Fado da saudade

Há pessoas que, embora não tendo sido propriamente íntimas, conhecemos relativamente bem; e, porque já morreram (e demasiado cedo), de vez em quando sentimos saudade delas. Além das saudades, fazem-nos falta (a nós, pessoalmente, e ao País). Falo, por exemplo, do ecléctico Eduardo Prado Coelho (nunca mais houve outro intelectual assim tão versátil e aberto a escrever nos nossos jornais, e ele fazia-o TODOS os dias) e do poeta Vasco Graça Moura (VGM), o maior lutador contra o Acordo Ortográfico que tivemos em Portugal, um grande poeta e um enormíssimo contador de anedotas. Fiquei, aliás, bastante feliz quando soube recentemente que a Quetzal acaba de publicar um livro de inéditos de VGM que parece mesmo feito a pensar em mim. Chama-se A Puxar ao Sentimento e é uma compilação de letras para fado (Trinta e Um Fadinhos de Autor, reza o subtítulo). Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Mísia, Patrícia Costa e outras fadistas já cantaram letras do grande poeta que estão publicadas num livrinho chamado Letras do Fado Vulgar; vamos ver agora quem se atira a este livrinho e empresta a sua voz aos textos. Eu vou lê-lo, isso é mais do que certo, excelente forma de recordar VGM quatro anos passados da sua morte (já?!).


 


A puxar ao sentimento.jpg


 


 

Comentários

  1. Bom dia-bom dia! (Como se diz aqui) ou Walale !?

    Excelente evocação de dois vultos da nossa cultura, nos trás aqui hoje.
    Merecem ser não-esquecidos, pelo menos da parte dos que não se empenham em ser politicamente correctos, pois temo que a abertura esclarecida de EPC e a frontalidade conhecedora de VGM não agradem aos censores do pensamento alheio que determinam o que seja o nosso pensar e o que podemos ou não dizer, e qualquer dia, ler!

    Saudações correctamente correctas cá da Cidade Morena!

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  2. Vasco Graça Moura e Eduardo Prado Coelho são indubitavelmente dois grandes vultos da nossa cultura. Ainda ontem relia Vitorino Nemésio e pensava como o século vinte Português gerou tantos extraordinários homens de cultura. As humanidades fazem falta num mundo cada vez mais complexo e hedónico.

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    Respostas
    1. HUMANIDADES, diz muito bem Pedro!!!
      Em que incluo naturalmente aquilo muito propriamente referido como "humanidade", que é ser-se humano … qualidade que tem tido altos e baixos ao longo dos tempos.

      Abraço humanista cá da Cidade Morena

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  3. VGM e EPC, dois homens cultos que escreviam nos jornais e falavam nas televisões com muita frequência, fenómeno hoje raro porque esses espaços foram ocupados por "tudólogos" (comentadores, opinadores, entretedores) que baixaram o nível muitíssimo.
    Ainda que a crítica literária e o ensaismo fossem o principal em EPC, eu apreciava os seus pequenos textos de jornal em que escrevia sobre assuntos do dia a dia que aparentemente não tinham por onde se lhes pegar.
    Desconhecia a faceta de anedotário de VGM e até me surpreende, nele tudo parecia sério. Além de criador, deixou também um notável trabalho de tradutor. Ficava irreconhecível quando escrevia sobre o dia a dia da política, aí não se distinguia dos outros. Parecia que se esforçava por "achavascar", como se isso fosse inerente à política com p pequeno. Também achei inaceitável que, enquanto alto funcionário de uma instituição pública (CCB), praticasse e impusesse a recusa do NAO, desrespeitando as ordens superiores sobre o assunto.

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  4. Do EPC a primeira coisa que eu lia no PÚBLICO eram as suas crónicas na última página, depois é que passava os olhos pelo resto. Aliás, li o saborosíssimo TUDO O QUE NÃO ESCREVI. Do VGM li apenas alguns romances e ouvi cantar fados com as suas letras, designadamente da MÍsia. Claro que fazem falta, hoje nas TVS só falam as toupeiras, cristinas e borra-botas para nosso descontentamento.

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  5. Bom dia. Excelente lembrança a ferrenha luta de VGM contra o AO. Inclusive se lhe atravessa o tom de provocação por intitular "Letras do Fado Vulgar".


    Claudia da Silva Tomazi

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  6. Cantar os nossos poetas é uma das melhores formas de ampliar a sua divulgação.
    Esses dois senhores fazem muita falta ao país. Elevavam o nível, esclareciam, ensinavam a pensar.
    E estou com VGM quanto ao AO. "A puxar ao sentimento" pode ter por destino andar nas bocas do mundo.

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