Vocabulário
Diz quem sabe que a geração que já nasceu com toda a tecnologia à disposição (e que não dispensa computador, telemóvel e, quando possível, também tablet, em que assistem a séries e filmes inteirinhos) tem menos vocabulário do que aquela que a precedeu. Sinto, na minha profissão, que de facto muitas palavras e expressões que eu ainda uso regularmente não constam quase nunca dos livros que me mandam para apreciação, embora também me surjam outras novas que não existiam quando eu era jovem (muitas delas aportuguesamentos de vocábulos ingleses, claro). E um dia destes uma colega minha que tem um filho de 15 anos no 11.º ano contou-me uma estranha história. Num teste de Filosofia, quase todos os alunos da turma erraram numa determinada resposta. E porquê? (Se pensam que isto tem que ver com filosofia, desenganem-se.) Pois bem, simplesmente porque nenhum deles sabia que a palavra «hábito» podia designar, além de costume ou prática frequente – o que era um dado adquirido –, a veste dos monges ou das freiras (como na conhecida frase «o hábito não faz o monge»), razão pela qual não conseguiram sequer perceber a pergunta. Olhem, os religiosos que rezem pela pequenada, que eu não sei onde isto vai parar...
É o que faz vivermos num regime laico. :)
ResponderEliminarAgora mais a sério, é normal. Até parece que já não existem conventos, e que as freiras só fazem parte de anedotas, pelo se perdeu o hábito de falar de muitos "hábitos"...
A língua está sempre em mudança, quase todos os dias se criam palavras novas, e outras vão desaparecendo. É o ciclo da vida...
cariz baixo (cabisbaixo)
ResponderEliminarPaulo Marés (palmarés)
sequesso (sexo porque se lê sé-que-sso!)
degestir (desistir)
e etc.
e etc...
Passei muitos serões a jogar à "enciclopédia", e os almanaques Bertrand e as Selecções do Reader's Digest traziam muitos jogos de palavras cruzadas, e similares, que julgo serem do mais didáctico que existe no tocante a vocabulário!
ResponderEliminarO Trivial Porsuit ainda animou algumas tardes daquelas em que não havia nada para fazer, e já eu era casado... era um jogar à enciclopédia mais sofisticada, mas foi moda.
A tendência actual é compactar, resumir, diminuir, facilitar e tornar assim as coisas acessíveis, defendem os modernos. Sei que o anseio maior do homem é de facto ter a vida facilitada ao extremo, mas também me parece (estou velho, assumo, e chato segundo diz a minha malta) que há limites. A escola devia ter um papel mais preponderante no que toca a dar vocabulário, e em casa evidentemente... pois quanto mais palavras e termos de conheçam mais rica, fluida e compreensível é comunicação.
Creio já ter aqui referido que lá em casa, quando falando entre nós todos, estão proibidos os termos que os jovens usam entre si... tentamos cultivar a conversação como uma arte elaborada e rica em vocabulário. Suponho já ter dito que o meu filho desde muito pequeno falava bem, e muitos amigos meus o notavam e achavam piada! Já no jardim infantil, a educadora dizia qualquer coisa sobre um camião de brinquedo, e o António Pedro foi corrigi-la: Não,é uma betonei'a ... e ela achou imensa graça. Mas foi a educação que lhe dei, e, à noite em época festiva de mesa posta, eu ordenava: "Meninos, procedam à localização, captura e encerramento do felino doméstico!".
Saudações calorosas cá de Cidade Morena.
E os seus jantares tinham alguma graça?...
EliminarOs garotos não usam com os pais e outra gente mais velha a mesma linguagem que usam entre eles. Basta atentar - em alguns casos - na conversa bichanada que têm com o colega do lado se for da sua idade e como se expressam para a mesa:)
Ora se tinham Caríssima Beatriz!
EliminarEram extraordinários quase sempre... não se via TV, conversava-se e havia quase sempre alguém exterior ao agregado, os penduras, fosse uma tia ou tio solteirão, um convidado ou um pendura qualquer que algum de nós levava... os gatos debaixo da mesa e a perdigueira do meu pai sentada ao lado dele com a cabeça no colo, em cima de um pano para não lhe sujar as calças!
Em minha casa sempre se cultivaram as refeições e sobretudo o jantar era sagrado porque se conversava sobre o dia, o pai indagando sobre a escola, e dando lições, a mãe sempre com alguma facécia, e os assistentes que contribuíam de algum modo... eram jantares de tertúlia!
E, mantemos essa cultura sempre que podemos... as minhas irmãs, cunhados, sobrinhada e namorado/as ou maridos/mulheres adoram este nosso ritual...
Conversa-se muito e há liberdade de não se gostar de caça ou de toiros, ou de ser homossexual, o que até gera saudáveis discussões esclarecedoras! O que não se admite são faltas de respeito e nem linguajar impróprio por desadequado.
Saudações saudosas cá da Cidade Morena!
:) muito obrigada pela descrição.
EliminarTristeza ! Significa que nunca tinham ouvido a expressão "o hábito não faz o monge". Que pobreza cultural permeia os nosso dias.
ResponderEliminarEste mundo está perdido. Sempre esteve e estará.
ResponderEliminarJCC
No tempo em que se instalou o bué aconteceu o mesmo a coche. Infelizmente este está a perder-se. A evolução que partindo de poucochinho conduziu a coche até me faz lembrar a que partiu de Jacob e chegou a Tiago (desculpem-me o disparate da analogia). Confesso que tenho pena que a escolarização esteja a impedir que tamém substitua também. Já o Tasse...
ResponderEliminarBué e outros termos como o maningue foram difundidos pelos retornados, como aliás seria de esperar acontecesse. O nosso idioma português tem a particularidade de ao longo dos séculos ter englobado muitíssimas palavras arrebanhadas pelo Mundo onde andamos - práticamente todo! Não sou especialista na língua portuguesa como obviamente alguns extraordinários são, mas creio que é assim como digo, não?
EliminarNão me fazem confusão nenhuma nem novas palavras nem o facto de a juventude ter a sua gíria hoje como eu tive a minha no meu tempo. O cuidado a ter , em minha opinião, é em não deixar cair no esquecimento porque a tendência é simplificar, tanto termo, expressão ou palavras que enriquecem o nosso idioma, sejam eles Sul-americanos, africanos, árabes, timorenses, chineses, indianos ... essa a nossa riqueza!
Fiquem bem, como se diz aqui, expressão que adoptei sem nenhum prurido pois a acho muito apropriada e calorosa!
Pior do que não saberem é não saberem que não sabem. Porque, se soubessem que não sabiam, podiam perguntar. Agora, se o(a) professor(a) também não soubesse...
ResponderEliminarUma excelente oportunidade para a escolha de passwords nas novas tecnologias.
ResponderEliminarEm vez de colocar "1234%#" ou "password&44" por exemplo podemos sempre colocar "hábito", "candeia", "dirimir" ou "dactilografia". Vai parecer que são palavras inventadas.
Mas não é uma geração perdida, enquanto houver "hábitos" de leitura.
Há uma tendência generalizada para criticar o ensino e os professores.
ResponderEliminarEsquecemos-nos é da globalização, do facto dos nossos filhos lerem, escreverem e falarem inglês como nós nunca falaremos.
E com o rumo do nosso país, eles já perceberam (tal como nós) que se safam melhor com o inglês que com o português.
Até porque o emprego por cá só têm crescido devido ao crescimento do turismo, e é quase sempre precário e mal pago.
Acontece, extraordinário Luis Eme, que, no caso em apreço, os pobres teriam em inglês rigorosamente o mesmo problema que tiveram em português!
EliminarClaro Francisco.
EliminarMas eu não me estava a referir a este aspecto em particular.
Sinto (até pelos meus filhos com 17 e 11 anos), que hoje há um domínio generalizado do inglês, graças à internet, que faz com que a nossa língua esteja a ser relegada para segundo plano.
Discordo. Falam melhor o inglês, mas têm essa obrigação; alguns levam doze anos de inglês quando entram na faculdade e podem acrescentar, portanto; ora nenhum de nós teve tal oportunidade. Além disso, séries e filmes que vêem - e vêem muito tempo e muita coisa nesse tempo - são quase todos em inglês. Olha a avaria que fazem!...
EliminarHaja emprego onde haja, não deixam de ter como língua materna o português. E amar a língua Natal não só é bonito como necessário, faz parte do sentimento de pertença, julgo eu.
Não sou monge, mas também posso rezar pelo português nas mãos dos homens do futuro:). Não desfazendo, tenho alguma intimidade com o divino.
ResponderEliminarÀs vezes mete-me dó o paleio da malta nova, quer falado quer por escrito.
ResponderEliminarMas pronto, bem sei que isto é da idade – e não só da minha, é também da deles.
O que me mete mais espécie (sinónimo de “mais me chateia”) é o desleixo e a falta de rigor em relação ao vocabulário.
Sim, porque já vi escrito " bocavulário ”.
Mas pronto, também sei que algumas das novas e estranhas palavras acabam por ser integradas na nossa língua, e que outras, antigas, por desuso tendem a desaparecer. Sempre foi assim, é a normal dinâmica de uma língua viva.
Assim sendo, proponho que o novo Governo, para enriquecer a língua, delibere incluir no dicionário português aquela nova palavra, " bocavulário ”, com a seguinte definição: “Asneiras que o asno deita pela boca fora.”
Quanto à aprendizagem de outras línguas, acho muito bem, desde que não se descure a própria.
Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, onde as línguas são, cada vez mais, instrumentos de sobrevivência.
Creio que, a propósito, já aqui contei aquela fábula do gato que aprendeu a ladrar, e graças a isso conseguiu enganar um rato, que facilmente caçou. Depois de o comer, e enquanto palitava os dentes, de papo cheio comentou para si próprio: “Isto, hoje em dia, quem não souber línguas não se safa.”
Nem a propósito! Acabei ontem de ler o novo Prémio LeYa, O Coro dos Defuntos. Quando cheguei ao fim, fiz um exercício nunca experimentado por mim antes: sublinhei no glossário os termos que conheço. Lá estava o estadulho! Nunca ouvi tal palavra fora da aldeia onde vivi. Nem cabonde. O Aquilino também era beirão. Ainda assim, no livro há palavras que não constam no glossário e que desconhecia. Riquezas perdidas da nossa língua, para quem gosta de ler com um dicionário ao lado. Não foi o meu caso - valeu-me o contexto, na maioria dos casos.
ResponderEliminarTalvez esses jovens de 15 anos não queiram ler este livro, mas aprenderiam umas quantas palavras, sem dúvida.
Ainda sobre o que os nossos jovens sabem ou não sabem, há dias o meu filho de 12 anos também teve de inventar quando a professora de Português lhe pediu para fazer uma composição a partir da moral da história do texto: «Se não queres ser lobo, não lhe vistas a pele.» A ele, valeram-lhe os livros de aventuras que tem andado a devorar, pois nunca tinha ouvido tal frase nem sabia bem o que queria dizer, mas a imaginação levou-o para um texto que fez sentido! Ler vale mesmo a pena, foi a minha resposta.