O stress da liberdade
Uma amiga francesa mandou-me um link sobre um livro francês que defende a criação de novos vocábulos em substituição da adopção de palavras estrangeiras, baseando-se na afirmação de Wittgenstein de que «os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo». Uma dessas palavras que, pelos vistos, faz falta à língua francesa (e à portuguesa) é Freizeitstress, palavra alemã que quer dizer à letra «stress do tempo livre» e traduz a angústia do homem do século XXI, «devastado entre procrastinação, sede de viver e medo de agir». O autor do livro, Laurent Nunez, explica porquê: antes de 1914, um camponês ou operário francês vivia 500 000 horas, trabalhando 200 000 e dormindo outras 200 000; restavam-lhe 100 000 para tudo o resto; hoje, a esperança de vida em França é de 700 000 horas. Dedicam-se 30 000 ao estudo, 70 000 ao trabalho e dorme-se menos duas horas por dia do que antes da Primeira Guerra Mundial. Temos, pois, 400 000 horas para tudo o resto – e é tanto que não sabem as pessoas o que fazer dele, pensando erradamente que não têm tempo para nada… Laurent Nunez conclui que talvez não gostemos assim muito de liberdade. Mesmo quando não temos uma palavra para dizer o que sentimos, ao contrário dos alemães.
Hum… não concordo lá muito com a teoria desse tempo todo livre, nas modernas sociedades… pelo menos em Portugal! Porque quantas horas por dia, mês, ano e em toda a vida , se consomem nos transportes para e desde o trabalho? Isso está contabilizado como tempo livre? Então é um erro, digo eu no meu atrevimento opinioso.
ResponderEliminarCreio que pelo contrário as pessoas cada vez têm menos tempo livre, pois as obrigações e ocupações como ir às compras (não se pode em boa verdade dizer que é tempo livre ou de lazer…) e outras diárias, consomem muito tempo.
Quanto à germânica e complexa expressão, creio que os ingleses há muito criaram uma expressão curta e adequada, que aos leitores de Júlio Verne não será estranha: o "spleen", que em português também se pode dizer melancolia, aborrecimento ou lazeira… procurem bem que são capazes de descobrir uma quantidade de expressões que se adequam!
Saudações prazeirosas cá da Cidade Morena!
O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.
ResponderEliminarAntónio José Forte
Mas essa palavra não é inteiramente alemã, não me parece um bom exemplo.
ResponderEliminarFrei = livre em alemão
Zeit = tempo em alemão
Stress = nem precisa tradução, mas a origem não é alemã...
Mas a Cristina Torrão dirá de sua justiça, se por aqui passar.
Resumindo, Freizeitstress ou "Angústia do Lazer" é coisa que desconheço; o que conheço bem é o stress de não ter mais horas para fazer aquilo de que mais gosto.
Maria
Discordo. Não me parece que o tempo livre - mesmo livre - seja tão extenso como afirma Laurent Nunez. É verdade que dormimos menos o que, desde logo, compromete o tempo livre que exista; chegar a ele mais ou menos exausto não é indiferente. Por outro lado, há alguma coisa que não vem contemplada nesse somatório de horas, não sabemos quantas horas são dedicadas ao viver - que não se cinge a dormir e trabalhar e hoje, certamente exige muito mais horas.
ResponderEliminarResta dizer que ter tempo livre não é o exercício da liberdade mas apenas e talvez a sua possibilidade. Que a liberdade não é apenas física. E a mente humana prolongada por tecnologia e inventos, duvido que seja mais livre ou sequer humanamente mais rica. Há muito factor que a estatística não contempla.
Compreendo em parte, a existência desse "novo stress". Mas como já foi referido, é um "stress" que chega a uma pequena fatia da sociedade, só aqueles que têm tempo para não fazer nada... para usar e abusar da liberdade.
ResponderEliminarDiscordo é que isso tenha que ver com o gostar ou não da liberdade. Liberdade é também ficar parado a ver o mundo a correr...
Embora esteja a fugir do tema, o que também noto, é que o excesso de oferta (no nosso caso, das culturas...), também nos faz mal. Por vezes, aproveitamos o facto de não nos podermos dividir, para não ir a sítio nenhum...
Sábias, as palavras do Luís Eme!
EliminarO stress da liberdade poder-se-ía (muito bem) estar à melhor idade. Outro sim, exemplar se lhe fica sem escala; da capacidade ignimática humanamente a priori.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Um dia, li uma frase de um inglês que muito me impressionou (desculpem, já não sei quem foi): «a língua alemã é muito flexível». Impressionou-me, em primeiro lugar, por vir de um inglês e, em segundo lugar, por usar o adjetivo "flexível" para caracterizar a língua germânica. Ele baseava essa sua afirmação no facto de, em alemão, ser relativamente fácil criar palavras novas: é só juntar duas, três, ou quatro palavras numa. E "Frei-zeit-stress", como veem, junta três, embora a última não seja propriamente alemã, como diz a Maria. Por isso é que o alemão é tão adequado à filosofia, criando termos muito, mas muito difíceis de traduzir. Também na literatura: "Leitmotiv" (duas palavras), ou "Lokalkolorit" (também duas palavras). Estas são curtas, mas, para quem sabe alemão, as longas (por vezes, quatro juntas) não são nenhum quebra-cabeças, pois conhece-se cada uma delas. É só juntá-las.
ResponderEliminarJá conhecia "Freizeitstress", mas costumo ligá-la a outro modo de stress, ou seja, quando as pessoas, por exemplo, vêm mais cansadas das férias do que antes de embarcarem nelas. Ou quando a oferta para os tempos livres é tanta, que nós, a fim de não perdermos algo que possa ser (ou julgamos ser) divertidíssimo, acabamos por andar em correrias maiores durante o fim-de-semana do que durante a semana. Sob estes pontos de vista, "Freizeitstress" é bem diferente de "spleen" e penso que é esse sentido que se usa na Alemanha.
Em tempos antigos, o "Freizeitstress" não existia, porque não havia férias (os camponeses nunca tiveram férias, apenas o domingo livre, para ir à missa, assim como alguns dias santos) e não havia tanta variedade de ocupações para os tempos livres.
Por falar na questão das férias: sabiam que grande parte dos divórcios acontecem durante, ou imediatamente a seguir às férias? (Pelo menos, a decisão de se divorciar). A razão é por as férias juntarem famílias que, no dia-a-dia, desaprenderam a viver juntas. Os pais nos seus empregos, os filhos nos seus estudos, vivem quase sem se encontrarem. Durante as férias, são obrigados a viverem todos juntos e desentendem-se. Isto sim, também pode ser "Freizeitstress". E é bem um sinal dos tempos.
Vamos lá esclarecer: o "spleen", usado por Julio Verne e parece-me que por Eça , é precisa e exactamente o stress de quem não tem nada que fazer, a tal maçadoria!
ResponderEliminarAtacava os jovens de boas famílias, ricos, que vitorianamente aspiravam a grandes feitos, mas vegetavam entre o "club" e alguma obra social com que tentavam entreter-se do tédio da sua vida de quem tinha tudo ao som do toque da campainha, protegidos pela fortuna familiar.
Não sei se é aplicável ao que hoje aqui se fala, mas parece-me que sim… e se me é permitida uma citação, lembro que "nihil sub sole novi"...
Na nossa língua a maçadoria ou "uma seca" parece-me que define bem a situação!
Mas, o que sei eu?
Sua melius insanus curat quam sapiens aliena.
Li, já há alguns anos e não recordo onde, uma frase de que gosto muito:
ResponderEliminar"Time is the new money"
Aspiro a sofrer cada vez mais desse "stress do tempo livre"
Rui Miguel Almeida
E o silêncio, Rui Miguel?
EliminarCada vez mais raro, cada vez mais precioso...
🍁
Maria
Concordo em absoluto, Maria, o silêncio é cada vez mais raro. Procuro-o amiúde, até porque sou bicho que precisa de estar sozinho de quando em vez.
EliminarRui
Obrigada por esta partilha. Enquanto ser em permanente conflito com o tempo, vou procurar mais sobre este conceito!
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