Excerto da Quinzena
De súbito, respirou fundo e disse:
– Isto faz-me lembrar...
[...] Que lhe fará isto recordar?, perguntei a mim mesmo. Será o pato na loja de ferragens? O cavalo do bar? O rapaz que chegava aos joelhos de um gafanhoto? Far-lhe-ia lembrar o ovo de dinossauro que encontrara certo dia e que a seguir perdera, ou o país que em tempos governara durante quase uma semana?
– Isto faz-me lembrar – repetiu ele – o tempo em que era rapaz.
Olhei para aquele velho, o meu velho, como os pés brancos e velhos metidos na água límpida do rio, nesses momentos que se contavam entre os últimos da sua vida, e de súbito pensei nele, simplesmente, como um rapazinho, uma criança, um jovem, com a vida inteira à sua frente, tal como a minha estava diante de mim. Até então nunca o vira daquele modo. E essas imagens – o hoje e o ontem do meu pai – convergiram e, nesse instante, ele tornou-se um ser misterioso, selvagem, simultaneamente velho e novo, moribundo e recém-nascido.
O meu pai transformou-se num mito.
Daniel Wallace, O Grande Peixe, tradução de Ana Falcão Bastos
A cada instante, a par daquilo que as pessoas considerem ser natural que se faça, e se diga, a par do que se julga certo pensar, quer seja através dos livros, dos cartazes no metro ou de histórias engraçadas, existem também todas as coisas sobre as quais a sociedade passa em silêncio sem ter consciência disso, votando a um mal estar solitário todas e todos aqueles que se apercebem dessas coisas sem as puderem nomear. Silêncio que um dia se quebra, de repente ou a pouco e pouco, e então as palavras emergem sobre as coisas, mostrando-se, enquanto por baixo outros silêncios começam a tomar forma.
ResponderEliminarAnnie Ernaux - Os anos. Tradução de Maria Etelvina Santos
“Outra particularidade que ele adorava naquelas viagens de metro durante a semana depois do trabalho era a luz do final da tarde, que inundava a carruagem qual entidade enquanto o metro ribombava na ponte, levando a exaustão dos rostos dos desconhecidos que viajavam consigo e mostrando-os como decerto teriam sido à chegada ao país, quando eram jovens e lhes parecia possível conquistar a América. Detinha-se naquela luz compassiva que, aos poucos, como mel, tudo recobria, alisando testas sulcadas, dourando cabelos grisalhos e suavizando o brilho agressivo dos tecidos baratos, tornando-os acetinados e de inexcedível qualidade. Depois, o sol guinava, a carruagem desviava-se e, indiferente e pesada, seguia a sua rota, o mundo reavia os desanimados contornos e cores do costume e os passageiros regressavam ao desalento habitual. A mudança era tão abrupta e cruel como se causada pela vara mágica de uma feiticeira.”
ResponderEliminarUma Pequena Vida, Hanya Yanagihara
Editorial Presença, 2022, trad. Miguel Romeira
Excelente explanação!
ResponderEliminarEntre lágrimas e gemidos, o menino foi descido, arrumado ao lado do avô, mas ali não estava bem, um vultozinho pequeno, insignificante, uma vida sem importância, deixado à parte como se não pertencesse à família. Então o homem curvou-se, tomou a criança do chão, deitou-a de bruços sobre o peito do avô, depois os braços deste foram curvados sobre o corpinho minúsculo, agora sim, já estão acomodados, preparados para o seu descanso, podemos começar a lançar-lhes a terra por cima, com jeito, pouco a pouco [...].
ResponderEliminarJosé Saramago - As Intermitências da Morte
Bom, pela primeira vez, desde a primeira linha que sabia a que obra pertencia o texto. Boa.
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