Coisas que já não há

Li num destes sábados um artigo belíssimo, no suplemento «Babelia» do jornal El País, sobre os 50 anos da editora espanhola Tusquets (e os 80 de Beatriz de Moura, sua proprietária) e o anúncio da oferta do seu espólio à Biblioteca Nacional de Espanha. Um espólio destes, reparem, não é de deitar fora: contém correspondência manuscrita com García Márquez, Vargas Llosa ou Milan Kundera, entre outros, com mimos, cumplicidades, zangas e reclamações. Fundada por Beatriz de Moura e Toni López Lamadrid, a Tusquets foi das editoras mais importantes do país vizinho. Começou no tempo em que as editoras emprestavam dinheiro aos autores quando eles estavam nas lonas e em que os escritores-estrelas, quando as editoras passavam por dificuldades e lhes pediam ajuda, sacavam da cartola «um presente que te fará rica», como aconteceu com o famoso autor de Cem Anos de Solidão num momento de aflição da Tusquets, dando-lhe para publicação Relato de Um Náufrago (e a capa do original manuscrito pertence ao conjunto de documentos que vão ser oferecidos à biblioteca), reportagem que fora publicada em fascículos num jornal colombiano dirigido por Álvaro Mutis. Quando Beatriz perguntou se tinha de pagar alguma coisa ao jornal, Gabo respondeu que não, que trataria disso... Imagino como é importante conservar a memória destas relações num momento em que já não existem editoras deste modelo (provavelmente, também os autores serão hoje muito diferentes) e se perde facilmente o registo de testemunhos (tudo é digital) que desaparecerão para sempre quando desaparecerem as pessoas.

Comentários

  1. A Babelia é um dos suplementos literários favoritos. Esse título fez-me lembrar um poema do falecido Manuel António Pina "Coisas Que Não Há Que Há".

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  2. António Luiz Pacheco10 de outubro de 2018 às 01:28

    Coisas que já não há, mas que deveriam haver!

    Afinal todos nós, diariamente, inconscientemente, por comodismo, conforto, medo, por opção, contribuímos para acabar com algumas dessas coisas de que depois, irónica e quantas vezes hipócritamentemente, manifestamos saudade.

    O relacionamento, as editoras, e os autores que já não há, é apenas um pequeno dos muitos exemplos, e, quem acabou com eles? Os que existem hoje, quem os fez assim?

    Na Igreja Católica, chamar-se-ia "acto de contrição", no maoísmo seria autocrítica... entre os reis da hipocrisia (os EUA) seria exposição...

    Saudações cá do Bairro Ribatejano, enquanto houver!

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  3. Tudo muito bonito: siga o exemplo...

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  4. Ó Pacheco, felizmente ainda vai havendo mas, como aqui já se leu, os lorpas abundam por aí...

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  5. Hoje soube-se que o Espaço Ulmeiro irá ser outra das coisas que iremos dizer que "já não há." Um mundo a correr vertiginosamente, uma espécie de frente fria temperada aqui e ali por tantas coisas novas e boas. E, no entanto, o mundo move-se. O futuro é que é diferente daquilo que conhecemos. Ontem escrevi. Está escrito.

    «Fez com a cabeça a resposta, pois era seu costume perguntar e responder, a filosofia é como um açor que volteia no arejo das ilhas. Um movimento circular, como abarcando as profundezas das suas grossas lentes, umas piedosas, alcandoradas numas ventas descaídas como as de bom perdigueiro; um quase sudário armilar de quem sabe que o vento arrasta, o calor torra, a terra espera, para se se cuidar no que o homem vê como seu descuido.
    Mudou de posição procurando melhorar o campo de visão e, quem sabe, dar melhor uso ao seu campo de liberdade:
    «As toupeiras, sabe?!», justificou-se, perante o meu olhar intrigado.
    Gargalhou com vontade, ajeitando os feios óculos de massa. Que vistos sem lupa serviam também de biombo da pele e nariz: eram todo um império.»

    Se continuarmos a escrever nunca morreremos aos nossos olhos.

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    1. António Luiz Pacheco10 de outubro de 2018 às 14:33

      E, nem ós olhos dos outros, ó Pedro!!!
      Porque não localiza e identifica aquilo que escreveu???? As tópêiras (dito á moda do Graínho) tão na órde do dia!

      Grande abraço cá do Bairro Ribatejano!

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