Excerto da Quinzena
– És feliz? – perguntou-lhe inopinadamente a senhora.
O filipino não era desses que se perturbam com uma pergunta íntima e inesperada.
– Sou – respondeu logo, sem hesitar. – Quando a senhora também o é.
O sol e a luz do lume brilhavam no quarto. Oscilava na parede um raio luminoso, que Alison observava, enquanto ouvia distraída o monólogo do rapaz.
– O que me custa compreender é que se saiba – dizia ele. Muitas vezes principiava a conversa por uma alusão vaga, misteriosa, como esta. Era preciso esperar um pouco para apreender o sentido das suas palavras. – Só depois de estar muito tempo aqui- é que percebi que a senhora sabia. Agora creio que toda a gente… excepto o senhor Sergei Rachmaninov.
– De que é que estás a falar?
– Minha senhora, acredita mesmo que o senhor Sergei Rachmaninov saiba que uma cadeira é uma coisa sobre a qual nos sentamos ou que esse relógio marca as horas? E se eu tirar um sapato e lho meter à cara, dizendo: «Que é isto, senhor Rachmaninov?», o senhor pianista será capaz de responder, como qualquer pessoa, «É um sapato»? Custa-me tanto a crer!
Carson McCullers, Reflexos nuns Olhos de Oiro
ResponderEliminar"Nós, mulheres, fazemos existir, mas não existimos. Fazemos viver, mas não vivemos. Fazemos nascer, mas não nascemos. Há dias conheci uma mulher do interior da Zambézia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação, dos guerreiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandantes dos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é de um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez.
Essa mulher carregou a história de todas as guerras do país num só ventre. Mas ela canta e ri. Conta a sua história a qualquer um que passa, de lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios, e declara: os meus quatro filhos sem pai nem apelido são filhos dos deuses do fogo, filhos da história, nascidos pelo poder dos braços armados com metralhadoras. A minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação sexual."
Paulina Chiziane, Niketche - Uma História de Poligamia, 2002
Muito obrigada pela partilha. Que excerto incrível!
ResponderEliminarCaramba, Cidália, tenho de ler esse livro.
ResponderEliminarE só não compro o da Carson McCullers porque já o li, e também vi o filme com o Brando e a Liz Taylor em estado de graça.
Obrigada a ambas.
Boas leituras! 📚
Carson McCullers - que escritora fantástica!
ResponderEliminar"A morte é sempre a mesma, mas cada homem morre da sua própria maneira. A.de J.T.Malone começou de modo tão simples e vulgar que, durante algum tempo, ele confundiu o fim da vida com o começo de uma nova estação. O inverno do seu 40°.aniversário foi excepcionalmente agreste......."
ResponderEliminarCarson McCullers, "Relógio sem Ponteiros"
Acresce que as estéticas se ligam intimamente à temporalidade, à compulsão que impele o criador humano a querer vencer a sua corrida contra o tempo e a obliteração da morte.
ResponderEliminarGeorge Steiner - Gramáticas da Criação
Tradução Miguel Serras Pereira
Bom dia com fim-de-semana, perdão, alegria
ResponderEliminar“We were keeping our eye on 1984. When the year came and the prophecy didn't, thoughtful Americans sang softly in praise of themselves. The roots of liberal democracy had held. Wherever else the terror had happened, we, at least, had not been visited by Orwellian nightmares.
But we had forgotten that alongside Orwell's dark vision, there was another - slightly older, slightly less well known, equally chilling: Aldous Huxley's Brave New World. Contrary to common belief even among the educated, Huxley and Orwell did not prophesy the same thing. Orwell warns that we will be overcome by an externally imposed oppression. But in Huxley's vision, no Big Brother is required to deprive people of their autonomy, maturity and history. As he saw it, people will come to love their oppression, to adore the technologies that undo their capacities to think.
What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egoism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared the truth would be drowned in a sea of irrelevance. Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture, preoccupied with some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy. As Huxley remarked in Brave New World Revisited, the civil libertarians and rationalists who are ever on the alert to oppose tyranny "failed to take into account man's almost infinite appetite for distractions." In 1984, Orwell added, people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we fear will ruin us. Huxley feared that what we desire will ruin us.
This book is about the possibility that Huxley, not Orwell, was right.”
― Neil Postman, Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business
Saúde, Sorte e Boas Leituras
cp
Eu é que agradeço a existência de um espaço onde é possível partilhar palavras e paixões.
ResponderEliminaroh extraordinário cp, em finlandês era mais fácil...
ResponderEliminarTenho esse livro. Gostei bastante.
ResponderEliminarrectificação:
ResponderEliminarÓ Cp (chamamento);
Oh que pena (interjeição)