Excerto da Quinzena

Nina levantava-me, e era bom o seu levantar, mas eu nunca lhe hei-de contar como numa noite de Inverno uma chuva inesperada, de mistura com trovões, na casa que lá deixei, entrou pelo buraco da instalação do telefone, se infiltrou ao longo da parede, acumulou-se a um canto da sala e foi desaguar na cesta das revistas. Não vou contar a ninguém, nem sequer a Nina, os desaires que são só meus. Não lhe vou contar como nessa cesta eu havia abandonado, por acaso, O Grande Atlas do Mundo, quando o seu lugar era sobre o tampo da escrivaninha. Só que os objectos são como os seres humanos, procuram o lugar da perdição quando têm de se perder. Ora, nessa noite de tempestade, a água da chuva, seguindo o seu caminho imparável, ao infiltrar-se até chegar ao canto da sala, foi transformando tudo o que era papel acumulado na cesta de verga numa massa informe, sem eu dar por nada. Quando dei pelo material ensopado era demasiado tarde. À chuva e à trovoada seguiu-se o bom tempo, e ali estava o desastre. O Grande Atlas ainda era reconhecível mas estava perdido. Com esperança de recuperá-lo, cheguei a colocá-lo ao sol, ainda lhe apliquei o secador e o ferro de engomar. De nada serviu. Despeguei folha a folha, mas elas tinham-se colado, e à medida que as separava, grandes manchas brancas iam ocupando o espaço onde antes havia a representação de oceanos, mares, continentes, países, páginas bem assinaladas por onde eu estudava o mundo à minha maneira.


Lídia Jorge, Misericórdia


 

Comentários

  1. "Misericórdia" creio que é uma obra recente, lançada há dias. Ainda não ouvi nem li nenhuma apreciação.
    O meu excerto de hoje:
    Eu passara o último ano a separar-me da minha mulher. Havia oito anos que estávamos muito íntima e, com frequência, infelizmente, casados e, durante os derradeiros cinco, eu tentara evacuar o meu exército expedicionário, aquela força feita de esperanças, necessidade suprema, simples desejo viril e compromisso que consumira nela. Tratava-se de uma guerra perdida, e só pretendia retirar-me, contar os meus mortos e procurar amor noutras paragens, porém Deborah era uma grande cabra, uma leoa da espécie: a rendição incondicional constituía o seu único alimento.
    Norman Mailer - Um Sonho Americano, tradução de Eduardo Saló

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  2. _ Se ela voltar, Skeet, não se há-de ir embora outra vez - acrescento.
    _ Não há ses. - O Skeetah esfrega a cabeça, do pescoço até ao cocuruto, como se a pele fosse uma T-shirt que pudesse despir por cima do crânio. Como se pudesse despir-se de quem é e tornar-se outra coisa . Como se pudesse desprender-se da sua forma humana, na escuridão, e eclodir sob a forma de um grande e reluzente pitbull preto, em contraste com o branco da China; correr para o que resta da mata , seguir a linha do riacho e encontrar a China a farejar o tronco de um carvalho cheio de esquilos trémulos, ou a terra, os coelhos debaixo das águas. - Não é se. É quando.
    Quando olha para mim, está outra vez imóvel: areia colada a uma rocha.
    _ Ela vai voltar para mim - diz. _ Vocês vão ver.

    No Coração da Tempestade - JESMYN WARD
    Vencedor do National Book Award
    Tradução de Tânia Ganho

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  3. «Nessa noite de tempestade, a água da chuva, seguindo o seu caminho imparável, ao infiltrar-se até chegar ao canto da sala, foi transformando tudo o que era papel acumulado na cesta de verga numa massa informe.»

    Ao ler isto lembrei-me... daquilo:

    https://tecnico.ulisboa.pt/pt/eventos/regresso-das-viagens-do-livro-molhado/

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  4. "Minhas irmãs :
    Mas o que pode a literatura ? Ou antes: o que podem as palavras ?
    1/6/71"
    Novas Cartas Portuguesas , Maria Isabel Barreno Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa, Edição anotada, Organização de Ana Luísa Amaral, D.Quixote , pág.197

    AM

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