Pensar palavras
Ando o dia inteiro de roda de palavras, e um dia destes, ao ler um e-mail de um agente espanhol, olhei para a palavra castelhana «enlace» (que, no contexto, seria aquilo a que chamamos link, adoptando a palavra inglesa, mas que é «ligação, enlace») e perguntei-me porque seria que o «desenlace» de um romance se chama «desenlace», se é o momento em que todas as pontas se atam, e não aquele em que se desatam ou desligam… Não tendo chegado a nenhuma conclusão (a verdade é que também não dei uma importância desmedida ao assunto), encontrei pouco depois num texto os verbos «fincar» e «vincar» separados por meia dúzia de linhas e logo me pareceu que, quer porque as palavras fossem demasiado parecidas (a única diferença está na consoante inicial, surda num caso, sonora no outro) quer porque as acções carregassem ambas uma certa dose de força imprimida (para enterrar/cravar, para marcar/fazer o vinco), ambas deveriam ter a mesma origem. Mas não: ao que parece, «fincar» está mais ligado a «ficar» (ficar com muita força?); e de «vincar», enfim, pouco se sabe, o Houaiss diz que a palavra «vinco» tem origem obscura, embora já existisse no século XIII. Nada feito, às vezes o que parece não é.
Por alguma razão se diz que a língua portuguesa é muito difícil...
ResponderEliminarMaria
Acho este tipo de análise morfológica muito interessante, mas neste caso é curioso, mas para mim, é desenlaçar que faz sentido - e não o seu contrário. Vejo o fim de um romance mais como um “desenlaçar” de todos os nós/laços, do que um “laçar” de todas as pontas. Visualizo o “e viveram felizes para sempre” como um fio solto e desimpedido, e não como um fio cheio de pontas atadas. Ou se quisermos usar outra imagem, o romance parte geralmente de uma situação complicada, ou que se vai complicando (os nós ou laços) e desenvolve-se no sentido da sua simplificação, ou pelo menos explicação (o desenlaçar dos nós/laços)…
ResponderEliminarTambém vejo o «desenlace» de um romance mais como uma libertação, no sentido em que o enredo serve para «emaranhar», ou «enredar». Mas é interessante que, no durante, falemos de «pontas soltas»... Bem, talvez as pontas não estejam verdadeiramente soltas, ou melhor, só o estão para o leitor.
ResponderEliminarSempre ouvi a minha Mãe falar-me no vinco das calças.
ResponderEliminarVincar ou fazer vinco...da natureza humana se lhe meter cinco dedos.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Desenlace, para mim sempre significou o finalizar de uma história ou acção. Até se pergunta: e qual foi o desenlace?
ResponderEliminarEm castelhano, conheço o termo enlace no sentido de acontecimento ou envolvimento, desenlace acho que nunca ouvi dizer.
Do mesmo modo, fincar significa ferrar ou cravar... fincou as garras, fincou os dentes.
Em castelhano finca é aquilo a que chamamos quinta ou mais exactamente herdade.
Vincar, para mim é frisar no sentido de destacar... o que se aplica também ao vincar das calças que é deveras um destaque do meio da perna calça ou vinco!
Isto, sem ir ao diccionário... porque são palavras que conheço e uso, quiçá erradamente, mas assim aprendi.
Saudações destacadas, frisadas ou vincadas, cá da Cidade Morena!