Envelhecer

Fiz anos há pouco tempo, como sabem (não escrevi post nesse dia), e não sei se é pela proximidade dos 60 mas a verdade é que fiquei um bocado deprimida. Disse sempre que guardaria alguns destinos de viagem para a velhice (os mais próximos em termos geográficos) e, nova ainda, aproveitei para ir a locais distantes (alguns a trinta horas de avião, incluindo escalas). Mas com os livros fiz o contrário – e deixei algumas coisas de peso que requerem tempo, descanso, maturidade e paciência para a reforma ou, enfim, um pouco antes dela. Ora, percebi que isso não vai acontecer. Estava a arrumar alguns livros no fim-de-semana quando descobri que, relativamente a dois autores de que gosto particularmente (Roth e McEwan), só me lembro bem dos livros que li há mais tempo; e os que li há menos tempo é quase como se não tivesse lido, fizeram-se um apagão… Confundi Humilhação com Todo o Mundo, por exemplo; e, ao ver que o britânico escreveu o guião para o filme A Balada de Adam Henry (que estreou há pouco), tentei lembrar-me do enredo do romance e só via uma juíza em crise de casamento mas já não me lembrava do rapaz que era testemunha de Jeová (tive de ir à Wook para refrescar a memória). Tenho a impressão de que, se é para esquecer em três tempos, vai ser frustrante ler as obras-primas que planeei, mesmo que durante a leitura me dêem muito gozo, e se calhar é melhor não lhes tocar. Que chatice.


 


P.S. De ontem até dia 7 decorre a Escritaria em Penafiel, desta vez dedicada ao escritor angolano Pepetela. Se estiver por essas bandas, vale muito a pena.

Comentários

  1. Como a compreendo, isso já está a acontecer comigo há uns tempos... e não estou a gostar nada, mesmo nada.
    Maria

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  2. Os apagões das leituras mais recentes também já lhes senti os efeitos. Um problema terrível se começamos a pensar que não vale a pena ler sabendo que vamos esquecer. Vou-me defendendo dos apagões de lugares visitados mantendo-os disponíveis mediante registos escritos e fotos a que recorro com mais frequência do que imaginaria.

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  3. Em primeiro lugar, parabéns, ainda que atrasados.
    Em segundo, posso dar a minha opinião? Se lhe derem prazer a ler, mesmo que seja apenas o momentâneo, siga com o seu plano.

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  4. Acho que esse é o grande problema de quem lê muito (assim com de quem vê muitos filmes...).

    A partir de certa altura, confundimos e misturamos algumas coisas... normalmente boas (o que não presta deixa uma marca qualquer, que distinguimos com facilidade...).

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  5. Há livros que se "varrem" muito rapidamente, contudo, de outro modo, há cenas inesquecíveis que permanecem eternamente na memória do leitor; o miúdo apanhador de fruta a cair de uma pereira na "Batalha incerta", do John Steinbeck, o cágado a subir um passei no sublime "A leste do paraíso", também de Steinbeck, Jean Valjean a esconder os castiçais debaixo do capote e o Padre Muriel a dizer ao polícia que lhos ofereceu, no épico "Os Miseráveis"--quem não leu os miseráveis não subiu ao ponto mais alto do prazer da leitura--, o rosto brilhante e amoroso de Blimunda.

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  6. Lá se vão para o olvido as 700 páginas do Pátria de Fernando Aramburu... ☺️
    Não está só, garanto-lhe: por vezes descubro que já li determinado livro pelo simples facto de o encontrar sublinhado por mim... uma surpresa!
    Em parte, julgo ser normal: com tanta informação, o nosso cérebro, coitadinho, de vez em quando tem que fazer o reset, de outro modo estouraria... 😀
    Fica o prazer da leitura.

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  7. Para que a informação efetivamente "fique", é necessário um esforço mental acrescido, nomeadamente o recurso a técnicas semelhantes às que utilizamos quando estamos a estudar. Felizmente, quando a leitura é feita somente com o intuito da fruição, não nos é exigido apelar a estes mecanismos, que são exigentes e custosos (e que aborrecido seria se).
    A memória gera-se também em função de associações, sejam elas emocionais ou sensoriais, algo que pode explicar em parte a sua maior ou menor selectividade.
    Evidentemente, o envelhecimento não ajuda no processo, mas não desanime...
    A memória tem um grande potencial de estimulação! Para além disso, penso que quem está mais sujeito a esta maior debilidade são até as gerações mais jovens (nas quais me incluo) , a quem a informação está sempre prontamente disponível, não havendo a necessidade de recorrer a processos de "recall memory".
    Que nada a impeça de ler, muito menos a consciência de que somos seres inevitavelmente limitados.

    Parabéns atrasados!


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  8. Nas segundas leituras não consegui acabar o ULISSES nem o PROCESSO, o Camus com alguma dificuldade. O Proust da "Recherche" não passei do 2º volume. Por outro lado releio com prazer tanto o Céline como o Truman Capote, além dos clássicos portugueses, Eça, Camilo e Aquilino.Agora estou com o Dickens, devagarinho e com o Naipaul.

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    Respostas
    1. Eu volto sempre ao "PROCESSO", um livro diabólico, um livro mirabolante, um livro espantoso, um livro de grau dificuldade extrema, um livro incomparável, atrevo-me até a dizer um livro sem palavras, mas um livro para a eternidade!

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    2. Que descrição... Será o meu próximo!

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    3. Há tempos recomendei a leitura do "Processo" a um amigo que não era um grande leitor mas infelizmente com essa recomendação creio que o afastei definitivamente da leitura (fui mais papista que o papa -- ("tu és maluco, mas aquilo é alguma coisa"--).

      "O Memorial do Convento" na primeira vez em que lhe peguei larguei-o à página 50, na segunda à pág. 51 e à terceira li-o de uma só vez e será, provavelmente, (para mim) a mais bela história de amor que li até hoje (é assim que vejo -vejo mesmo- este grande livro).

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  9. António Luiz Pacheco2 de outubro de 2018 às 09:38

    Ora! E depois? Acredita que em morrendo leva consigo as memórias dos livros que leu, há muito ou há pouco tempo? O que se lê é pelo prazer que dá no momento da leitura e não pelo que nos recordamos… quero lá eu bem saber, morrer com boa memória é tão útil quanto morrer rico, ou com fome… quando morre tudo passa, acredite!

    Boa proposta essa para Penafiel, sou grande fã do Pepetela!

    Saudações cá do Bairro Ribatejano.

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  10. Essa questão é um pouco parecida com a idade para, quem pretender, escrever uma autobiografia ou as "Mémórias". Se escrever com 50 anos, terá a cabeça fresca para recordar, mas com metade da vida por relatar. Por outro lado, escrevê-las com 90 anos será um desafio para recordar tudo com consciência e se calhar sem força para terminar uma tamanha obra.
    O prazer dos livros está durante a sua leitura. Não iremos recordar todos os livros que lemos, mas na idade em que os lemos, fazem todo o sentido.
    Haverá alguma lista com os livros a ler por idade? Abraços.

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