Viva a República
Todos sabemos que por cá a República foi bastante violenta naqueles anos longínquos em que se sucediam primeiros-ministros à velocidade da luz, se punham bombas, faltava o dinheiro, o caos era absurdo. Mesmo assim, o tempo que se seguiu foi bem menos caótico, mas muitas liberdades foram à vida… E é sobre liberdade que hoje vos falo, pois existe uma Escola Básica e Secundária em Lousada que funciona um pouco à maneira de um Parlamento no qual os jovens podem intervir e propor mudar algumas regras instituídas. O projecto – que valeu à dita escola a designação de Amiga da Criança – chama-se República dos Jovens e, entre outras coisas, esta República conseguiu a alteração do estatuto que regia a conduta dos alunos para algo mais próximo do que estes pretendiam. Todos têm voz, estão representados e têm voto na matéria, influenciando muitas vezes as decisões da direcção (que agradece a ajuda, porque há certas coisas que estão mal na escola mas os directores desconhecem por não andarem a brincar no pátio ou a comer no refeitório). Sentindo que confiam neles, os alunos não se armam em parvos pedindo o impossível, conscientes de que quem tudo quer tudo perde, e aprendem a reflectir, pesar situações, negociar, apelar à justiça. E a disciplina aumentou imensamente. Uma bendita República.
Tenho quase a certeza que foi sobre esta escola, que ouvi há dias uma muito interessante notícia e reportagem na rádio. Uma das medidas acordadas nesta escola com os alunos e implementada com sucesso é a deposição dos telemóveis à entrada na escola, passando os alunos todo o dia sem ele, para o recolherem apenas à saída. Na reportagem ouviu-se testemunhos de educadores e de alunos sobre a ideia e seu sucesso. Estava identificado um isolamento entre os alunos que nas pausas das aulas pouco interagiam. Os alunos dizem agora que conhecem melhor os colegas e que o mito de poderem estar sempre em contacto com o exterior e com os país, revelou-se um não-problema pois a escola facilita todo e qualquer contacto que os alunos precisem de fazer. Na reportagem, pareciam todos aliviados por estarem parte do dia livres da dependência do telemóvel, convivendo verdadeiramente uns com os outros. Percebo agora com este "post" que provavelmente grande parte do sucesso devesse à ideia ter surgido, ser desenvolvida e provavelmente votada por todos, que assim não a sentem imposta e aderiram.
ResponderEliminarbom dia
Miguel Henriques
Bom dia
ResponderEliminarVou imprimir e dar a ler a umas quantas alminhas.
Cordialmente
CPedro
Um bom retrato do que devia significar, República, para todos nós...
ResponderEliminarParticipação, reflexão, responsabilização. As premissas fundamentais para o bom governo da polis.
ResponderEliminarAté parece coisa de ficção.
ResponderEliminarÉ mesmo, eheh...
EliminarA confiança é tudo, sobretudo nas relações institucionais. E não se pense que ela nasce de anos de convívio ou de trabalho conjunto. Não. A confiança nos outros depende de certa predisposição para a crença na alma humana que algumas pessoas possuem e outras não. Imagine-se que, ao invés de dialogar com os jovens, a direcção da escola, temendo abrir-lhes o conhecimento expresso de quanto se passa, decidia enviar-lhes recados de longe, ignorar-lhes a vontade, pressioná-los e mesmo ameaçá-los quando não se encaminhassem no rumo considerado correcto (mas que pode não o ser nas suas perspectivas). O resultado seria o caos, a rebelião e, por fim, a ruptura.
ResponderEliminarViva, pois, a República dos jovens. Fora com os miguelistas da Carta Constitucional que há muito deixou de sê-lo.
E uma excelente quinta - feira.
Ó Sandra… com todo o respeito absolutista, os cartistas eram os apoiantes do D. Pedro, e da sua carta constitucional! Não eram os miguelistas…
EliminarSaudações azuis-e-brancas cá do Reino de Benguela-a-Nova!
Eheheh!
Caro Pacheco: foi de ambos, mas muito mais de D. Miguel, por questões históricas que aqui não aprofundarei. D. Miguel jurou-a apesar de não gostar dela e a verdade é que era um ingrato posto que foi a Carta a revogar a famosa "lei do Banimento" que excluía os seus descendentes da sucessão ao reino que já não há. D. Pedro, que a fez aprovar, pouco reinou ao seu abrigo, fugido (salvo seja!) para o Brasil onde formou um império. Não se contentou com o nosso parco território! :-)
EliminarUm beijinho e saudações azuis aqui da república setubalense! :-)
Sim, ele jurou a carta, que posteriormente renegou… mas , se não estou em erro (o meu ramo não é a história) e peço esclarecimento como compete, os cartistas eram os apoiantes de D. Pedro e depois da filha?
EliminarSabe, é um período da nossa história que acho fascinante!
E já que estamos num blog de literatura, tenho lido excelentes romances passados na época, de que destaco já aqui o último que li, (porque não me parece ter saído mais nada sobre o tema) " O oiro dos corcundas" ! Do nosso Extraordinário Paulo Moreiras!
Saudações, neste caso rubro e negro que são as cores do país onde me encontro!
Olá de novo. Estou muito longe de ser especialista em história, sendo apenas uma pobre leiga que guardou, aqui e ali, alguns ensinamentos de escola. Cartistas eram os defensores da Carta Constitucional! Não sei se isso os torna, obrigatoriamente, partidários de D. Pedro.
EliminarBom fim de semana e um abraço!
Excelente, aplaudo, parabéns a esta escola de Lousada!
ResponderEliminarA Maria do Rosário tem toda a razão: «Todos têm voz, estão representados e têm voto na matéria, influenciando muitas vezes as decisões da direcção (...). Sentindo que confiam neles, os alunos não se armam em parvos (...) e aprendem a reflectir, pesar situações, negociar, apelar à justiça».
Por acaso, tenho andado às voltas com um texto/discurso dessa grande autora que foi Astrid Lindgren (a quarta autora infantil/juvenil mais traduzida em todo o mundo e tão ignorada no nosso país) contra a violência na educação das crianças. Lembrei-me agora dele, porque, a dado passo, ela diz igualmente que a vida em família devia funcionar como uma democracia (ela não diz República, porque viveu num país monárquico, mas também democrático), onde «todos têm voz» e «voto na matéria». O exemplo desta escola dá-lhe razão: há mais responsabilidade e a violência deixa de ser precisa. Era tão bom que todos aprendessem a resolver conflitos sem recorrer à violência (física, verbal e psicológica)!
Uma experiência interessante, que, esperemos assim prepare de facto os alunos para o futuro em que sejam cidadãos conscientes e participativos, responsáveis.
ResponderEliminarDentro do conceito básico romano da "res publica" e dos seus 3 pilares: multitude, comunhão, consenso do direito.
Afinal uma escola é um balão de ensaio de uma sociedade, é como um micropaís, e, esta experiência prova ainda que temos bons e responsáveis professores (aliás a profissão mais nobre de todas) , a despeito de serem menosprezados e violentados pelos sucessivos poderes e governos pós-25 de Abril e por alguns sectores dos media.
Um voto de louvor e uma saudação especial aos professores, cá da Cidade Morena!
Boa tarde
ResponderEliminarler - leituras - leitores - livros - literacia
criar leitores - criar hábitos de leitura
https://criarleitores.blogs.sapo.pt
Por um Portugal melhor.
Melhores cumprts
Francisco Laranjeira
Porque será que isto me fez lembrar uma célebre cassete?
EliminarOu então um disco riscado?
Concordo com o que diz a Rosário acerca de uma partilha democrática nas decisões do mundo escolar que cabem a cada escola definir e que, quase sempre são medidas tomadas -ou pelo menos aprovadas - por uma maioria de professores em reunião de conselho pedagógico e onde os alunos, tal como os enc. de educação, serão mais ou menos um por ciclo de ensino.
ResponderEliminarMas seria interessante saber quantos alunos tem a escola de Lousada e em que espécie de decisões eles participam. Do que li, suponho que serão as relativas a comportamento de alunos em recinto escolar (aulas, recreios, refeitório...). A democracia ateniense também foi original, bela mesmo, mas a maioria da população (escravos e mulheres) não votava nem decidia coisa alguma na vida da cidade. Os cidadãos não eram assim tantos.
Bem observado esse detalhe sobre a Grécia - sobre os votos, em Roma também era assim.
EliminarMas repare que o primeiro princípio da Res Publica é exactamente o número! Não será o caso da escola, porém pode ser um bom princípio para formar os futuros cidadãos!
Claro que a Grécia antiga foi há muito tempo e entretanto o conceito de democracia terá evoluído com a liberação da mulher e a abolição da escravatura, porém é curioso notar que o direito romano (o terceiro pilar da Res Publica) permaneceu nos países ditos latinos, e, se formos a ver estes o transmitiram por exemplo às suas antigas colónias!
Boa noite para si, de uma noite calma cá na Cidade Morena!