Excerto da Quinzena

Sinto-me completamente esgotado, e esgotadas as reservas de oxigénio intelectual e físico que pude armazenar com os dois anos que consegui estar fora. O meu passaporte já vai fazer três anos de novo, sem um carimbo salvador para onde quer que seja! A exaustão da exaustão leva este gato vadio a pôr a pata no ar e, por uma vez na vida de um gato, a olhar insistentemente para si, como única chance de salvação. Sei que a Menez, também tomada de angústias, vendeu um guacho da Maria Helena, o que vai proporcionar-lhe uma saída daqui para fora. Seria tão grave para si como o é para mim pedir-lhe que me enviasse, me desse, um guacho libertador, talvez por mais dois anos, talvez para sempre, desta morte no vácuo. [...]


Carta de Mário Cesariny a Vieira da Silva de Julho de 1968, in Gatos Comunicantes: Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952-1985

Comentários

  1. Bom dia com alegria (ou outra coisa qualquer)

    Retirado duma leitura distópica e presciente(?):

    "A religião talvez nos faça amar Deus, mas nada é mais forte do que ela para nos fazer detestar o homem e odiar a humanidade."

    2084 - O fim do mundo, Boualem Sansal (Quetzal Editores)

    Saúde, sorte e boas leituras
    cp

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  2. É engraçado ler o Cesariny a mencionar a Menez, artista que, em 1970, desenhou este retrato do surrealista e faz parte do espólio da Colecção de Arte Moderna da Gulbenkian:

    https://gulbenkian.pt/cam/works_cam/retrato-de-cesariny-apontamenteo-156862/

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  3. E achou-se de novo no corredor, agora mais adiante, com um cheiro a comida nas narinas, ouviu conversas vagas, uma (que devia ser) voz de mulher, talvez da rapariga que lhe abrira a porta da rua. Era ali a cozinha. Lembrou-se daquele cheiro: açorda de coentros, ovos escalfados por cima, azeitonas, talvez uma sardinha assada mergulhada no caldo onde boiavam bollhas de azeite e o alho esmagado no almofariz. Um fumo de calor, cheiro bom a comida quente, risos, vozes baixas em volta. A família. A casa.
    Luiz Pacheco - Exercícios de Estilo

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  4. "Zora tem a propriedade de ficar na memória ponto por ponto, na sucessão das ruas, e das casas ao longo das ruas, e das portas e das janelas das casas, embora não apresentando nelas belezas ou raridades particulares. O seu segredo é o modo como a vista percorre figuras que se sucedem como numa partitura musical em que não se pode mudar ou deslocar nenhuma nota. ... "
    As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Leya Teorema , 14.ªEdição, tradução de José Colaço Barreiros pág.24

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