de nos ver porquê?


António Lobo Antunes, O Tamanho do Mundo

Comentários

  1. Bom dia com alegria e pavilhões intangíveis

    O meu parco contributo para esta montra Leya:

    "... a beatitude não subsiste apenas na proximidade de Deus, mas numa reunião compacta dos iguais."

    Massa e Poder - Elias Canetti, editado pela Cavalo de Ferro

    Saúde, Sorte e Bom final de semana
    cp

    PS: Faz parte dos meus objectivos para a reforma ler livros do Lobo Antunes, mas confesso que ainda não lhe apanhei o jeito de captar os fluxos de consciència. My bad!

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  2. Só agora compreendo o que se passa em relação ao sono _ Enquanto na vida lá fora concebemos a noite como uma forma de preparar o dia, aqui dentro passamos o dia a preparar a noite. Passar a noite bem é o grande objectivo. As raparigas interessam-se mais pelo nosso descanso da noite do que pela actividade do dia. Salomé, duas vezes mais enérgica do que qualquer outra, a sólida máquina Bosch, entrou no meu quarto bem cedo, e não vinha só. Vinha acompanhada por duas principiantes que eu nunca tinha visto.

    Misericórdia - Lídia Jorge

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  3. Lemos três linhas e percebemos que se trata de Lobo Antunes.
    Li muito Lobo Antunes nos anos 90.

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  4. Dizíamos que Lourença lia muito, nas horas tresnoitadas, com uma candeia à cabeceira; ou durante um trabalho de agulha, que deixava nos joelhos para acudir às páginas dos romances. A mãe censurava-a, mas sem muito empenho. Era natural de Madrigal, e o nome dela, Fernández del Campo, agradava logo pela fantasia cortesã. As letras eram aceites como ideais da sociedade rural em que Lourença nascera.
    Agustina - Memórias Laurentinas

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  5. Entre os melhores azulejos estão os de Santarém, muito vivos, muito honrados de realismo, com as feiras de gado e a corrida dos campinos a reunir as reses. Está entre eles um maioral, brilha o peitilho das camisas e as meias brancas. Uma poeira baça sobe do chão e apaga os cascos dos cavalos.
    Agustina Bessa-Luís , As Estações da Vida , Relógio D Água, 3.ª Edição Junho de 2019, págs. 38 e 39

    AM

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  6. Obrigada por este bocadinho do novo livro de Lobo Antunes que por acaso ainda não comprei, mas tomara já estar a lê-lo.

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  7. Quando os anos passarem
    sobre esse teu desgosto
    vais ver que te curaste
    não de vez mas um pouco

    pois o que a gente busca
    nas dobras do amor
    é a cura para a morte
    que não tem consolo

    e por falar em f' fridas
    até as que mais doem
    acabam por fechar
    só ela vence o corpo

    E o autor é?

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