Boas recordações
«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros.» A frase, absolutamente maravilhosa, é de José Saramago e pertence ao romance A Caverna, o primeiro que o escritor publicou depois de vencer o Nobel da Literatura, há vinte anos; foi recentemente partilhada por um jovem escritor no Facebook que me deu a ideia de a partilhar também. Além de tudo, fez-me lembrar os anos em que eu fazia a Feira do Livro de Lisboa dentro do stand, atrás do balcão, e numa bela tarde uma senhora, que quase de certeza nunca entrava em livrarias por se sentir intimidada, chegou ali ao parque, viu aquelas casinhas, tomou coragem, aproximou-se e disse, a olhar para mim: «Ó menina, tem algum livro que ensine como se deitam os canários?» Eram outros tempos. Boas recordações.
Os livros de Saramago estão cheios de frases "sublinháveis" e quem não lê este admirável escritor não sabe o que perde.
ResponderEliminarUns por preconceito, outros por preguiça intelectual...
Possivelmente ainda lhe comprei algum livro. Quando morava em Lisboa todos os dias ia à Feira à tardinha, nessa altura era na Av. da Liberdade.
Boas recordações.
Maria
"Ensinar como se deitam os canários" pura poesia !
ResponderEliminarA melhor declaração de amor aos livros encontrei-a num volume, num alfarrabista, intitulado "ENCONTROS-Impressões sobre Livros e Escritores" da autoria de Stefan Zweig, editado pela Civilização em 1938-Porto.Essa declaração tem por título "Agradecimento aos Livros" e é demasiado extensa para ser transcrita, mas mais actual, quanto a mim do que a do Saramago, neste tempo que novas tecnologias ameaçam o prazer de lê-los, acariciá-los e , cheirá-los. Termino com a frase do Stefan: "Todavia, quando as nossas mãos vos libertam, quando o coração vos toca, logo invisíveis despedaçais o espaço;a vossa palavra leva-nos em carro de fogo, arranca-nos da prisão estreita e conduz-nos à eternidade.",
ResponderEliminarE Borges sintetizou todo o seu amor aos livros numa única frase:
Eliminar"Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de livraria."
Maria
Nuns sítios diz Livraria, noutros Biblioteca. Talvez Biblioteca seja mais provável, pois Borges foi director da Biblioteca de Buenos Aires.
EliminarMaria
Nos seus romances o Camilo Castelo Branco emprega muitas vezes a palavra livraria em vez da acepção mais correcta que seria biblioteca.Mas se calhar era comum no séc. XIX.
EliminarAinda agora se faz muita confusão quando se traduz Library (Biblioteca) por Livraria, sendo que palavra inglesa para Livraria é Bookshop.
EliminarMaria
Belas palavras essas sobre os livros… vindas de grandes escritores, como teria de ser!
ResponderEliminarNão concordo com Saramago em muita coisa, penso mesmo o contrário… porém sempre achei e continuo a achar, que em relação aos artistas me foco em apreciar a sua arte, neste caso a da palavra, a de transmitir emoções.
Por isso, e como dizia noutro dinâmico post de uns dias atrás, é que consigo frui-los a todos, independentemente das suas ideologias, comportamentos, atitudes, etc.
E se calhar, é por essa diversidade que produzem livros tão diferentes.
Ainda bem!
A literatura, os livros, são superiores a tudo o resto!
Saudações cá desta traça dos livros, na Cidade Morena!
"MEMORIAL DO CONVENTO" foi o melhor livro de amor, repito, de amor, que li até hoje!
ResponderEliminarJOSÉ SARAMAGO é, naturalmente dentro do meu limitado conhecimento do mundo de leituras, o melhor escritor português depois de Camões e do Padre António Vieira (e refiro estes dois não porque goste mais mas apenas porqhe aqui falo pela boca do próprio Saramago).
Oh, Rosário, mas frase é tão linda, "deitar um canário". Embora queira dizer pô-lo(a) a chocar os ovos.
ResponderEliminarPodemos sempre pensar que a senhora queria deitá-lo. pô-lo em posição horizontal, perna esticadinha; e talvez aconchegá-lo na gaiola em lençolinho bordado a ponto pé de flor ou cadeia. E não era bonito ter ela um canário que assim dormisse?! Era, era.
E pois é claro que os livros são eles. Feitos para esperar por nós. Mas não nos atrasemos demais que também desconchavam, desmancham, bolorentam, cheiram a bafio e causam espirros em série. E é uma pena não servirem o seu fim. Vamos a eles.